quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Perder o sono; ganhar a noite - por Carlos Jazzmo (2001)


Perder o sono; ganhar a noite
por Carlos Jazzmo (2001)

(obra ficcional registrada na Fundação Biblioteca Nacional) 











“O fundo do poço vai dar numa rede de esgotos” – Henry Lee Junky.








Underdogsville, 17.03.2001



Num mundo realmente globalizado, pessoas dos mais diversos continentes terão suas mentes constituídas de referências idênticas. Como resultado, ideias iguais pipocarão como milho, da Ásia à Subamerica, criando uma bagunça sem precedentes no mercado de registro de patentes e propriedades. A convergência de todo tipo de informação para o mesmo buraco negro nivelará diferentes tradições e criará uma população única, de negros albinos de olhos azuis puxados e narizes afilados e islâmicos, dotada do verdadeiro conceito de inconsciente coletivo. A linguagem será enfim unificada e a Interconsciência então nascerá e causará todo tipo de problemas, a despeito do nascimento de uma arte universal, tão almejada pelas vanguardas do já passado século XX, agora dona de um conhecimento perfeito sobre os processos de imaginação e associação de elementos do inconsciente humano. Mentes trabalharão em conjunto, sob o comando de propósitos, interesses e caprichos comuns.

A briga pela propriedade intelectual vai ser a causa da Terceira Guerra Mundial.

Até lá, enquanto o mundo não alcança tão elevado nível de integração e eficiência enquanto organismo de geleca, a Interconsciência e seus benefícios pode apenas ser induzida. Várias são as maneiras.


- Boa noite.

- Bom dia.

- Tanto faz. Underbroadway, por favor.

- Essa hora é “boa noite” para quem não dormiu, certo?

- Perdão. Eu não falo sua língua.

- Sim senhor.

“Eu não acredito em Deus. Eu tenho fé na pureza das pessoas, na inocência, na irresponsabilidade que dá margem ao inesperado, ao acaso, às coincidências puras. Afinal, foi das coincidências que o mundo nasceu. A aleatoriedade é a força criadora de tudo. O hidrogênio se une ao oxigênio numa proporção de 2/1 e voilá, água! Quem me diz que foi Deus? De onde alguém consegue tirar a teoria absurda de que uma força sem pai apenas sai criando as coisas, sabendo exatamente no que vai dar? E, se sabe, quem me convence de que existe um plano maior para que ela tenha dado forma a criaturas vazias, que agem segundo regras que ouviram alguém dizer que eram válidas? São essas pessoas as que atrasam o jogo e que, por fim, impedem que o mundo evolua ao ponto de cada um se tornar deus por si só. E cada um pode. Mas quase ninguém faz. Todo mundo tem sua luz própria. Pois eu quero ser um relâmpago; não um farol. Quando você menos esperar, eu explodo e ilumino o céu. Me recuso a me vulgarizar, desperdiçando energia com quem quer que seja”.

Henry Lee era uma criança e decidiu ganhar a Terra com seu olhar ávido por novidades. Ávido por fatores ignorados no Ocidente - fatores que, uma vez conhecidos, poderiam resultar numa sociedade diferente, baseada no amor verdadeiro. Aquele que nasce espontaneamente entre pessoas que acabam combinando por pura coincidência.

Henry Lee estava apenas esperando Deus mostrar a cara. Estava procurando em todos os lugares, em todas as coisas e pessoas. E para atingir seu fim, estava disposto até a manipular os fatos. Limitar as opções. Dotar o resto da humanidade de livre arbítrio, dentro das possibilidades que ELE julgaria válidas.

O projeto era complicado, mas fazia sentido na cabeça de um homem que percebeu que havia descoberto uma forma nova de observar a realidade. Lee estava disposto a fazer a rota que os turistas ignoram. Os turistas do planeta. A rota suja, difícil e compensadora que os pobres de espírito chamam apenas "estranha". Os pobres. Quase todo mundo.

Nada é nem perto do que parece quando a consciência flui livremente, de forma a organizar pensamentos e estruturar conceitos em direção a roteiros de viagem. Uma canetada sobre um mapa é um documento registrado; um contrato de adesão a experiências que, inevitavelmente, excluem projetos de vida contidos nos continentes não-assinalados. O dinheiro e o domínio sobre idiomas e regras universais da boa-educação não bastam para pagar a aflição e a ansiedade de não saber se vale realmente a pena assumir os riscos de pegar a estrada, embarcar no navio, pular no trem. De qualquer forma, Henry Lee decidiu, por bem ou a cargo do destino, mandar tudo à merda e simplesmente tentar. Quem poderia condená-lo? A ideia era encontrar alguma coisa pela qual valesse a pena viver; um antídoto para o eterno vazio artístico de existir numa realidade em que não há com o que se preocupar, desde que se cumpram prazos, horários, deveres e preces pela tranqüilidade.

Tudo é muito fácil, mas Henry Lee é uma criança.

Vai, Henry Lee! Voa! Vaivaivai! E ele foi. E foi depois de quase tudo que entrei na história. No final de Henry Lee, no início de mim mesmo. Pegando o mundo de onde Cristo havia deixado e preparando o terreno para a volta dos gigantes; munindo a biblioteca do novo inconsciente coletivo de relatórios, descrições e referências definitivas.

Henry Lee nasceu para significar. Como Frankensteins do processo histórico, cirurgiões de si mesmos que escrevem seus diagnósticos deitados na cama e examinando as próprias entranhas, muita gente tem uma necessidade bastante parecida com a de Lee: a de não apenas fazer algo, mas também contar para outra pessoa que o fez. Só assim a resolução tem realmente valor. Algo como "eu digo foda-se, mas preciso dividir com você a maneira absolutamente perfeita como eu disse FODA-SE." Concordo com Henry Lee. E foi isso que me levou a injetar o Interconscience nas veias e dotar aquele corpo cheio de significados que deitava a meu lado da única capacidade real que eu tinha; o único dom que faltava a Henry Lee: o de realmente sentar a bunda na cadeira e passar para o papel o caos da vida real. Afinal, algumas pessoas precisam ser ouvidas.

O processo era simples e foi exatamente assim que ocorreu - agora me lembro: entramos na câmara escura de Salieri e, enquanto Henry deitava com seus eletrodos enfiados na base do crânio, eu sentava à frente de uma máquina e esperava os impulsos. É óbvio que eu próprio passei por um delicado processo de filtragem do superego e do id, de forma a não interferir nos espasmos de vida cerebral do homem. E para evitar o sono e garantir a manutenção de meu estado de iluminação, Dr. Salieri, ele próprio, supria minha alma com doses cavalares de heroína, dilaudid, maconha, álcool, cocaína, cigarros, antidepressivos, barbitúricos, benzedrina, café, chocolate, LSD, refrigerantes e textos que obedeciam a um processo desenvolvido por ele, que se baseavam na mais livre fluência do subconsciente e do senso de humor. Eu estava carregado de tudo que um corpo precisa para escrever; e o refil do meu espírito estava cheio com tudo que é necessário para realmente enxergar o que importa.

Os primeiros dias foram algo de complicado, na medida em que atos reflexos começaram a ficar trocados. Eu sentia uma coceira e me inclinava sobre Henry para procurar o lugar onde a formiga havia picado. Ele espirrava e eu imediatamente ficava com os olhos molhados. Dr. Salieri explicou que tudo isso fazia parte de um estágio inicial programático e servia inclusive para garantir que nada sairia errado na fusão de egos, durante a feitura do relatório. Aquilo me pareceu obviamente a única coisa a se fazer, já que minha própria vida já não fazia mais sentido; pulando de emprego em emprego, lutando para acordar e para conseguir dormir, e tendo que lidar com olhares de incompreensão a cada vez que eu explicava minha atividade profissional através da quase-piada “eu escrevo”.

Meu ponto final dentro de um projeto de vida que parecia mais aceitável aos outros foi quando ouvi de uma editora que ainda me faltava vivência para escrever um grande livro.

Agora me lembro – eu costumo me lembrar rapidamente de coisas: um dia estava conversando com outro repórter sobre meu trabalho final de faculdade, sendo este sobre jazz e literatura beat. O cara também era leitor de Kerouac e tinha, ele mesmo, se arriscado a escrever, na juventude. Puxa, soltassem-me dali para ver se eu não voltava contando uma história digna de ser ouvida. Torta, talvez. Torta, mas digna. Talvez. Acho eu. Eu.

Já neste momento, a primeira dose de Interconscience atinge um pico de efeito, esmerilhando um corpo ainda não acostumado – na verdade, ninguém realmente se acostuma – às características da onda. Começo a suar e a demonstrar uma expressão facial que, é óbvio, denota que não estou mais ali.

Acho que Juliana quer me dar. Toda hora que eu passo por sua mesa, a caminho do banheiro, ela me sorri; até que paro para perguntar se ela havia gostado do filme imbecil que tinha ido ver ontem à noite, quando cruzei com ela no cinema e recebi um belo beijo na bochecha. Renata, já esta, faz jogo duro. Estamos trocando mensagens dúbias durante o trabalho, quando não há nada de duvidoso a respeito do que eu planejo fazer com ela. Nada perto do que pude fazer com Jade, que, hoje, apareceu no jornal no máximo das surpresas e me contou que havia começado a fazer análise. Alguma coisa, aí sim, parecida com o que venho fazendo com Giovanna, com quem vou me encontrar no fim do dia, em volta de uma grande quantidade de maconha na casa de um amigo cujo nome ainda agora não consigo entender - algo como Dariú, Darilou, Dariúm - Dario eu sei que não era. Já a mãe não deve mais ter tanta certeza. Afinal, a mulher se chama “Shantala”, como vim a saber dias depois.

Mas estou lá e assim que termino o segundo grande baseado, que havia sumido em fumaça por dentro de nossas bocas – há ainda uma namorada igualmente adolescente de Dariú – sinto a coisa diluindo o dia. Cada baseado é feito de uma forma nova e industrialmente repetida. A parte onde, no cigarro, estaria o filtro é enrolada com uma camada mais grossa de seda, de forma que quando você puxa o ar, um grande túnel leva marijuana para seus pulmões e a espalha por todo o corpo. O efeito é devastador.

Minha primeira sacação sob efeito é a de que a mãe do cara, que minutos antes circulava pela casa pacificamente enquanto a erva era desberlotada, já está sentada conosco, fumando não o beck, mas um Carlton de gente grande. Ela olha o filho passando o fumo para cada um como se fosse um pajé enlouquecido e precocemente barbado e apenas sorri com cara de mãe.

Aquilo me dá uma paz ultravioleta e talvez tenha sido essa imagem que não me deixou dormir - destruído que eu estava. Uma sensação de que já tenho finalmente idade para sentar à mesa dos adultos no restaurante me invade quando percebo que a mulher simples que caminhava minutos antes resolvendo pequenos problemas domésticos é, na verdade, a clássica musa de colégio, apenas algumas décadas mais tarde.

A mãe do garoto é simplesmente impressionante, em seu vestido solto de malha azul-piscina, estampado com peixes irreais, e seus cabelos lisos e presos num rabo de cavalo. Um cheiro de hidratante se espalha pelo ambiente quando ela se movimenta um pouco mais. Estou com os olhos colados nela, mesmo enquanto beijo Giovanna. Provavelmente desenvolvi uma espécie de estrabismo naquele momento, já que eu conseguia perceber exatamente o que Giovanna tinha em mente enquanto me olhava e, ao mesmo tempo, podia monitorar cada pequeno movimento de Patrícia-mãe. Eu só não consigo distinguir o que são as outras pessoas falando, o que é a TV ligada num volume muito baixo e o que é o aparelho de som, abaixo da TV, emitindo sons indescritíveis por algo diferente de "ziiing-meu velho amigo-panparanpanpan". As imagens são nítidas.

Por exemplo, para ilustrar minha clareza visual, posso dizer que percebo nitidamente que, há exatos cinco minutos, eu acendi um cigarro sem ver e estou acertando as cinzas de forma NBA dentro do maço quase vazio, a dois metros de mim. Percebo que faço isso automaticamente. O que também fala de meu domínio corporal.

Mas então a mãe se levanta e percebo que ela ri de uma piada que eu havia feito, sem pensar, sobre a novela. Ela está em pé ao meu lado, sou mais frágil que uma porcelana Ming, ela fuma, e Giovanna me abraça e me dá um beijo na boca enquanto eu penso – procuro realmente ter certeza – se não estou na verdade beijando a mãe, a exatos três segundos de ser tomado de porrada por Dariú e expulso dali sob chutes e empurrões. Um medo me invade e preciso olhar pateticamente para a mulher e dizer "oi". Como uma musa de colégio, de dentro de seu vestido que revela seios que são tudo que eu adoraria jantar, ela sorri e diz "oi" de volta. Eu vou agarrar a mulher. Eu estou condenado a não conseguir me desligar dela até que minha onda passe completamente.

Giovanna me lambe o ouvido, a namorada adolescente do cara está descalça e com os pés por cima da mesa de centro, vestindo uma microminilicious bermuda, mas quem me deixa de pau duro, bem, exatamente. Giovanna se aproveita e me abraça, escondendo o fato de estar me pagando uma punheta discreta. E eu ligado na mulher e lutando para perceber as coisas em tempo real. Com medo de constatar um soco na cara em tempo real. Se bem que eu entendi ali que tempo real é na verdade uma abstração. Se alguém me der um tiro na cabeça e eu só puder sacar cinco segundos depois, PARA MIM, o tiro não aconteceu naquele momento. Essa variação temporal é um dos benefícios das drogas e provavelmente Einstein fez uso disso para afirmar aquela besteira toda. Estar ligado no tempo real só difere de estar no próprio tempo pelo seguinte: você controla as conseqüências dos pequenos atos. Você reage antes de ter o braço queimado pelo cigarro, por exemplo. Mas eu drogado sou bom em cuidar de mim. Eu deslizo por espaços exíguos, eu flutuo sobre o atrito, eu argumento com o cérebro vagando por Júpiter. E tudo termina sempre bem. Eu viro água.

Peço então a Giovanna para pegar um copo d`água e ela se levanta, deixando meu pau duro sob a calça à vista de mamãe-gostosa-do-sotaque-mineiro, que saca exatamente meu estado de ereção, enquanto apaga um cigarro num cinzeiro e me vê fazendo a mesma coisa para levantar.
Vou até a cozinha guiado pelo rabo de minha lolita e passo a mão pelos cabelos compridos, enquanto ela serve dois copos virada para a pia.

- Veio me pegar na cozinha, é?

- Óbvio.

Só. Deslizo a mão por dentro da calça da teenager e me lembro da primeira vez que comi a mãe de alguém, ainda na sexta série. Foi a primeira e penúltima, mas não por censura minha. Nos esfregamos e lambemos, até que percebo um quarto de empregada abandonado, cheio de tralhas e maravilhosamente escuro. É claro que foi ali que a empurrei contra a parede e ajudei a solucionar zíperes e calcinha. Meu trabalho foi mais fácil. É incrível como é simples abrir a própria calça com apenas uma das mãos, quando você não tem medo de se machucar ou de fazer um filho e arcar com uma pensão alimentícia. Comi por trás, num crescendo enlouquecido que nos fez derrubar a tábua de passar, uma prateleira cheia de ferragens e ranger a porta do quartinho, cuja luz azul que vinha de fora iluminava suavemente a parede em questão.

Giovanna gemia e arranhava a pintura e, na minha cabeça que não conseguia perceber se aquilo era sexo anal ou tradicional, a imagem da mãe indo e vindo no meu pau era nítida. Foi uma sensação parecida com a que se tem ao ver um ator de novela na rua o que me invadiu quando notei a barra do vestido da mulher deixando a cozinha, provavelmente numa visita alarmada com o barulho de sacanagem que vinha dos visitantes alucinados. Meu tesão se renovou e foi como se eu estivesse enfiando de novo pela primeira vez. Não havia ainda o menor perigo de gozar. Eu só terminaria quando minha camisa estivesse completamente encharcada de suor - para o que ainda faltava um pequeno pedaço de tecido.

Começo a ouvir telepaticamente o som de todas as TVs do distrito e volto a mim, direto para um estágio de total relaxamento que se mescla ao que eu imaginava ser o possível resultado de uma dose cavalar e equivocadamente calculada de Viagra. Eu não tinha ONDE gozar e, inconscientemente, resolvi não fazê-lo. O louco foi que, na hora, pensei o seguinte: "É melhor que eu não goze. Assim ainda tenho chance de, logo em seguida, foder a mãe de Dariú, a namoradinha e o próprio cara". Me vi correndo para a sala e arrancando calcinhas em frente a notícias televisivas, sem que encontrasse qualquer tipo de resistência. A ideia tomou minha consciência completamente, e só voltei a mim com Giovanna vestindo a calça, arfante, e dizendo "ai, tá doendo um pouco agora". Não que eu quisesse machucar. Nem curto esse tipo de maldade.

Ela me diz que está preocupada com o que me atrai nela, já que ela seria "mais do que uma boceta que encaixa direitinho no seu pau e que gosta de te foder em qualquer posição". Sem dúvida que ela era. Ela era alguém com um discurso tão interessante que conseguia fazer o conceito "boceta" ressoar em minha cabeça como algo tão poderoso que não existia nada mais que valesse a pena nesse mundo. E quando ela estava calada, minha vontade era de pô-la no colo e cuidar para que tudo ficasse bem... como quando a gente trepava. É, não tinha jeito. Talvez fosse apenas sexo.

Penso então se seria recebido na sala por um Dariú indignado, com uma mão na porta da rua e a outra segurando minha bolsa, pronto para me entregar e me chutar dali pelas escadas. Mas, ao contrário, recebo boas-vindas de volta ao mundo, vindas da pequena família, que encara minhas despedidas com uma leve tristeza e tenta fazer disso alguma coisa produtiva. "Como você vai para casa? Minha namorada mora perto de você", diz o rapaz. Tudo combinado.

Descemos eu e as duas meninas, nos despedindo de mãe e filho-pagé, ponho Giovanna no carro do pai e rodo por Riviera-à-la-plage com Mariana, a pé, atrás de cigarros. Agora era uma noite de terça, que havia chegado sem aviso e trazido um calor que não deixava minha camisa secar, nem minha nuca parar de minar suor por minhas costas, até dentro de minhas calças. Cada gota que chegava ao traseiro me fazia pensar no de Mariana e em seus pés, agora dentro de uma melissinha com cheiro de chiclete.

Paramos em uma banca de jornal e ela me observa acendendo um Lucky Strike como quem aprende sobre sei lá o quê. Quase não conversamos. Estávamos preocupados demais em não sermos atropelados, no meio daqueles lençóis de luz que esticavam fios vermelhos no canto de nossos olhos. De carros. De sinais. De Riviera-à-la-plage à la nuit. Misturando maresia e bafo de pré-chuva de março.

Entramos então num taxicab e ela me conta que acabou de começar uma faculdade de Biologia. A tônica do assunto é o fato de haver em seu currículo a matéria "Conjuntos". Exatamente. Pertence X não-pertence. Rimos desse ridículo e percebo que há exatos cinco segundos, havíamos rido e praticamente colado as bocas, num ato involuntário de aproximação. Fico sério. Ela ri e balança a cabeça negativamente. Rio agora. Ela põe a mão em minha perna, devolvo com uma leve pressão em sua coxa, ela respira fundo e fecha os olhos, eu me curvo para ela, ela respira mais forte, penso em Giovanna e na mãe, minha cabeça dá uma volta e pronto: estamos num beijo desesperado que jamais poderia ser censurado pelo taxicab swami, que não esteve conosco durante o resto de nossas vidas.

O beijo é realmente muito bom, ela inteira tem gosto de maconha, e tenho certeza de que chupei aqueles peitos antes mesmo de descermos em frente a um shopping e acharmos um buraco escuro para aquela trepada que mais uma vez mandou campanhas contra a AIDS à merda e moveu meu pau em perfeita harmonia com aquele bumbum quase virgem para frente e para trás, enquanto aquela bocetinha branca e preta fazia um cheque-mate molhado sob sirenes, vozes distantes e sons de tampas de bueiro saltando sob pneus urgentes. Gozei no muro, logo depois de sentir fortes e inéditas minimulticontrações de orgasmo mútuo, acompanhadas de “não conta pra ninguém” e “ainda bem que a gente mora perto”.

Depois de me esvaziar, antes de voltar ao estado de descanso, enfio de novo, para sentir aquele calor de lareira e ir dormir com cheiro de filha de pai liberal. Ela se assusta com a nova penetração e a impressão que tenho é de que aquilo havia valido uma outra trepada. Ela fica muda. E eu sinto a mais serena plenitude: eu havia marcado a rua como meu território - exatamente como um cão faria - e estava em paz com quem me deu a honra de ser Deus naquele momento. Sem reprovação; sem censura; sem dúvida; sem culpa. Apenas fizemos o que deu vontade e inutilizamos minha camisa definitivamente - ou até que alguém tome coragem e esfregue aquele cheiro insuportável de suor.

Entendo ali o que meu urologista me disse quando, há um par de anos, tive um alarme falso, mas assustador de impotência sexual: "você trabalha demais e pensa mais ainda. Você não encontra um estivador com problemas sexuais. Negões não têm nenhum problema para trepar". Aquilo na hora me soou inútil e me rendeu alguns meses sob Yomax, um remédio que não só ativava minha circulação, como também me deixava um foguete, fazendo todas as coisas em tempo recorde. Além do fato de cair muito bem com álcool.

Ali já não estou mais tendo problemas, talvez por andar muito pouco profundo e não estar pensando nada de genial. Eu estava apenas acumulando vivência e percebendo onde exatamente está o furo no discurso de editores de suplementos literários.

Na época, eu precisava apenas de material humano para circular a Terra me enchendo de pequenas experiências; e toda vez que encontrava algo parecido, fazia o possível para armar roteiros interessantes. City-tours pelas terras do improvável. Giovanna era um boa companhia nisso e Henry Lee, no final, pareceu mais uma grande chance.

Giovanna era Giovanna Luna, loirinha, seios pequenos e bumbum roliço, visceralmente conectada ao próprio inconsciente; talvez como resultado da enorme quantidade de preparados químicos que consumiu ao longo de seus 18 anos. Uma vez, quando ainda descobríamos defeitos mútuos e qualidades em comum, se declarou: "Você é tudo. Você é o Sol... você é a formiga que brota da boceta de outra formiga; você é fofo. E eu adoro golfinhos; bichos assim, do mar". Eu gostava do jeito que ela dizia as coisas. Havia algo ali que me lembrava do que eu mesmo era quando as circunstâncias não me forçavam a linearidade goela abaixo. Eu estava disposto a cuidar de Giovanna e providenciar tudo para que ela pudesse ser apenas ela mesma. Sempre e enquanto fosse possível. Fora o fato de a mulher ter uma bunda que compensaria até uma fraca atividade intelectual. Ela era tudo - ela dizia tudo - ela fazia tudo. E ela tinha pressa. Isso me fazia pensar em mim mesmo e rir de qualquer possível impedimento.

Pude contar a história – na verdade fui obrigado a isso – a Henry Lee, antes de iniciar o tratamento com Dr. Salieri. O médico cassado tinha como método usar seus conhecimentos de parapsicologia em reuniões de integração, que promovia em torno de um grande narguilé azul, cheio até a boca com ópio da melhor qualidade, com o propósito de esclarecer qualquer dúvida sobre um ou outro personagem envolvido no processo do Interconscience. Mais ainda, para que aceitasse levar adiante a experiência, Salieri exigia que ficasse totalmente entendido que o objetivo final da coisa era algo concreto; e não a melhoria de vida dos pacientes. “Você quer rodar um filme? Ótimo: nós achamos um parceiro compatível e simétrico e fazemos a moviola funcionar. Depois disso pronto, não me voltem mais aqui; a não ser para um possível tratamento de desintoxicação da droga de transferência”. No nosso caso, o objetivo era um livro. Eu estava cagando para o que sobraria de mim, uma vez o livro estivesse pronto. Já Henry Lee, provavelmente não, mas, coitado, era impossível ao pobre homem sequer cogitar um desenrolar desfavorável a sua vontade. Ele, afinal, era uma criança. E, por outra, nós éramos compatíveis. Não havia margem para erros de qualquer espécie. Não havia com o quê se preocupar, no final das contas.

Outro aspecto que ficou bastante evidente nas seções de integração foram os propósitos de Henry, os que o levaram a começar a contar seu tempo em direção ao super-homem nietzschiano no qual pretendia se tornar. Quando nos reunimos pela primeira vez de cinco para conversar, ele preferiu me advertir para que eu não ficasse decepcionado num primeiro momento com as visões que eu passaria para o papel. Afinal, sua vida não havia começado no auge, e muita coisa precisou ser encarada até que o intenso brilho em seus olhos pudesse ser notado como agora o era.

O destino esteve traçado desde sempre, mas, no princípio, o que faltava para que sua partida realmente fosse feita em grande estilo era um background interessante. Era importante que algo fosse deixado para trás. Como alguém que passa a vida conhecendo gente nova com o único propósito de fazer um funeral bonito no final e poder ficar assistindo de cima toda aquela gente chorando por você. Isso é um desejo de 20 entre 20 cristãos, inclusive. Henry Lee precisava de vítimas da sua partida. Precisava ter o que deixar para trás; além de conseguir material para levar consigo.

Eu, por outro lado, estava absolutamente em paz com o que já havia vivido, embora estivesse fervendo pelo mundo que eu imaginava ainda estaria por vir, Dr. Salieri. Como estou absolutamente em paz com a droga. Acho sinceramente que estou pecilotermicamente adaptado aos fluidos que descem e sobem pelas avenidas do meu corpo, como formigas cantando odes em tom maior à superestrutura do sonho. E que sonho é esse, senão simplesmente uma nova adequação à mesma realidade que sempre me envolveu, mas que eu não poderia perceber, já que eu havia, até aqui, sido apenas humano? Humano – com todos os meus preconceitos e minha dificuldade de abstrair da forma das coisas e realmente penetrar em seu conteúdo. Hoje consigo perceber que nada é monobloco, que tudo são partes independentes. Hoje eu jamais invalidaria um discurso de alguém pelo fato de essa mesma pessoa não conseguir pô-lo em prática. Hoje eu sei que as coisas são fragmentadas e nós as podemos unir como bem quisermos. Já não perco meu tempo na paranóia da droga, controlando o quão forte são minhas contrações. Por outra, nem me prendo a esses detalhes, procurando apreender o que a sístole de minhas veias me proporciona de realmente iluminado. Fodam-se os meios, o fim é muito maior. Assim como meus olhos já não percebem a penumbra de sua câmara há horas, ainda me sinto perfeitamente capaz de lembrar em detalhes de tudo que aconteceu até que me tornasse isso cinza, puro e estranhamente inumano que o senhor está testemunhando. Talvez se eu contasse também de... talvez daquela vez que estive no sul do país. Ali eu vi. Eu realmente vi tudo o que havia para se testemunhar.

Foi quando juntei uma grana e lá estava eu viajando de novo, mas desta vez era aqui mesmo; Subamerica. Kaltstadt, no Sul. Lá estou eu sentado em um kaltstadter park, junto a uma mureta de pedra na qual eu me encosto e leio o Livro dos Sonhos, de Kerouac. É ainda de manhã muito cedo e o ar ainda é verde das árvores, frio e entrecortado por raios de sol que descem do meio das folhas e projetam abajures nítidos nas folhas de papel. Eu leio, sentado ao lado de cadernos de jornal bagunçados, úmidos e esquecidos por outras pessoas. O parque é situado em uma colina e eu estou sentado de frente para a subida.
Atrás de mim há alguns prédios de apartamentos e um, especificamente mais próximo, me deixa curioso sobre quem devia morar ali. Que tipo de gente abriria aquelas janelas art-déco dali a segundos com um copo de vidro de geléia cheio de café esfumaçado na mão e olharia para mim com olhos de sono e se perguntaria por que diabos eu estava ali. Eu lia, fumava e pensava.

Arredondando a colina, começando a surgir primeiro da ponta da cabeça com seus cabelos curtos e arrepiados, vem Didier, com seu ar simpático, mas como sempre levemente preocupado e apreensivo e fazendo sons estranhos com a boca que aparece como que subindo do horizonte próximo e então o corpo largo e bem-vestido como sempre, andando no seu estilo marchadinho, fazendo trec-trec nas folhas e galhos secos do chão e fazendo FIUÍ com a boca – sons de desenho animado que só Didier faz com a boca.

Didier se aproxima, senta e diz que estacionou seu carro do outro lado do parque e que a gente PRECISA fazer alguma coisa juntos antes que ele deixe Kaltstadt. Ele trouxe seu próprio jornal, novo e organizado, estranhamente é Os Olhos, de Underdogsville, e ele começa a procurar endereços de bares e boites. Eu afago seu ombro para mostrar que estou feliz por ele estar ali e olho para trás. Quem abre uma das janelas art-déco com um copo de vidro de geléia cheio de café preto e esfumaçado – quase posso sentir o cheiro – é uma senhora gordinha e repreensiva de cabelos grisalhos duros e menos brancos que aqueles que dão um ar de pureza e limpeza perfeita às pessoas – havia preto demais naqueles cabelos – e óculos de grau sobre olhos de sono e um daqueles vestidos baratos de velha que servem tanto como camisola quanto como roupa de ir à feira ou de simplesmente olhar pela janela.

Ela olha para mim, sente a novidade invadindo sua sala cedo demais e sai da janela com a cara amassada de fronha azul-clara.

Viro para a página de jornal de Didier e conversamos sobre amigos que desaparecem, até que por trás de nós surge uma voz dizendo “Ei, vocês!” algumas vezes. Tenho certeza de que não é conosco até perceber que de fato era. Viro, vejo a figura e imediatamente me levanto, enfio meu boné e me espreguiço até os três metros de altura, sacando que ele ia de qualquer maneira exatamente me mandar levantar. O cara de vinteoito anos, cabelos lisos, negros e longos era o guarda perfeito para uma cidade moderna, eficiente e simples como Kaltstadt.

Ele diz “Porra! Você não faz nada pra ninguém, né?”, não entendo, acho grosseria, chamo o cara de “meu amigo” e Didier teme problemas. O cara se irrita, mas se retrai e repete o manual que teve que decorar para conseguir aquele emprego ótimo e diz que só podemos sentar do outro lado do parque. Nos levantamos e saímos. Didier anuncia que precisa ir embora de Kaltstadt e chegar a Underdogsville O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL. Damos um forte e maravilhoso abraço e ando para a entrada do parque, de boné, uma mão no bolso e a outra fumante, e descubro que Hannah Valentine já havia acordado e eu havia perdido o espetáculo que é ver Hannah Valentine acordar. De alguma maneira, ela havia descoberto que eu estaria por ali e aparece. Lembro-me que estava em Kaltstadt com Hannah Valentine. Acho bom.

Passo pela cancela de entrada e despeço-me alegremente do porteiro. Andamos o dia inteiro pela cidade, de um lado para outro, sem sentir, mas numa profunda experiência ZEN de conversas bobas e olhares que, uma vez compreendida perfeitamente a ordem e o funcionamento das coisas daquela cidade, olhavam para as mesmas coisas ao mesmo tempo.

Alguma coisa acontece e discutimos lá pelo fim da tarde, já no caminho de volta ao hotel. Hannah sobe repentinamente numa charrete dirigida por um velho e um menino e sai sem me esperar pelo acostamento da estrada. Penso que aquela seria minha chance torta para experimentar outras coisas na noite da cidade sem precisar ou ter que dar maiores explicações; percebo que não há tempo para se preocupar ou ficar triste com aquilo que parecia significar que aquela charrete só pararia em Underdogsville; e ela ia assim, se arrastando pelo acostamento sem mim e mergulho – mergulho – mergulho – fumando e fumando – mergulho de volta nas noites de Kaltstadt. Na minha primeira noite em Kaltstadt.

WOOOOOOW!!!!!!!!! Dobro o ritmo, entra o bop, acendo o cigarro e estalo os dedos.

Caminho por uma rua de prédios altos e baixos com bares, padarias, janelas acesas e muita ação de cidade de praia rolando no chão; muita gente, gente de todos os tipos, tribos, cores, idades e posições sociais, até perceber na esquina aonde chego uma igreja baixa e larga, bonita, de tijolos vermelhos e traços retos, sóbrios e modernos. Através das janelas de vidro fosco ouço um techno marcado, mas melódico, alegre, e vejo luzes de discoteca circulando azuis-amarelas-verdes-vermelhas circulando sobre uma base bege, o que me faz supor uma pista de dança funcionando com a luz acesa.

Paro por um segundo e penso na louca hipótese de uma boite funcionando sem isolamento de qualquer espécie atrás de uma igreja. Dobro esta esquina e entro numa rua sem automóveis e de um calçamento tão meticuloso e bonitinho que lembra passarela de campo de mini-golfe. Caminho colado aos inúmeros vidros foscos da igreja e o techno é altíssimo – PUM-TS-PUM-TS-PUM-TS- não oscila de volume. Até que chego à parte de trás do templo, tropeçando em pessoas simpáticas e pedindo desculpas felizes e dou de cara com uma espécie de basculante vertical aberta.

Olho discretamente para dentro. Incrível! A música vinha dali! Um ambiente que parecia demais com um refeitório de escola. Mesas compridas e crianças fazendo coisas criativas e coloridas, monitoradas por “tias” lindas e louras de Kaltstadt. Sorrio, morro de inveja dos meninos, rodo nos calcanhares e saio andando e me afastando, de volta para dentro da rua.

Cerca de cinqüenta metros por aquele caminho vermelho e morno até mais uma esquina que mais parecia um parque de diversões da alma e dos sentidos: um bar aberto – um balcão, na verdade – aberto para um pátio grande o suficiente para não parecer um deprimente pátio interno – um dia eu exponho minhas reflexões sobre pátios internos – e pequeno o suficiente para ser acolhedor e para dar a impressão de que todos ali estão unidos por alguma estranha e maravilhosa razão e compartilham dos mesmos interesses e o bom do mundo é isso aí. Todos ali têm mais ou menos a minha idade, mas têm a minha idade em Kaltstadt e não cheiram a mediocridade como as pessoas da minha idade em Underdogsville.

Vejo um grande grupo bebendo em pé, sorrindo e conversando, mulheres lindas e homens com cara de amigos em potencial, e me aproximo. Um desses movimentos naturais de cabeças que seguem alguém que está contando uma história me desfavorece naquele instante, virando as nucas para mim. Eu queria uma daquelas mulheressss – qualquer uma, eram todas ótimas – e encosto no braço da que não havia virado de lado porque estava bebendo uma cerveja. Ela certamente não era a melhor do grupo e diz, entendendo perfeitamente minha intenção: “...desculpa” com aquele sotaque lindo de Kaltstadt. Oquei.

Uma outra, esta sim a melhor, mais loura e com a pinta mais maravilhosa no canto da boca, diz: “Ih, você acabou de perder uma festa. Amanhã tem outra; do Henry Oswald”. E sorri. Ela diz Henry Oswald com um ar irônico de quem sabe que está falando de um amigo com um nome pomposo que beira o ridículo. Sorrio de volta, ela percebe que eu saquei perfeitamente tudo que havia para sacar, ganho uma cerveja e estou automaticamente dentro do grupo.

Viro-me para a primeira garota – a do “...desculpa” – e pergunto se ela não era de Kaltstadt, já que ela havia dito na verdade desculpa num sotaque de outro lugar e só depois eu fui perceber. Ela faz uma cara de quem adorava responder àquilo e diz, abrindo os braços e com a dicção prejudicada por um grande sorriso, quase patético: “Olha, dá pra dizer que eu sou dessa grande Subamerica toooda! Mas eu NASCI na Capital.” Um cara então me pergunta e digo que sou de Underdogsville. Começamos a conversar sobre a vida e ele me diz que eu PRECISO conhecer o Henry Oswald.

Olho para a garota da pinta que me havia dito Henry Oswald pela primeira vez, ela está sorrindo para mim e mexendo nos cabelos com cara de “eu te avisei” e se propondo sem dizer a me apresentar pessoalmente ao Henry Oswald e a me comer inteiro – inclusive e principalmente – estava nítido – e uma alegria e um fascínio com o absurdo da situação me envolvem e ganho outra cerveja e é incrível como ela já sabia o que era bom para mim, quem eu era e do que eu precisava no exato momento em que me viu e a partir dali eu podia conversar com todos e pegá-la pela cintura e fumar cigarros que ela mesma acendia para mim, podia até descobrir que havia um outro Henry ali, além de mim e do Henry Oswald, e que esse Henry tocava sax-alto e havia acabado de pedir para porem um bebop para ele, como fizeram prontamente e eu ajudei a tirar sua boquilha que estava presa no protetor e éramos todos amigos quando, do meio da festa e das pessoas, vestindo uma polo amarela e velha e uma calça jeans, aparece CHICO.

Meu deus! Quase não pude acreditar. Barrei o cara com o braço estendido, puxei a menina da pinta pela cintura, fiz uma pose formal de quem vai apresentar dois chefes de Estado, gaguejei uma meia-dúzia de papapalavras e pulei no pescoço dele. Cara, que saudades eu tinha daquela voz completamente rouca que pôs os punhos em riste, tremeu e gritou “CARALHO!!!”.

Eu fiz um ruído que começou em RRRR e foi subindo de volume até um grito de “RRÁÁÁ!”; Eu peguei ele pela gola da camisa, disse empolgado “Cara, é, isso, eu tô viajando de novo, é!”, um cara veio com uma mão no meu ombro e a outra no do Chico e me perguntou qual era meu esquema em Kaltstadt. Eu sorri como um psicótico e disse aos dois que – que maravilha – eu podia ter uma noite ou até um mês na cidade.

O bebop era impressionante, os copos de cerveja surgiam do nada, os cigarros não acabavam e eu conversava loucamente com Chico, me sacudindo nas pontas dos pés e suando – suando – suando. A menina da pinta e dos grandes olhos verdes-azulados mais parecia estar empolgada por ver alguém tão eletrizado e suspenso no ar e amando tudo ao ponto de estar tão iluminado que havia realmente uma ponte entre tudo de bom que ela queria ou precisava e eu a mesma coisa. Ela chegava ao meu ouvido de tempos em tempos e dizia “VAI! VAI! VAI!” e eu falava como um desesperado, o que não me impedia de sentir cada fonema que Chico dizia como blocos sólidos impossíveis de se ignorar. “VAI! VAI! VAI!” Eu suava, me sacudia, apertava a cintura da mulher, eu ali de blaser velho e boné dos yankees – grande palavra, “yankees” - o bebop crescia e o Henry do sax-alto era negro como sei lá o quê, as cervejas se reproduziam, eu descobria coisas maravilhosas daquelas que se esquecem em menos de um segundo por mais que se tente guardar, coisas novas vinham, eu nascia toda hora e ficava mais forte a cada tragada, eu já estava casado com a menina da pinta e com cada nota do negão, VAI! VAI! VAI!, impossível pensar por um segundo em voltar a Underdogsville ou até mesmo viajar para o Marrocos, parar de concluir com o Chico, com a menina, me lembrando e me esquecendo de respirar, bebop – bebop – bebop numa velocidade absurda que só se consegue em Kaltstadt e não há tempo para fazer tudo nem português para se explicar o que se perde quando se fecha os olhos durante um VAI! VAI! VAI! e acordo completamente encharcado de suor numa noite chuvosa e recoberta de neblina que age sob uma possível e em princípio ótima temperatura de 21 graus centígrados. Acordo suando à 1:40 da manhã, louco – desesperado – para dividir isso tudo, para reencontrar Chico, para pegar um ônibus e sumir para Kaltstadt. Para ir realmente pela primeira vez a Kaltstadt.

Estava óbvio que era necessário viajar; e, além do mais, a cidade afinal devia ser realmente impressionante, como aliás todos os lugares que conheci ao longo dos anos, desde que meu pai ganhou o emprego de redator de comunicados do Ministério das Comunicações Oficiais e Ofícios Elucidativos. A função do velho, forçado a viajar e a nos levar junto constantemente, desde que me conheço por gente, era redigir avisos do tipo: “Seu filho foi morto em combate no dia 22 de agosto de 1937, na fronteira do Sri Lanka com sei lá o quê, vítima de um tipo raro de câncer – mais especificamente o Carcinoma Transitogênico – assim que uma mina inimiga explodiu ao ser ativada, numa distância de exatamente um quilômetro quadrado de onde nossas tropas preparavam um esquema extremamente pensado – no qual seu filho tinha parte considerável. Assim que o dispositivo foi deflagrado por um cabo das tropas asiáticas, uma radiação num nível 1.8 abaixo do passível de ser captado por nossos sensores foi emanada e despertou a reação conjunta do organismo linfático do soldado seu filho, desencadeando um processo de necrose múltipla que começou, mais especificamente, na base do crânio e só terminou sua ação devastadora e imediata logo abaixo da glande. Esclarecemos que o conhecimento do fato por parte da família teve de aguardar até a presente data pois ainda nos faltava o diagnóstico específico do tipo de mal desencadeado por explosão tão distante”.

Meu pai havia se tornado um homem minucioso; apegado a detalhes. Dele nasceu meu mais profundo apego pela informação e pela loucura dos dados. E a paranóia da velocidade do recado era, no fim, meu ato de rebeldia; minha parcela do mais clássico conceito de conflito de gerações. Meu “perceba como se faz”. Assim minha adequação à imprensa foi total. Jornalismo se tornou simplesmente mais que uma opção. Passou a ser um karma que me roubava os dias e as noites. As noites e as noites, já que os dias eram passados sob tantos pensamentos e doses tão transformadoras de drogas up e down que as realizações concretas em matéria de trabalho e convivência – as realizações que me mantinham vivo e seguro – eram conseguidas num estágio bem próximo ao automático. Quem poderia me culpar, uma vez que o mundo havia dado no que havia dado? Eu precisava cuidar de mim e evitar que caísse na vala comum da civilização.

Dr. Salieri compreende, acena com a cabeça e, paciente e clínico, passa a mão pelos cabelos negros e lisos de Henry Lee, arrumando-os de forma a deixá-los dignos do que estávamos começando a conseguir ali. Era preciso estar arrumado para testemunhar a face de Deus brotando como uma rosa de relatos e sensações tão sinceros – involuntariamente sinceros, é verdade – e intensos. Era preciso também estar preparado para a velocidade dos acontecimentos. “Não é porque você já deixou a redação do seu grande jornal que você vai ficar zanzando por aí como um viciado comum. Ora, se Henry Lee apenas soubesse se vestir com camisas de botões como as suas, meu trabalho seria bem mais simples”, o Doutor costumava dizer. Isso antes de desfiar seus textos catárticos em seu tom, ora monocórdio, ora radialístico.

NEWSNEWSNEWSNEWS! O que acontece de novo? Beeeeeem, essa foi minha semana. Essa foi minha vida. Assim vocês vão ver o que acontece no próximo bloco. Conforme informamos ontem, corrigindo o que foi dito há cinco minutos wooooooooooow, eu nunca mais vou dormir, meu amigo! Eu quero saber! NEWSNEWSNEWSNEWS! XTRAEXTRAEXTRAEXTRA! Vai, me conta logo, porra! Me mostra no que deu aquela agonia! Ontem não foi nada! O pior vai ser amanhã, depois que eu tiver acordado e com a realidade zerada. No que deu, afinal? Deu em hoje! E aí, tudo é zero chance de repetir o que aconteceu e surpreendeu você.
From the director of "My life sucks and stinks", comes a new story of human endurance and loooooooooove. Brought to you by William Burroughs` Nova Interzone, NEWSNEWSNEWSNEWS! Você vai se emocionar. Você vai perceber. Tudo vai ficar claro assim que eu acabar de escrever isso - que nada mais é do que um resumo do último milênio. O que foi feito do milênio? Isso aqui ó: Pffffffffffffffff. Acabou. E esse foi o resultado de tudo - começar do zero. "Vai valer a penaaa... ter te conhecidooo". Percebam o infrasom – te conhecidooooo. Por enquanto é apenas fato. Eu te conheço e saco exatamente que para você existir um pedacinho do meu pedaço involuntariamente é seu. Que promiscuidade, essa realidade. Por que eu tenho que respirar o mesmo ar do ornitorrinco? E o Ozônio? Alguém já viu o Ozônio? Vai acreditar no que o homem dos estudo falou? Cientista my ass!

Eu quero é NEWSNEWSNEWSNEWS! Se está provado, já existiu e já se estudou em cima. É velho. Você me ama? Fala que me quer. Fala que a partir de hoje você só olha para mim. Me fala alguma verdade nova. Diz que não há com o que se distrair, a não ser com o look in my eyes. Com o shake of my ass. Come essa folha de papel e dança a balalaika para mim, baby! A ideia não é interação? Interage com isso aqui, ó: pffffffffffffffff. Vai, reage de um jeito novo, criança. Vamos colorir. Vamos imprimir, rodar, distribuir, publicar. O grande lance é publicar. Escreve; tira a roupa; desenha; pinta; anuncia; mas publica essa porra! Amanhã, quando eu acordar, quero ver essa coisa pronta. É o seu trabalho, é o seu trabalho, é o seu trabalho. Eu te tirei da merda para você vir me dizer que dormiu pouco? É a Era de Aquário, sangue! É tempo de abstrair e aparecer com alguma coisa nova! Como é que aquele seu poema dizia mesmo? De qualquer forma, era ruim. E eu já li. Escreve outro e rápido porque a gente fecha em vinte minutos. Me mostra esse dedo machucado aí. O que ele significa? Por onde você andou? Filho, quantas vezes eu tenho que te ensinar a olhar para os lados? Pai, como é que a gente sabe que está apaixonado? Por que o céu é azul? Vô, você já ouviu falar em piercing? Seu Macedo, meu carro acabou ficando torto na garagem. CLANCLANG. De novo. Seu Macedo, a luz do hall queimou. CLANCLANG. Dona Solange, conserta e ajeita a senhora mesma porque eu estou saindo para comprar jornal e descobrir os meus direitos. Algum direito eu tenho. Posso comer a senhora? A senhora me permite encoxá-la no elevador? Pai, onde é que o vovô está morando hoje, depois do terremoto? Filho, você precisa começar a ler jornal.

NEWSNEWSNEWSNEWS! O mundo acabou de começar e a festa é sua; vai de mesa em mesa perguntando para os convidados se eles estão à vontade. Você sabe receber? Você sabe dar? Como se transa com o Seu Macedo? É igual a fazer um pequeno príncipe? A Juliana é filha de pais casados? O Zé Sérgio já sabia que a Lídia estava grávida? E em Hot Suburbia, como se pega um ônibus para cá? E em Nova York, como se pega a AIDS daqui? Em Miami eu sei, é só combinar direito peças de roupa no calor - fica óbvio que você não é americano e os subamericanos te reconhecem. E a música: "A Globalização é coisa de satã.... e a minha ilusão é te ter no Ramadã..... delícia iraniana.... corta o clitóris e chora para Alá.... que o Rashid aqui fechou a conta no Canadá". Woooooooow, sempre há alternativas! É fazer um filho muçulmano e se esquecer que o ocidente existe. Você deixa de acompanhar a CNN e seus derivados por uma semana e você é Fucking Buddah!!!! Quem lembra de 1994 sem fazer esforço? Eu me lembro que eu estava exatamente igual, mas os modelos de carro eram mais parecidos com o do meu primo pobre. E meu primo pobre de espírito - o outro - anda de helicóptero pelos cafezais. E os campos de arroz, do sudeste asiático?

Woooooooow, não te contei? Os campos de arroz simplesmente.... te falei do meu piercing? Te falei da Marcelinha? Gente, e o Bush? O segundo. Seu Macedo, me encoxa no elevador que hoje eu quero esquecer do Ocidente. Dona Mirtes? A senhora se incomoda se eu consertar o seu carro que está torto na garagem? Eu li sobre isso - exatamente isso - ontem. E olha que estava escrito bem grande. Logo era verdade. Eu encoxei a senhora ontem, dona Mirtes. Saiu aqui, ó: pffffffffffffffffff. Woooooooow, e é cada vez mais rápido, meu amigo. Olha, viu? Já foi de novo. Rodou. Olha: ah! Percebeu???? Rodou. Ó: pffffffffffffff.

Wooooooooooooow, como tudo é impressionante... e eu pensando em como vou te dizer que estou com medo. E eu pensando se você só vai olhar para mim e segurar a minha mão quando começarem a tirar meu sangue. Eu tenho pressão baixa e sofro uma pressão altíssima por parte dos outros. Lídia, você precisa entender: isso nunca me aconteceu antes. É a primeira vez que eu te digo "eu te amo". É a última vez que eu te explico isso tudo. Mais uma vez, lá vamos nós tentando entender aquele cara do 302. Já está profundamente tarde para lidar com festas, você não acha? Ele não pensa na gente? Nós temos necessidades. Necessssssidadesssssssss. Acende aqui, vai! Manda bala no isqueiro, meu velho, que hoje eu esqueci do câncer. Trocaram o outdoor do câncer por aquele que eu gosto.... de moda.... a mulher encaixotada...... imagina aquilo lá em casa. Eu ia esquecer do Ocidente. Ia foder aquela gatinha até a hora do jornal. Te falei do site? Te falei que eu te amo? Eu concluí o que eu estava dizendo, afinal?

Ih, olha aquela muçulmana! Senti uma coisa.... sabe quando você bate com a pessoa? Brincando-brincando? Vai vendo o brincando! Eu faço um filho muçulmano e me mudo para Istambul e aí eu quero ver quem me diz que são vinte minutos até eu ficar velho! São vinte minutinhos até eu me teletransportar para o seu coração, darling. Para o seu coração, sahib! Estou guardando o Ramadã, que nem na música. Te falei dessa música? É nova! Tem vinte minutos que eu fiz e dura vinte minutos. É perfeita. É a sinfonia de tudo que há de novo. "Guardando o Ramadã eu caminho pelo Casbah....o mundo é tão grande, mas lugar melhor não há....que o seu coraçãããããããão". É a síntese da coisa que eu tava te falando. Lembra que eu falei que o Ocidente e eu te amamos, sahib? Tá tudo misturado. O que eu li ontem e o que eu sinto aqui bem dentro do meu Casbah por você. É causa-conseqüência. Morreu o pequeno Rafik na Faixa de Gaza e eu percebi que é só de você que eu preciso. E de cigarro. Mas é mais de você.

Deixa que o Seu Macedo desentorta a lâmpada do hall. Era o carro? Você já comeu desse patê? Te falei desse patê? Lembra daquela história do padre que meu tio matou? Pois é... o patê. Saca? Você percebeu que a gente estava assistindo alguma coisa aqui? Onde eu pus o controle? No seu Casbah? Liga ele para mim e dança a balalaika de um jeito que eu ainda não vi. Como? Eu te tirei da merda para você vir me dizer que não é sua obrigação? Onde você andava antes de mim? Quem balançava o seu coreto, lá em Campos? Lá nem tem esse patê - e não me vem com essa. Vou te mostrar uma coisa nova. NEWSNEWSNEWS! É, comprei ontem. Lê e vê o que você acha da gente! Amanhã eu acordo e te compro outro - e tudo vai estar bem enquanto você não sacar que na verdade eu estou com medo e só quero que você segure a minha mão e caminhe pelo NAFTA cantando para eu ficar calmo. Canta pra mim, honey! Canta: "vem e põe a mão nas rotativas..... a comida é kosher e a ideia é te amar.... cantando em nome da notícia.... eu visto minha sharia e adoro o seu Casbah........ caminhando juntos...... o mundo parece parar..... não há quem compre a tranquilidade.... do meu personal Aiatolá.... vocêêêêêêêêêê......meu coraçãããããão....."

Doutor Salieri sabia extrair o melhor. Sabia inclusive exatamente o que combinava com o quê, que infrasom de que bop alucinado casava com que vogal, de forma que uma frase metricamente perfeita provocava instantaneamente uma reação psicológica e uma sudorese ou calafrio mais físico impossível, e Charlie Parker era naturalmente um de seus favoritos. Fora a óbvia galeria de heróis pessoais, Bird estava para Salieri como uma droga tão meticulosamente preparada, muitíssimo mais avançada que qualquer experimento da Sandoz, que era realmente emocionante conviver com aquela maravilha em vinil. Talvez tudo não passasse de uma brincadeira de criança, daquelas em que o que une os brincantes é nada mais do que a coexistência de gostos em comum – um dos nossos era o jazz, naturalmente. Mas o fato é que, brincadeira ou não, provavelmente eu não estaria jamais em casa quando minha mãe gritasse a hora do almoço pela janela.

Wow, é tudo tão triste quando não há com quem dividir a realidade! Você tenta, você faz um esforço descomunal e, putz, certas pessoas simplesmente não se desprendem do que ouviram dizer que leva a algum lugar. Não vejo as pessoas chegando a lugar nenhum por aqui.

Por exemplo: por onde foi Ashala desde a última vez que entrei na Mesquita, logo após ser roubado no distrito vermelho de Pythion, Grécia? A prostituta acreditou que, me roubando enquanto eu dormia, ela saltaria mais rica naquela exata estação onde todos desciam, esperando o trem para Istambul. Grande tolice. Me arranjei perfeitamente com aquelas poucas liras turcas que achei no chão e comprei meu espaço para a noite quente no piso da cabine de controle da estação. Depois, foi questão de segundos até que eu me arranjasse com meu turco sofrível, dizendo “tuvalet” para as pessoas, a fim de ir ao banheiro e evacuar toda a mágoa e partir para mais uma; dizendo “photo çekilibir myim?” e sendo autorizado a fazer fotografias que, eu sabia, guardaria para sempre.

Ali, no meio do nada, em Pythion, esperando o trem para Istambul, abandonado pela mulher com quem cruzei metade da Europa, com quem tomei todas e injetei até o que não havia sob a forma líquida, com quem admirei museus e trepei em locais onde a multa por obscenidade ultrapassava minhas economias de uma vida inteira, com quem dividi cada pensamento, com quem comi nos melhores lugares – em promoções dos melhores lugares – em lugares onde se come do melhor e se bebe do mais caro e se sai sob a farsa de uma cena de mal-estar e de “pelo amor de deus, alguém chame uma ambulância aqui” ou “garçom, me desculpe, mas essa barata horrorosa não estava no cardápio”; Ashala, que me seguiu por um continente, suportando minha falta de banho e minha necessidade obsessiva de cigarros fedorentos, minha compulsão pelo discurso compulsivo, minhas conversas de noites inteiras, aos berros, com os mais novos amigos de infância do mundo, minha obsessão quase homossexual pelo monge diletante subamericano Marco Antonio, que descobriu a religião após ser reanimado em um hospital por conta de uma fracassada tentativa de suicídio no sujo banheiro de uma cantina italiana, Marco Antonio que injetou um tubo inteiro de inseticida no braço no banheiro da cantina, Marco Antonio que passou a ser o monge budista com a maior cicatriz no braço que eu já havia visto, depois que os médicos o submeteram a múltiplas sessões de estrangulamento e pressão ali para que o pus minasse pelo ponto onde o monge havia enfiado a agulha, Marco Antonio que acordava no hospital apenas para desmaiar de novo ao fim de cada sessão de tortura, Marco Antonio que quase me levou consigo para a Índia, Marco Antonio que falava e ouvia compulsivamente, Marco Antonio que me levou a gritar seu nome exatamente no meio de uma trepada num imundo quarto de hotel em Veneza – um urro que eu sabia ocorria ao mesmo tempo que o dele, ao mesmo tempo que o de Marco Antonio, em sei lá qual pedaço da Terra.

Ashala, ali, em Pythion, Grécia. Ashala, ali, em Pythion, guerra com a Turquia. Ashala, ali, na estação, sumida. Ashala, tuvalet, photo çekilibir myim. Ashala, música turca em Taksim square, Istambul. Ashala em flashback na parte suja de Istambul, sentada ao lado do homem de grandes olheiras com quem passei tardes em frente a um grande narguilé azul, ouvindo sobre lendas locais, contadas num inglês macarrônico e profético, lendas sobre aquele velho que perambulava para cima e para baixo e nunca – jamais – parava para comer um kebab shawarma, lendas reais sobre o velho turco se alimentar de carne humana, e apenas uma vez ao dia, e já ter, pelos cálculos do turco das olheiras, seus cento e poucos anos de idade; Ashala que desperdiçou sua provável chance única de atingir um orgasmo inexistente; Ashala que me maravilhava durante nossa viagem gratuita sobre o Mediterrâneo, dormindo de colherzinha em um maldito saco de dormir no convés do navio; Ashala que me distraía na noite em que era impossível definir a linha do horizonte, enquanto apenas depilava as pernas com um aparelho holandês; Ashala que, limpa mesmo sem banho, exalava um cheiro que me fazia pensar em sexo mesmo sob o choro eterno das mesquitas; Ashala que perdeu sua provável chance única de atingir um orgasmo inexistente para pessoas sozinhas.

As pessoas às vezes não confiam quando você diz que tenta. Eu confiei e confio sempre; como confio na pureza instintiva de tudo o que existe e depende do próprio instinto coletivo de autopreservação. Conforme um dia me explicou Salieri. Ashala com seu espírito de pisciana equivocada, que negava sua natureza pisciana – coletivista por princípio – conseguiu me magoar e perder sua chance mais preciosa de realmente transcender.

Eu me entrego e confio. Eu simplesmente deslizo pelas nuvens sem olhar para baixo, para não correr o risco de cair ou de alguém me puxar pela perna. Mas aí que de vez em quando eu passo o braço como um pêndulo por dentro da fumaça e pesco alguém - vem comigo. E aí que ela não veio, desta vez. Eu escolhi, eu pensei, eu senti, eu me cer-ti-fi-quei, eu passei o braço. E aí que ela não veio. Ela preferiu perder o tempo dela esperando o ônibus, para cobrir uma distância que, deslizando, você faz em menos de um segundo. E faz tomando sorvete e trepando sem ajuda das mãos. Você faz sexo a-pe-sar das mãos, esses instrumentos de posse. Mas aí que ela se colocou em negociação num momento em que o mercado não estava exatamente em recessão. E quem vai deslizando não pára para debater preço. Você pega, rouba, seqüestra e leva para comer na viagem.

E tem mais: o processo parece com corrida de revezamento, só que o revezamento é interno. Explico: eu começo deslizando, pego você. Te como enquanto você me come. O resultado, a soma do que sobra de cada um, vira um novo sujeito que desliza e incorpora uma outra pessoa. A gente, como a gente conhecia, não existe mais. A gente é passado - muito rápido. Não dá tempo para dizer "tem certeza do que a gente tá fazendo?". E a soma desses outros dois, trepando e dizendo coisas definitivas entre as nuvens, estende o braço e tasca mais um. Eu só existo - enquanto esta unidade que escreve aqui - até o momento em que meu braço se estender e eu estiver condenado a me transformar em uma terceira pessoa, a partir do ponto em que estarei miscigenando com outra viajante.

E eu já fui tantos..... É, pelas nuvens. Sem parar para trocar o bilhete nem para falar de coadjuvantes sem a menor importância. Aqui na Terra as pessoas tendem a mostrar que se importam com você através de narrativas sobre como outras pessoas querem roubar o que é seu. "Você não imagina quantas pessoas me querem!" Suck it, honey! I just don`t give a fuck! I`m sliiiiiiiiiiipping through the clouds!!! Espera seu ônibus que meu trem agora só pára ano que vem. E para onde eu tô indo não tem estrada, honeeeeeeeeeey! Pior pra ti, ruim pra mim, mas grande é a chance de crescer. E a hora de ferver. E chega de perder. Tempo, dinheiro, hormônio, dig-ni-da-de e atenção. Para onde eu vou não existe negociação e não existe jogo. Ganha quem quiser e não há perdedor na terra do café-com-leite. Entrou na partida, levou o troféu. E quantos troféus eu tenho na estante, coração! Quantos Jules Rimet decoram meu peito e me lembram que viajantes já me fizeram bem mais feliz!

Não que eu tenha uma estratégia, não que eu mande no meu time, não que diga exatamente o que cada quarterback deve fazer; o que acontece é que eu solto meus leões na arena sem parar para pensar. Um deles vai sobreviver e vai garantir minha tarde no Coliseu. E você, que prende seus Aelius Maximus, enche o time de anabolizante e treina todo mundo até a hora do "não", não tem a menor chance quando der de cara com o olhar do meu leão, com o olho do "sim", com o olho do "eu te atropelo sorrindo", com o olho do instinto, da pureza e da infância que valem a pena. Você parada no ponto me encheu de vontade de te carregar, mas você pesa e, como se não bastasse, faz força para baixo. Você quer carregar malas que não cabem na minha nuvem. Aliás, meu pedaço de céu rejeita bagagem de qualquer tipo. E, como no desenho do Papa-Léguas, você coiote só cai quando se dá conta que saiu do penhasco; você boicote só cai quando olha pra baixo e faz "oh-oh!" Que nem o som do meu ICQ. Que nem o som do meu "Ih, Cansei de Quaquaqua" Que nem o som do meu "Incredible Child Quocient", que é a minha forma de se medir a espontaneidade das pessoas.

Aqui só vale o que vem sem que você possa exercer controle. Expressão de domínio sobre técnica é mediocridade. Vai solar seu quaquaquá em outra nuvem mais disposta a metaliguagens. Eu já te mostrei que você pode. Não tem erro. É chegar e fazer sucesso. E tenho certeza de que quase todas as nuvens querem você. Por aqui, o que não vier acompanhado de sorriso e de "sim" é entendido como peeeeeeeeeeeso demais. Ah, se não! Ora, se é! Sim, senhor! Peeeeeeeeeso demais. Eu não seguro a onda. Graças a deus. Porque é exatamente por não segurar a onda que vez ou outra eu cruzo com sereias, que me chovem do alto da minha nuvem e cantam - efetivamente cantam - pra mim. E é sempre um prazer afundar com elas. Você parou a música no meio e aí a platéia esfriou. Mas eu quero combinar que a gente se fala de uma nuvem para outra - respeitando e admirando os diferentes elementos constitutivos de cada um - e eu te imploro por me manter informado sobre as condições de temperatura sobre seu país. Isso me interessa.

Nos últimos dias, você foi minha televisão preferida, e não é difícil ficar horas a fio assistindo a você. Mas não sei se vale pegar um ônibus para ir até o estúdio e interagir no auditório. Eu prefiro pela TV. Além do mais, o próximo ônibus que eu vou pegar será em direção à queima de fogos, amanhã à noitinha. Lá eu sei que realmente vai ter coisa explodindo. E nesses casos, eu faço questão de estar presente. Para ver queimar, eu pago do meu bolso. Para ver queimar. E vai ser tudo colorido amanhã. É capaz de eu procurar uma camisa Flicts no meu guarda-roupa, para ficar combinando com todas as cores e não precisar perder tempo explicando meu azul para fogos verdes quaisquer. É capaz de eu sentar num morteiro e gritar para o cara da prefeitura: "manda bala, meu velho! Eu quero explodir ali no alto, do lado daquele ali...- BOOOOOM - viu? Aquele ali! Foi agora! Manda bala!" É capaz de eu acenar para você e dizer: "tem um outro sendo lançado daqui a cinco segundos! Senta nele e vambora! Não espera mais o ônibus, porque o trânsito de Neocopa tá fechado há horas e o máximo que você vai conseguir é uma bicicleta".

É capaz de eu não fazer nada disso e simplesmente me aproveitar da minha posição privilegiada para ver de cima a cascata dos hotéis que lava as janelas dos viajantes de luxo com fogo e cores inegáveis - cada uma gerando um conceito novo, cada uma lembrando que uma vida soube se descolar de seus medos finlandeses, de seus medos italianos, de seus medos americanos, de seus medos franco-argelinos, de seus medos alemães, de seus medos angolanos, de seus medos de turismo sexual, de seus medos de infância, de seus medos de carência, de seus medos de dormência e simplesmente viajaram e ocuparam uma janela de hotel.

Amanhã eu vou ter entendido que hoje foi simplesmente um dia quente em que eu me sentei, suei e pensei. Hoje eu sei que hoje foi simplesmente um dia em que eu fiz exatamente isso, e sei que hoje é simplesmente mais uma viagem na direção de um lugar ao qual eu já cheguei há muito tempo, desde que eu entendi que não suar e não pensar é congelar em medos e esperar por ônibus que te levam a pontos insignificantes quando se pode deslizar por nuvens e conhecer a si mesmo no meio da viagem. Beijo. Você pediu, você sumiu, você me inspirou depois de dias, eu pensei nisso tudo. Desculpa se eu descrevo você agora, mas a ideia era descrever tudo que parecesse completamente diferente dessa nuvem aqui no céu que é a única coisa que leva escrita a palavra "trégua", contra o calor insuportável que está fazendo aqui agora. Que nem eu, essa nuvem branca, sozinha - mas sozinha porque saiu para passear sozinha - que nem eu, ali em cima, nesse fim de tarde profundamente azul e inegável. Foi inevitável. Mais beijos. Senta no morteiro ou manda notícias. BOOOOOOOOOM! BANG! BANG!

- Isso é tudo que alguém poderia dizer a uma prostituta emocional que, como toda e qualquer puta, não percebe – por baixo de moralidade ou contra-moralidade – que, no fim das contas, nega sua essência de célula de uma coisa maior chamada humanidade.

Interessante ouvir isso de Henry, já que eu realmente jamais parei para ouvir sermão, mas acho que herdei da natureza a plena capacidade para organizar meus pensamentos e estruturar minha vida; embora não consiga sentar a bunda na cadeira e simplesmente escrever. Ninguém é perfeito. Mas uns menos que os outros. Deixemos então os mais medíocres seguirem seu caminho. Afinal, quem sabe, em troca de sexo ou palavras de apoio, você não ganha hospedagem para uma noite quando estiver na sua própria estrada?

De qualquer forma, prefiro as putas cujo pagamento está definido desde o início. E seus repertórios costumam ser mais diversificados. Saio então da sessão com o espírito renovado, disposto a não fazer simplesmente nada. Apenas seguir o fluxo dos seres verdes que se esgueiram pelas avenidas e ruelas das cidades – em Underdogsville ou em qualquer outra cidade. Sempre que você começa a reparar em traços físicos e maneirismos das pessoas, você tem a certeza de que talvez – certezas são assim – realmente só haja sete ou oito tipos de pessoas no planeta.
Afinal, o que o maior cirurgião plástico do mundo, um cantor brega, um apresentador trash de TV, um filho de ex-governador e um músico adolescente poderiam ter em comum? Ah, todos comeram Luana. É sempre assim.

A noite não prometia nada. Há dois dias de folga do jornal, a preguiça já havia tomado posse de meus ossos e já não conseguia pensar, decidir, estruturar nenhum programa. Estou checando a correspondência quando me bate a vontade de ir ao cinema. Chamo Didier e combinamos exatamente às 20:40. Ouço mais algumas músicas, fumo mais alguns cigarros, engulo uma meia dúzia de estimulantes para agüentar a mim mesmo sem perigo de chorar e entro no banho. Todas as mulheres que me vêm à mente ou já tinham um compromisso ou estavam sem qualquer ânimo. Oquei, cinema.

Saio tarde de casa e, obviamente, perco a hora. O que fazer? Um pulo na locadora de Didier, um outro na casa dele para checar o novo computador e a decisão óbvia de comer sushi. A comida estava ótima, como sempre, e o bar em frente ao restaurante, ponto obrigatório das noites vazias, não parecia convidativo. Sugiro um programa diferente: Cinderella ou Toxxiclub, em Neocopa. Há duas semanas, quando saí da casa de alguém que conheci na internet e com quem trepei na vida real, chequei os preços. Agora, tudo nos guiava até lá.

Vai aqui um adendo: duas semanas atrás, conheci Nathalia num chat. Vinte minutos de papo. O suficiente para marcar um encontro na mesma noite. Chego ao shopping e vejo uma menina linda, de cabelos negros cacheados na altura dos ombros e olhos enormes. Quase árabe, quase anjo. Decidimos sentar em um bar ali perto, no Lemle, o distrito judeu. Papo vai, papo vem, digo meu sobrenome e ela arregala os faróis. Puxa a identidade da bolsa e pumba: minha prima. Nada que cortasse o tesão. Nada que tenha marcado a noite, depois de uma belíssima e selvagem – mas carinhosa, por culpa dela – trepada. Grandes seios, grande bunda. Voltemos, voltemos.

Toxxiclub, 16 valores, com direito a dois drinks nacionais ou um importado. Entramos sem compromisso eu e Didier e, dois passos à frente, damos de cara com a parede dos fundos. Não, definitivamente, espremer-me contra putas não era exatamente o que eu planejava para minha noite. Cinderella então.

O dobro do preço e as mesmas regras para a bebida. Estico o pescoço para dentro e nem preciso consultar o amigo: vai ser ali mesmo. O garçom nos guia por um ambiente enorme, escuro, apinhado de garotas de programa, luzes percorrendo as paredes, pais de família respeitáveis, bigodudos e bêbados como o gerente do meu banco. A música ficava por conta de Tom Jones e seu clássico It`s not Unusual. O homem nos pergunta se é nossa primeira vez ali. Estava óbvio que sim.

- As regras são as seguintes: a consumação mínima é de 35 valores e você pode pedir uma bebida qualquer. Na saída, vocês pagam. A mesa de vocês é esta aqui. Se alguém quiser se drogar, é bom estar ligado que o lugar é um antro de policiais e agentes da Ordem. Façam o que quiserem; eu não disse nada.

A mesa em questão era redonda e pequena, coberta por uma toalha vermelha e posta à frente de um grande sofá coletivo que tomava toda a extensão da parede, no fundo. Me sinto praticamente no banheiro do negócio. Didier comenta estar com a mesma impressão. Porra, já estavam nos sacaneando. Mais: é só o homem falar em dinheiro para meu bolso pesar e um calafrio me subir pela espinha. Preciso ter cuidado com minha grana e estudar os menores movimentos de cada um no local, penso. É incrível como a inexperiência é a mãe da paranóia. Se eu fizesse um pequeno esforço, conseguiria imaginar todos olhando para mim e dizendo “Olha ali, um novato. Aquele casaco de couro cru deve estar recheado de valores. Vai perder aquilo tudo para mim”.

Louras, morenas, negras, altas, baixas, lindas, feias, velhas, meninas, toda sorte de prostitutas circulando pelo ambiente e te olhando nos olhos faz pensar que você é, ao mesmo tempo, a chance e o problema delas. Nos queijos, algumas mulheres bastante desejáveis rodopiam e arrebitam a bunda, sendo impossível não entender como é que tanta gente paga para trepar. Realmente, é arte aliada a técnica e precisão.
Eis que a primeira se aproxima. Loura falsa, rosto razoável, seios interessantes e bunda es-cul-tu-ral. Ela chega e me pede fogo. Acendo seu cigarro. Ela sente meu casaco com a palma da mão e encosta a boca no meu ouvido:

- Where are you from?

- Daqui mesmo.

Nada mais clichê, eu sei. A mulher pergunta se gosto de seu vestido preto tomara-que-caia e o ajeita de modo a deixar entrever os bicos rosados de seus seios bonitos e intrinsecamente sujos. Ela diz me achar lindo, óbvio, e põe os braços ao redor de meu pescoço. “Dança comigo, gatinho”. Eu a tomo timidamente e ela põe minha mão em sua bunda. “Me aperta”, ela diz. É gostoso. Eu deixo. Começo a esboçar uma ereção, ela percebe e me aperta de volta, soltando um gemido tão profissional que meu pau não se decide se endurece ou morre de rir.

Uma lambida de leve em minha orelha direita. Eu cheiro seu pescoço e reconheço o perfume: Stilleto, do Boticário. Um flashback da sexta série primária me toma. Houve uma época em que todos no meu colégio usavam Stilleto. Imagino, por um segundo, quantos ex-colegas já devem ter ganho seu primeiro milhão. Eu, ainda que quisesse, não poderia pagar os 200 valores que a bunda custava, segundo a tabela da casa. Mas eu não queria. Oquei. Ela propõe que nos sentemos e começa a me apalpar sobre a calça. Passo a mão por suas coxas e esfregamos os rostos, de leve. Cerca de cinco minutos. Ela pergunta se quero sair dali e eu digo que ainda não. Ela percebe que sou uma furada e vai embora.
Me levanto. Didier está sentado com outra garota. Essa sim, realmente bonita. Vou dar uma circulada e passo a mão em uma criatura como quem testa um abacate na feira. Sem calcinha. Volto, beberico meu uísque e logo uma outra putinha aparece. Esta faz o estilo menininha. Moreninha, gostosinha, cabelinho chanel, vestidinho... Ela vem com o mesmo papo da última e dançamos abraçados, até que ela morde minha boca de leve e eu pergunto se aquilo não é proibido. “Depende da nossa vontade. Eu não faço isso com qualquer um”. Me sinto o filho do patrão no churrasco da empregada. Só faltava o tanque de lavar roupas e a imagem de Nossa Senhora num mosaico de azulejos. Dispenso-a por um cigarro e alguma paz.

Algumas outras passam, jogam charme e tudo está ótimo. Vejo uma mulher mais bem vestida, cabelos curtos e um rosto interessante. Lanço um olhar de quem já adquiriu a experiência necessária para comunicar e ela rebola para mim, no estilo Dança do Cachorrinho. Começamos a conversar animadamente, sem contato físico. Meu nome é Rubem, sou publicitário e ela é amiga da Amanda, a “mulata” que tem cinco minutos de descanso até começar a se aprontar para subir no palco e tirar a roupa. Falamos os três sobre amenidades e simpatizamos uns com os outros.

Começam as performances no palco e ela me diz que a única “mulata” que ganha destaque no show é a mulher do dono da casa. Segundo ela, mais macaca que mulher. Barraqueira e violenta. Mas os seios da menina são ótimos, penso. Mais shows, mais comentários maldosos. Estamos sentados e ela passa a mão em minha perna. Começamos a conversar sobre sexo, o que a faz abrir a boca sobre personalidades públicas. O cantor é nota 10, o apresentador trash tira a perna para trepar e toma injeções não sei de quê, o cirurgião é um gentleman, o filho dele é gay, e o filho do ex-governador tentou forçar um sexo anal.
– Ele sabia que eu não queria dar a bunda, mas me segurou e tentou com muita força. Depois pediu desculpas.

Ela jamais perdoou. Está certíssima.

Didier está calado e ela faz piadas sobre isso. Um clima de amizade, respeito e leve erotismo nos envolve. Ela me diz que se chama Luana e confesso ser jornalista. Mas o Rubem continua em cena e o nome do jornal permanece em segredo. Falamos sobre preconceitos durante um tempo e ela me diz que ninguém acredita quando descobre sua filiação ao Partido Idiossincrático Egocêntrico. Luana tem 30 anos e planos de entrar para a política. Nada mais coerente, certo? Sua maior frustração é nunca ter podido fazer faculdade de... jornalismo. Didier vai embora.

Ela comenta com Amanda que quer ir à Sodoma Market Hype, uma exposição de produtos fashion-easy no Jockey Club, que aconteceria no dia seguinte. Mudando repentinamente de assunto, me pergunta se eu quero fazer um programa – bem entendido: trepar; pagar - ou se estou a fim de apenas conversar. Abro o jogo e ela não sai dali, dispensando todo e qualquer cliente em potencial. Se cala e me pergunta se eu alguma vez paguei por sexo. Respondo que não e ela acha lindo. À essa altura, meu uísque já acabou faz tempo e uma segunda dose custaria um adicional de 20 valores. Nem pensar. Chupo gelo após gelo, sacando pedras do balde esquecido sobre a mesa. Luana observa a cena, sorri envergonhada e me diz que sou uma gracinha. Pergunto então se ela estaria disposta a ser notícia, a estrelar uma matéria, além de dizer, desconexamente, que ela é muito interessante. E era mesmo. Ela diz sim. A mim, à matéria, a um chope no dia seguinte e a meu pau. Sai dali e volta com um cartão.

- Para você, eu sou Luciana. Me liga amanhã e vamos beber alguma coisa.

Penso que preciso ser cordial e aceitar, mas que não vou telefonar, não realmente. Não estou exatamente à procura de amigas, até que ela me faz mudar de ideia com um belo beijo de língua. Insistência por um telefonema. Insistência por um olhar sem preconceito. Nem precisava. Disponha. Sem que eu peça, Luciana começa a articular uma maneira de irmos embora dali sem que eu precisasse deixar os 200 valores com o caixa. Vamos sair pelos fundos e trepar. Não, vamos sair separados. Não, você sai e me espera na esquina. Planos desesperados durante uma punhetinha profissional e eficiente.

Neste exato momento, dois garçons nos vêem durante um amasso explicitérrimo e o plano vai por água abaixo. Vamos deixar para amanhã. Me despeço rapidamente e ando em direção à porta, morrendo de medo de represálias. Saio impune, com o cartão no bolso e, na cabeça, uma história bem melhor do que esta aqui descrita. Ando pela Borderline Avenue, vou até a praia, dou uma maravilhosa mijada, volto e paro numa banca de jornais. Compro cigarros e vejo, lá no fundo, um maço de Kamel Red. Sim, Camel com K, mesmo. Já tinha ouvido falar. É uma variação do tradicional, da mesma R. J. Reynolds. 4,50 valores. Duas vezes e meia o preço do tradicional. Caro.

Compro a raridade e me sento em um bar, de onde posso ver a porta do Cinderella. Bebo um refrigerante, abro o maço e penso na vida. Degusto a preciosidade como se fosse um Havana. É realmente muito bom. Apesar do filtro branco, não se parece em nada com as marcas ruins que me dão pigarro. Penso onde diabos, ali, na Fawcett-Bornay, Luciana mora. Penso se a mulher realmente renderia uma matéria. Penso que, amanhã, não posso me esquecer de comprar preservativos. Penso que estou, progressivamente, realizando os sonhos de todo e qualquer homem normal. Imagino o que faria de mim alguém especial e concluo que não sei, mas gosto muito da sensação. Fumo dois Kamels, termino minha lata, entro vagarosamente no banco de trás de um taxicab-opala e o vento gelado nos cabelos por toda a Zona Sul sela minha noite como mais uma loucura necessária e me prepara para o dia seguinte.

Caio na cama como uma âncora, para só me levantar um dia depois, por volta das sete da noite. Fumo então um Kamel e nada de interessante passa na TV, o que me conduz à frente da máquina, enquanto ouço Miles Davis. Mais especificamente a trilha sonora de Ascenseur pour l`Échafaud. Ao todo, 26 faixas, sendo dez delas originais, gravadas de improviso em 1957. As outras 16 são reedições e takes inéditos. Uma loucura. É Miles no seu auge, acompanhado de músicos sensacionais que oscilam com graça e brilho entre o mais lento blue-jazz e o mais violento bebop. That`s what life`s about, buddies.

Já na última faixa, estou realmente acordado e miro o cartão de Luana em cima da mesa. Não preciso pensar duas vezes para decidir ligar e concretizar o que na noite anterior havia ficado apenas na vontade. A mulher atende ao primeiro toque. Não sei se tinha um localizador moderno de chamadas ou... Dr. Salieri, agora serão horas até que o nível de peiote suba de novo e eu encontre meu lugar na cadeira. Pelo amor de deus, antes que os agentes da Controladoria de Reações me ouçam gritando aqui, me dê um gás nesse óxido nitroso e me faça rir. O senhor sabe contar piadas e não vai haver com o quê se preocupar, desde que o senhor não pare de falar. Estou ansioso para vivenciar o resultado do pó com o óxido. Hum... interessante. Ainda não havíamos pensado nessa combinação. Ainda não havíamos previsto esse mix. Talvez assim eu consiga pensar em algo engraçado e participar de Henry Lee com mais intensidade. É engraçado, embora eu esteja com um certo sono. Seria ótimo se houvesse Nescau envolvido nisso tudo. Às vezes o mais duro e sério dos homens precisa de Nescau. De Nescau e de, isso. Valium. Mais, certo? Interconscience e as bitolas do eletr...

Sabe, nem é por nada, hoje me lembrei de uma coisa da minha infância. Eu sempre lembro de coisas imbecis e sem importância da infância, mas, dessa vez, eu realmente me lembrei da infância. Não que não seja imbecil, mas lembrei. Uma camisa que usei ontem, xadrezinha, laranja e branca, linda mesmo, me fez lembrar do plástico quadriculado que encapava meu material escolar. Meus cadernos e livros eram encapados com um plástico assim, azul e branco. A escola exigia o maldito plástico que te forçava a comprar etiquetas também, já que todos os livros e cadernos ficavam iguais. Então, todo ano era a mesma merda: sentar com meu pai na mesa da sala e encapar os cadernos. Um por um, e sempre era num momento em que eu preferia estar jogando Atari.

Mas eu tinha sempre que ajudar naquele trabalho insano. Aí, depois, tinha que colar as etiquetas. Quando elas ficavam tortas, e isso acontecia quase sempre, meu pai me mandava prestar atenção no que eu estava fazendo. Eu tinha que tirar a etiqueta e colar outra no lugar, tomando cuidado para cobrir o resto de etiqueta que ficava coladinho no plástico para sempre. Se você tentava tirar esse restinho, rasgava a encadernação. Se exagerava no durex, por dentro, a capa não fechava direito. Mas enfim, pelo menos a minha encadernação era azul e branca. As meninas costumavam usar a vermelha e branca, e as crianças estranhas, que moravam em Via-Traffic ou em distritos esquisitos como Passagem, Tihulla ou Distrito Pescador variavam entre o verde e branco e o amarelo e branco. As bichas se camuflavam na hora de encapar os cadernos. Algumas eram mais ousadas, como o Claude. O Claude uma vez chegou ao ponto de usar um plástico meio transparente, cor-de-rosa. Ah, o Claude não me enganava não. E a professora, quando viu, mandou o Claude reencadernar tudo. Com plástico quadriculado. Nunca entendi por que diabos aquele plástico era tão importante para o colégio. Mas o lance dos distritos acontecia mesmo.

Leo Barata era um negão - na medida em que se pode ser um homem negro enorme e altivo, digno, aos oito anos de idade - que usava encadernação verde. Ele era de fora. Carbon Sampa. Era meu melhor amigo, de ir em casa, aniversário e tudo mais. Leo era um mini-negão atlético e espichado que acabou ganhando da crueldade dos meninos o complexo mais estranho e invertido que já vi em toda minha vida. A professora de matemática não deixava a gente sair de sala no meio da aula para ir ao banheiro. Nunca. Aí aconteceu que, um dia, tocou o sinal e corremos quatro, desesperados para mijar. Eu, Bruno Azzario - que tinha uma mãe maconheira -, Leo Cerpentes e Leo Barata - o dos cadernos verdes. Todo mundo tinha nomes completos naquela época. O banheiro que ficava no fim do corredor só tinha uma privada, e crianças de oito anos não conhecem o conceito de segurar xixi. Logo, obviamente, optamos em silêncio por mijar todos ao mesmo tempo.

Não, não mijamos um no outro. Simplesmente abrimos as calças, quem não sabia puxar o pau pela braguilha - como eu - abaixou tudo até o joelho e... O ar parou por alguns segundos, enquanto olhávamos assustados. Era algo, como posso dizer, bem maior do que qualquer lapiseira daquelas que as meninas não deixavam cheirar porque diziam que ia sair o cheiro. O pau do Leo Barata era algo de um tamanho que crianças não conhecem. Nem por um momento alguém ali sentiu inveja. Eu, particularmente, senti um estranhamento, acolhi meu pau com a mão e pensei como devia ser ter que carregar aquilo tudo, ajeitar dentro do short, lavar todo dia... Ah, fora o fato de que negões de cadernos verdes não são circuncidados. Aquilo para mim não pertencia à categoria pau. Era uma outra coisa e eu não sabia o nome. Mas o Bruno sabia e tratou de espalhar para a sala inteira: elefante. Bom, desculpa. O nome não fui eu quem deu. Foi o Bruno Azzario. E a partir daquele dia, Leo Barata era o Elefante.

Relembrando, consigo ver que o menino tinha um olhar diferente do nosso sobre o assunto. Me lembro que, quando todos olharam para seu membro, que aliás foi o único que já saiu da calça mijando, ele esboçou um leve sorriso e falou: "Vai, mija!" Sacou? Eca, honey! Mesmo sabendo que todos estavam quase vomitando com aquilo, ele estava feliz e mandando a gente mijar na mesma privada que ele. Orgulhoso. Já tinha a malícia, já sabia que carregava um troféu. Leo passou a não me enganar mais também. E quando a gente começou com uma mania de correr diariamente pelo pátio, para fazer exercício? Me lembro que ele corria muito, mas mantinha o braço meio dobrado e as duas mãos moles, apontadas para o chão, pendendo, conferindo à corrida um tom de relaxamento astral. Continuamos bem amigos.

Seu Mario era o porteiro da escola. Um cabloco de metroenoventa, quarenta anos, grisalho, carequinha, magrinho e simpaticíssimo. Ele sabia meu nome completo, mas me chamava de Olhos Verdes. Eu odiava aquilo, mas, já que todo ano ele coreografava as crianças para a dança da Festa de Natal e preparava os convites manualmente, um a um, banhando os cartões em purpurina colorida, aprendi com os professores que Seu Mario era uma pessoa a se admirar e amar.

Seu Mario era solteiro que nem o Reinaldo, que trabalhava no mimeógrafo. Reinaldo era albino, baixinho, troncudinho como um cocô, cerca de cinqüenta anos, cabelinho duro num corte quadrado, e tinha a cara toda esburacada e cheia de restos de barba mal-feita. Reinaldo cheirava a cigarro, tinha uma voz mole e rasgada e passava base nas unhas. Me lembro que ele usava um anel que um dia deve ter sido dourado mas, na época, era de um preto meio verde de limo, com um falso rubi saltando entre os pêlos com cheiro de mimeógrafo de seus dedos curtos e calejados. Ele era horroroso, obviamente, apesar daquela aura angelical e hipnótica dos albinos, e, quando começou a ser espalhado um boato de que ele tinha beijado um garoto da sexta série na boca, parei de cheirar as provas e testes que saíam perfumadas do mimeógrafo.

Beatriz comia meleca, era gorda, burra - seu apelido era Burratriz - e eu tinha muito tesão nela. Um dia contei para o Leo Barata e ele espalhou para a sala inteira. Até hoje, não confesso isso nem sob juramento. Para se ter uma ideia de como Beatriz era fora de propósito, basta dizer que, apesar de ser menina, ela usava encadernação amarela. Óbvio que ela morava num buraco de Via-Traffic, em cima de uma papelaria.

Todo ano, da primeira à quarta série, eu fazia festas de aniversário no playground do meu prédio. Eu nunca chamava a Burratriz. Teve apenas um ano, na segunda série, em que fiz um aniversário intimista. Convidei apenas a Amanda e, por causa disso, quase que o Leo Barata deixa de ser meu amigo. Como eu resolvi a questão? Dispensei a Amanda e convidei o Leo Barata. Para quem eu ia falar sobre a Amanda na minha festa? Leo então apareceu em minha casa com uma roupa inadequada e tive que passar a noite explicando a algumas pessoas coisas que crianças normalmente precisam aprender justamente com os adultos.

Fico pensando quem deve estar comendo Leo Barata, hoje em dia. Eu nunca fiz. Na época, além da Amanda, a única pessoa em quem eu esfregava meu pau era Marcos Paixão, que sabia exatamente que só precisava estar no banheiro do restaurante da escola entre as aulas para brincar de quem é mais rápido. Eu sempre era mais rápido. E quem devia comer Seu Mario? E o Reinaldo?

Quando você vai ser apresentado ao namorado de uma bicha velha, você deve estar preparado para tudo. Pense nisso: se uma das bichas é velha, a outra obrigatoriamente vai ser novinha. Sempre há o efebo. Bicha velha não gosta de velho. Bicha velha quer entumescimento. Entumescimento. Mas vejamos: o namorado da bicha velha pode não ser novinho. Pode ser ainda mais velho. Claro. Vai que Seu Mario era um jovem boiola quando a relação começou. A gente nunca sabe o que esperar. Uma boa saída é, antes de encontrar o affair da boneca, perguntar: “há quanto tempo vocês estão juntos?” Pronto. Resolvido. Se a resposta for “30 anos”, você sabe que Seu Mario era o jovenzito. Eu nunca conheci o namorado do Seu Mario, mas soube, anos depois, que ele estava trabalhando como segurança de hotel. Imagina só, depois de um assalto: “policial, ele simplesmente veio, levou as jóias, o meu coração, e saiu correndo!” Sem graça. Tudo bem. Mais sem graça ainda foi ter ouvido há algum tempo que o Reinaldo tinha morrido de AIDS. Definhou até não sobrar mais que ossos e pele cor de flicts. Náusea.

A sessão mais uma vez termina e sinto que estou finalmente adaptado às técnicas do Interconscience. Segundo Dr. Salieri, haverá um determinado momento em que bastará a indução hipnótica para que meu cérebro reconheça os efeitos de cada droga isolada, e minha mente estará livre para sempre, bastando apenas um comando verbal para que eu me entregue à consciência superior. Henry Lee está no mesmo estágio, imagino. Se o que Dr. Salieri afirma é verdadeiro, Henry Lee está no mesmo estágio. Cada vez que saio agora da câmara, sinto que minha percepção sobre cada pequena coisa está sendo revolucionada, sem que haja a menor hipótese de um retorno. Não sei se caminho para a sensibilidade aguçada ou para a loucura mais absoluta. De qualquer forma, o que exatamente quereria dizer a palavra “realidade”, quando, na verdade, é tudo um sonho?

São agora aproximadamente seis da tarde e uma brisa me maltrata docemente. Tenho os cabelos úmidos de suor, mas meu rosto cheira a sabonete, pois acabei de, civilizadamente, dar um lavada geral no lavabo da câmara. Banheiros de consultório são ótimos para microhigiene pessoal. Seis da tarde. Cai a noite e a cidade dorme. Dorme de olhos abertos. A orla acesa, o Monumento à Ordem amarelo sobre as águas da lagoa, Undergenéve abrigando gente de meia-idade, gente de bom gosto e gente com gosto de delicatessen e locadoras 24h. O centro da cidade agora revela sua face parisiense por toda White Avenue e, na Kinoland e nos Arcos, a malandragem foi dragada pelo urbanismo desertificador que só preserva as fronteiras com o Distrito Sujo, todo alaranjado e pontilhado de travestis automáticos.

Os bares sujos minando água e uma fresta de luz sob as portas de metal retrátil, guimbas de cigarro navegando para cima das pedras portuguesas, empurradas pelo rodo de homens cansados, ligados por ondas eletromagnéticas a transmissões de rádio cheias de reverb, depoimentos de mulheres abandonadas que dedicam músicas tristes a homens anestesiados pela cerveja que consomem em bares sujos, minando água e uma fresta de luz sob as portas de metal retrátil, guimbas de cigarro navegando para cima das pedras portuguesas, empurradas pelo rodo de homens cansados, ligados por ondas eletromagnéticas a transmissões de rádio cheias de reverb... a noite inteira até os montadores das feiras de rua tomarem seu turno.

A cidade dorme de olhos abertos. Me entrego ao sono coletivo em um bistrô anestésico, injetando uísque na língua e conhecendo multidões que valem por cada um; cada um ali representando perfeitamente o conjunto. Até que às duas da manhã ninguém mais cospe ideias geniais no Baixo Underbroadway. Duas da manhã de 2001 e há vinte anos ninguém mais cospe ideias geniais no Baixo Undergenéve. Todos já foram dormir e alguns ainda não chegaram a acordar.
E a cidade dorme de olhos abertos. Como um peixe que amanhece boiando na Lagoa e tem seus primeiros minutos de existência pública logo na primeira vez em que tenta expressar sua essência através do cheiro de peixe. E me entrego ao sono coletivo em um bistrô anestésico, injetando uísque na língua e conhecendo multidões que valem por cada um; cada um ali representando perfeitamente o conjunto. Os integrados sonâmbulos das seis da manhã saem de casa antes do Bom Dia, Subamerica e tapam seus narizes e falam aos jornais e comentam durante os almoços e levam o assunto ao trabalho e esquecem do fedor enquanto jantam no Orquidarius. A cidade dorme de olhos abertos. Dorme por toda a madrugada.

Amanhece. O barulho dos ônibus se concentra na Main Via-Traffic e se expande pelas bordas como mofo, chegando a resultar em um ou outro 174 azul, descendo o Alto Underbroadway, proclamando mais um dia. A Zona Norte não existe. A Zona Norte e o Hot Suburbia só diferem dia e noite pela movimentação de cães doentes pelas ruas de terra batida e quase-asfalto. O primeiro cão do dia recebe o apelido de Sorriso ou Tadinho e chega para cheirar as pernas da Margarete. Mas precisa se apressar, antes que ela suba no ônibus e só volte quando o bar da esquina já estiver minando água por baixo da porta de metal e os tiros tiverem começado.

Chega o dia e a cidade não levanta. As atividades são mantidas ao mínimo, o suficiente para que não haja falência múltipla de órgãos. Os olhos da cidade se fecham em torno da hora do nascer do sol e tudo passa entre uma piscada e outra, despercebido, num susto, num espasmo. O dia é apenas um sonho mais veloz, mais intenso, mais frustrante, e o homem com a sensibilidade aguçada se transforma facilmente em bêbado, em deprimido ou em vencedor. Se olha para trás, só pode ver um monte de gente fazendo besteira; se olha para frente, não há nada a ser visto; se olha para si, enxerga o desespero e a angústia de não ser real. Todos os dias o homem chega ao trabalho e encontra gente que acabou de acordar de sonhos ruins. Todos estão tão traumatizados com o que assistiram à noite, que querem cavar as próximas oito horas de sono o melhor possível. Sobre o travesseiro, quando acaba o dia, não há amizade ou perdão. Então por que manter a aparência de fraternidade em um lugar tão frio e impessoal quanto o ambiente de trabalho? É tudo uma marcha de volta à cama.

Às vezes há a sensualidade. O homem brinca de valoroso e diferenciado, a fim de conseguir uma trepada antes de fechar os olhos novamente e ter do que lembrar, ter o que confrontar às ameaças da frustração em sonho. E o homem com a sensibilidade aguçada se transforma facilmente em bêbado, em deprimido ou em vencedor.

Há os que fazem tratos com João Pestana, com a Cuca e com o Bicho Papão, e conseguem passar o dia comendo a todos enquanto dormem, como num sonho de menino adolescente. Há os que conseguem fazer o mundo todo dormir em volta de si e estupram o corpo, a alma e o bom-humor dos outros, enquanto estes sonham que é o príncipe encantado que os beija.

Mas vem a noite e a cidade dorme. De olhos abertos sobre a Rede Olhos, sobre os morros, sonhando em levar um traficante foragido de volta às suas grades, sonhando em trazer um ex-presidente afastado por impeachment para o elenco de vilões, para o casting dos pesadelos que transformam a noite em uma Hollywood particular. Sonhando com as rachaduras que agora, anos depois da queda de um edifício de luxo, cortam as paredes do edifício de luxo vizinho, e pensando que deve ter muita gente por aí sofrendo de insônia e tendo que visitar parentes no meio da noite.

A cidade dorme de olhos abertos, fixos no exemplo da cidade que nunca dorme ou na nobreza da cidade onde todos meditam e atingem o Nirvana. A cidade escolhe seus sonhos e é influenciada pelos sonhos dos que dormem em seus travesseiros.

As empresas cospem gente diariamente e gente que é engolida cospe em gente que é cuspida porque cuspiu na empresa. Dia após dia. Gente que, à noite, não sonha com a empresa. Gente que não admite trocar de cidade. Gente que não troca o bar que mina água sob a porta de metal retrátil pelo refeitório controlado pelo pagamento em crachás. E o homem com a sensibilidade aguçada se transforma facilmente em bêbado, em deprimido ou em vencedor. O homem com a sensibilidade aguçada percebe a chance de arrombar as casas e os que estão dormindo e levar todo o dinheiro, todo o fluido vaginal, todos os sonhos, todas as cidades. O homem compra o bar, compra os seus cigarros e cospe nas pedras portuguesas em frente à empresa. Basta saber entrar sem fazer barulho.

Até que chega o Carnaval e o sonho é coletivo. Os bares intensificam a oferta e todos podem garantir que só vão acordar na semana seguinte. Os alto-falantes da Marquês de Sambafiesta são ligados sob os olhos abertos do Túnel de Integração e emitem sonhos de uma hora e meia de duração, cada. Metade da Rede Olhos dorme e a outra toma café o suficiente para agir como o Doutor da seção de LSD. O locutor da festa é o Timothy Leary moderno durante a semana de sono nacional, e conduz a dormência de um povo que tem medo de acordar e encarar um Freddie Kruger armado na esquina de casa.

Cada comunidade de sonâmbulos se organiza e desfila sua versão de “Vamos lá, nem foi tão mau assim”. Uns navegam, outros reinam, outros abençoam, outros tem fé, outros são reis, outros estão na sua vez, outros voam, outros recebem santo, outros choram, outros homenageiam, outros fazem topless e nem sabem a letra. Mas todos sonham e suam. De olhos abertos.

A cidade dorme de olhos abertos sobre os cinemas de arte, velando pela insônia desesperada de gente que não aceita sonhar igual à massa. Gente que aplaude sonhos nacionais de se fazer cinema. Gente que aplaude a iniciativa crua, na esperança de ser aplaudido pela armação esquisita de seus óculos de olhar para si. Gente previsível que todo ano, na mesma data, pode ser encontrada por ali.

E vem o dia. E ninguém acorda. Apenas a dor de cabeça faz crer que o sonho teve alguma coisa de real e, portanto, valeu a pena. Uma vez que estou acordado, prefiro a luz que reflete nas janelas de quem fechou o ambiente para abrir espaço ao frio do ar-condicionado. Prefiro as manifestações naturais.

Prefiro aproveitar meu lampejo de lucidez da melhor maneira possível. E tudo é tão manhã cedo quando você volta... Enquanto rodo aturdido pela falta de harmonia do mundo quando percebo microcosmos isolados, fica claro que, no conjunto, tudo se move como uma grande geleca, expandindo-se e contraindo-se, mas sem jamais romper. Me sinto uma bicha hippie, talvez fragilizado pelo processo quase homossexual de fazer parte da consciência de outra pessoa; e deixá-la perceber meus desejos mais ocultos. Depois do relacionamento com Hannah, talvez meu projeto Henry Lee seja a experiência mais impressionante com a qual meu coração pôde arcar. Não sei, apenas estou bestificado e olhando as árvores, transformando cada polegada de asfalto que some sob o pneu do taxicab. E percebendo em detalhes e genericamente a paisagem.

Folhas mortas e marrons caem das amendoeiras da Lagoa e o céu é de um cinza simplesmente puro e inspirador. Quisera eu poder ficar rodando o perímetro West Gray Lagoon – East Musk Riviera-à-la-plage por horas e horas. As luzes dos prédios, a lua e o Monumento se acenderiam e eu estaria ali, para testemunhar. Um dia vou realmente separar um dinheiro e pagar um taxicab para rodar por horas e horas em torno da Lagoa. Todo dia penso nisso, enquanto sigo apressado para o trabalho. Por que nunca fiz? Todo dia sinto o vento fresco da Zona Sul me despenteando os cabelos recém-saídos de um banho quente que vale cada dia.
Todo fim de manhã acordo com uma preguiça deliciosa que vale cada primeiro cigarro do dia, da mesma maneira que a primeira tragada vale cada jazz que me acorda antes do banho. A cidade é sempre linda e me faz perceber que há rotinas que valem a pena. É tudo tão leve e integrado... Se a Downway Via, cheia, transforma a elegante Underbroadway na caótica Via-Traffic no horário de saída do Colégio Católico e da Escola Neoamericana, o distrito continua respirando a Undergenéve. Se eu tivesse o dinheiro, rodaria pela Zona Sul ouvindo todo tipo de música no banco traseiro do taxicab. Que vida...

Não sei como se pode viver em Carbon Sampa nesses dias em que Underdogsville passa como um filme. Não sei como se pode viver em Londres nos dias em que Underdogsville parece Paris pela metade do preço. Ah, e o cheiro do Alto Underbroadway às onze da manhã? E o cheiro do frio do Alto Underbroadway agora, domingo, aos 30 minutos de segunda-feira? O cheiro do frio me dá vontade de pegar a East Musk Riviera-à-la-plage, respirar fundo e ouvir um CD do Air em looping até a Arcadia. É tão bom parar no bar do Alemão, se encolher, abraçar um amigo e beber um chocolate quente e comer um croquete de carne cheio de mostarda alemã! É tão bom abraçar um amigo e dizer que está morrendo de saudades. Mesmo quando faz apenas um dia que você o viu e disse a mesma coisa. Solidão é triste, mas os momentos com amigos e Lagoa e jazz e cigarros e Arcadia transformam a vida em uma jóia da cor de Underbroadway. Alegria boba... Agora estou rindo e ouvindo “Parabólica”, dos Engenheiros do Hawaii, sozinho, de moletom, fumando um cigarro ótimo, enquanto uma amiga linda dorme aqui ao lado, toda enrolada num edredom e com um cheiro maravilhoso de shampoo. Nada de sexual, apenas uma menina como qualquer outra, que, de vez em quando, sorri como uma menina e lembra qualquer velhinho de que o mundo é cheio de novidades e doces bons.

Tudo bem. Eu estou feliz aqui. Deixa ela dormir e acordar ainda mais linda e ainda mais Marina amanhã de manhã. Hoje eu encontrei com ela por volta das oito, enquanto ela saía para trabalhar e eu ia dormir feliz. A vantagem de eu ter morrido em relação ao amor nesses dias é que eu não preciso sofrer. Eu só preciso pegar um taxicab e passar pela Lagoa a caminho do jornal. Esse é um dos melhores momentos do dia. De uma felicidade indescritível que não acaba nunca e me faz sorrir por 24 horas. Tudo é como um violãozinho emitindo acordes com sétimas maiores e uma voz masculina, quente e baixa, falando coisas com as quais me identifico.

“Parabólica” é a trilha sonora da Lagoa, embora a letra não saiba disso. Eu queria ter aqui uma gravacão de Nacib, meu amigo turco, tocando aquela música do Jorge Ben no violão. Jorge Ben não sabe que, na verdade, a música é de Nacib. Sempre foi. Da mesma forma que “Look for The Silver Lining”, cantada por Chet Baker, foi feita para mim e ninguém sabe disso. A letra de “Parabólica” diz: "Se a TV estiver fora do ar quando passarem os melhores momentos da sua vida, pela janela, alguém estará de olho em você". Sou eu, de olho em tudo que sai da janela e compete com o Sol. Cada menina de Underdogsville que acabou de acordar e ainda não teve tempo para se lembrar de ser fútil e pobre merece um beijo com gosto de café. Cada menina que acorda com cara de Deus e oferece à brisa da Lagoa a chance de beijar sua bochecha merece um beijo com gosto de chuva. Cada menina que acorda cedo e reclama com a voz rouca que tem de trabalhar merece um beijo com gosto de edredon e quente como meu moletom. “My Sweet Lord”, do George Harrison, fala disso mesmo sem saber.
Eu queria ser a bossa nova sem uísque e sem preocupação com a reação do público num Festival da Canção. Eu queria ser da cor de tudo que passa o dia sob a chuva e brilha intensamente nas vezes em que faz sol. Não sei do que estou falando agora, da mesma forma que Jorge Ben ou George Harrison não sabiam. Estou falando. Sorrindo e falando isso, sem um miligrama de qualquer tipo de substância na cabeça. Respirando o frio daqui e deixando fluir. Automático, como sempre faço e adoro.

Que bom que existem os fins de semana, as festas, o jazz, o primeiro uísque, as mulheres bonitas e todo tipo de música bem-feita. Sejam elas sonoras, olfativas ou visuais. Que bom que eu pude ter cada uma que tive durante um tempo. Que bom que eu ainda tenho anos pela frente para tentar encontrar outras. Que bom que eu conheço todo mundo que eu conheço, mesmo aqueles de quem eu não gosto. Que bom que eu tive essas férias da mediocridade. Que bom. Que bom que tudo existe e dá para assistir. Os melhores momentos da minha vida acontecem todo dia e se misturam com os piores. Tudo vem dosado quase sempre igual, como numa seção de interconsciência e, mesmo assim, cada dia me deixa interpretar as coisas de um jeito diferente.

Ah, as meninas que acordam cedo... Quando eu tiver uma filha ela vai ser linda e vou comprar um sol para ela poder perceber que não há tempo nem espaço para ser fútil nem pobre. Quando eu tiver um filho, vou colocar ele para brincar com as meninas e deixar o menino perceber que são elas as criaturas que mais se parecem com a chuva. Ele vai tomar banho de chuva todo dia, nem que eu tenha que roubar um milhão de nuvens para ele perceber que isso tudo é dele também. Ele não vai maltratar as pessoas e nunca vai broxar porque vai querer evitar. Só isso. Vai querer evitar como se evita um ataque de cócegas. Meu filho vai perceber que broxar é engraçado. E a menina que estiver com ele vai ser alguém especial. Se ele broxar, ela vai sorrir e o quarto vai se encher de chuva. Eles vão fazer amor embaixo d`água.

Ah, que cheiro de frio que faz em Underbroadway. Quando eu tiver uma filha, ela vai saber ouvir as músicas que eu citei agora há pouco e vai entender. Vai acordar, abrir a janela, e a Lagoa vai estar olhando para ela. Mesmo que ela more em outro país, a Lagoa vai comentar que ela acordou mais cedo e reclamou de preguiça. E vai sorrir. Eu vou estar num taxicab com tantas memórias que o motorista vai sentir o cheiro das pessoas nas quais estou pensando. Vai ser engraçado. Henry Lee, obrigado por você existir e obrigado por me fazer perceber de novo, hoje, o cheiro de frio que estou sentindo. Obrigado por sorrir que nem criança e por brincar com a realidade como quem faz guerra de comida.
Você me deixou com um sorriso que eu vou reconhecer no meu filho, daqui a uns anos. Eu não conhecia mais essa felicidade. E ela está aqui, agora, enquanto surto para o bem. Não sei se amanhã vou estar alegre, mas vou me esforçar para lembrar que é possível esquecer. Por hoje, meu coração se esqueceu que está morto. O que dá alguma esperança em reencarnação.

Vida, corta, dorme, e o dia seguinte veio pesado, sob fortes convulsões e vômitos, sujeito a internações no fim do período. Henry Lee teve uma forte síncope no lobby da embaixada marroquina, o que o impossibilitou de falar com Shabana, a recepcionista dos cabelos uva. Talvez como conseqüência do que havia ocorrido horas atrás, quando sentou-se numa mesa no Hipodrome, reuniu sua papelada e começou a preencher formulários de viagem. Os campos eram pequenos e a mão já tremia leve e ritmicamente, o que o levou a lembrar-se, irônico, do compasso contínuo de caixa e contratempo do disco de bop que havia comprado na noite anterior, e que havia-se tornado necessário em sua vasta coleção de jazz uma semana atrás, quando, na casa de uma mulher que ele vinha trabalhando há um mês, foram comer uma pizza pouco inédita de um restaurante que havia sido inaugurado há dois meses, com base no mesmo princípio de gerência do chef argelino, famoso, que tinha imigrado para o país há dez anos, após se formar profissional numa escola gastronômica secular do norte da África, especializada em pratos mezzo-africanos – mezzo ítalo-calvinos. Alguma coisa precisava trazê-lo de volta ao presente, já que a simples constatação da mão trêmula o fazia revirar os olhos, aturdido pela onda anacrônica de um simples e inofensivo cigarro.

Foi a menina do SolidariedAids. Henry esteve bebendo desde antes de sair de casa com a papelada, nu, enquanto fumava um Montecristo ao som do tal disco de bop. Ao chegar ao bar, já estava meio alto e preferiu não viajar muito na ideia do que faria ao chegar à África sem um tostão sequer no bolso; apenas com a vontade de escrever sabia lá sobre o quê. A menina então se aproxima, põe um ridículo adesivo de arrecadação de centavos sobre a mesa, e Henry Lee, já bêbado, é obrigado a perceber que ainda estava em Subamerica. Essas demonstrações pequenas de realidade eram terríveis para ele. Ainda mais de dia, quando cada buraco no asfalto e cada menino de rua tornavam inegáveis as circunstâncias.

A mulher então põe o adesivo ali.
O adesivo. Ali. Henry finge ser estrangeiro e lança um “sorry, I don’t speak your language, but, anyway, I don’t really give a FUCK about guys who end up having sex with dirty people. But anyway, I, myself, have screwed a bitch uglier than you just yesterday and, look at me! I’m not fucking sick!” O azar de Henry foi que a cadela era estudante de artes cênicas, diferente da maioria dos pedintes profissionais, e falava FUCKING English. Henry então teve um insight sobre globalização e desenrolou um discurso sobre Igreja, Corão, clitóris, roupas pesadas, minha língua na sua, aqui, agora e, quando viu, a menina estava gritando enquanto ele apertava os seios e subia as saias indianas no meio do corredor principal do lugar. Henry Lee passou dos limites e foi punido com cerveja nos olhos. Mas teve certeza, logo depois, que uma mão bem tinha pegado em seu pau em ereção sob as calças quando percebeu a mulher apertando os olhos e fazendo um “sssssssss” aspirado, em seus braços. O homem era bonito, afinal de contas.

A cerveja milagrosamente por pouco não havia molhado seus coloridos formulários; foi a constatação que ele procurou fazer assim que o líquido o cegou e os adesivos do SolidariedAids se espalharam pelo chão. Ainda seria possível alcançar a embaixada a tempo. Ainda lhe sobravam algumas horas até lá, inclusive. Tratou de encher a cara, logo após uma rápida visita branca à cabine da direita no banheiro masculino. Tudo parecia bem. Os garçons, afinal, haviam perdoado a inconveniência do cliente, mediante um olhar que declarava que a conta, obrigatoriamente absurdamente roubada do Hipodrome, não seria contestada desta vez.

Eu, por outro lado, estava sentado em uma grande, velha e confortável poltrona, de olhos fechados, fumando um Camel, no meio-termo entre o sono e a vigília. O ambiente era uma sala grande, velha e escura. As luzes estavam apagadas e a penumbra era o resultado da claridade da Main Via-Traffic, somada à música de fundo que vinha de um álbum de new age. Numa poltrona em frente, a uns quatro metros, um professor da Ordem e inegável alma gêmea. Eu havia deixado minha bisavó judia deitada em um sofá ao lado, encostado à parede, pois ela estava com um certo sono. Ali, refastelado, eu sonhava com áreas de serviço, halls de entrada e escadas de emergência cinza de prédios antigos, familiares e baratos. Sonhava procurando me conformar com as limitadas possibilidades financeiras de um recém-formado. No sonho, Clara descia as escadas e discutíamos assuntos pesados na presença de uma terceira pessoa. Alguma menina da Ordem, cuja existência só se justificava ali por minha necessidade real de coadjuvantes, de platéia, nessas situações.

Clara então lança um olhar de inimiga e diz: “pelo menos eu tenho amigos. Ao contrário de outras pessoas que passam o tempo todo se fazendo de simpáticas e vivem rodeadas de inimizade”. O assunto teria surgido por alguma causa relativa à formatura. Continuo a sonhar com interiores antigos de Via-Traffic e tento combater a sensação de escuro pensando em derrubar paredes e unir ambientes. É inútil, mas tento suavizar o pé-direito alto com música new age. Mas o disco acaba e volto à realidade. Uma sensação de fim de festa se atira em minha cara no momento em que a penumbra deixa entrever a ponta do cigarro do mestre fosforecendo em uma longa tragada. Silenciosa, no escuro, nostálgica. Respiro mais fundo e, no breu, fungada é frase.

Ele diz “independente disso...”, num tom um tanto afoito de quem se afetaria com nossa ausência. Minha e de minha bisavó. Levanto-me e vou até o sofá. O professor me acompanha e decido acordá-la. Pouso as mãos sobre seus ombros e ela me diz: “estou com fome”. Sorrio atencioso e jogo a perna esquerda por sobre o corpo deitado, montando-a como uma criança faria. Sem fazer peso. Dou um beijo em sua bochecha e simpatizo com o cheiro. Esfrego as faces e começo a morder e chupar seu pescoço, pensando no ambiente rosa-velho do apartamento da rua Velha Colombia, no prédio do pequeno elevador pantográfico. Uma construção da mesma linha de montagem dos velhos escritórios das ruas escondidas cinza e rosa do Centro de Underdogsville. Uma construção feita para guardar documentos amarelos, rosa e Getúlios Vargas.

Mordo o pescoço e sinto que fiz contato. Ela desliza a mão pelo meu peito e acaricia meu pau duro sob a calça de linho amarela. Sua voz de ex-namorada – surpreendentemente a voz era definitivamente idêntica à de uma certa ex-namorada – me pergunta: “ai, você está querendo me seduzir?” Respondo com um a-hã afirmativo e proponho: “que tal voltarmos para casa agora? Você está com fome? No caminho eu olho se há alguém na rua, algum lugar aberto. Se tiver, eu como pela gente e subo.”

Nesse momento, os comentários de Clara deixam de ressoar em minha cabeça, o professor acende a luz e o ambiente não se revela. Talvez porque já tenha significado tudo o que podia, dada a antigüidade da data de construção do prédio. Tudo já havia sido sugado. A sala toma uma cor indescritível. Talvez apenas por som: “New Star in The Sky”, do Air.

A mão de minha bisavó judia desempenha todo seu potencial e tenho uma polução noturna tão encorpada que acordo pensando ter me urinado. O cheiro do sêmen dança ainda pelo ambiente e percebo a ligação cósmica com oito gerações de minha família no ar. Agora sei que somos todos uma só massa de geleca rumando em direção à aurora boreal dos tempos, rumo à última, fatal e acolhedora explosão laranja do sol.

Preciso voltar a dormir agora. Afinal de contas, amanhã não tenho nada a fazer e preciso de tempo para isso. Preciso levar tudo o que há em mim para a cama. Preciso descansar, desligar a cabeça e parar por um segundo; ou amanhã eu acordo sem nada. Preciso me disciplinar. Um homem tem várias personalidades e todas elas vão para a cama ao mesmo tempo. É a única coisa em comum entre as várias facetas. O ponto de ordem; a convergência. Durmo durante algumas horas, pesadamente, sem acordar uma só vez para fumar um cigarro, como é costume.
Meu quarto é uma câmara de fumaça e há livros e discos e roupas e maços de cigarro vazios jogados por todos os lados. Uma cena. Paguei uma grana para um técnico infeliz - todo técnico é infeliz, na essência - ir consertar meu computador. Fodessem-se os chats de internet. Eu queria apenas poder escrever meus textos e enviar para mim mesmo. Nos últimos meses, desenvolvi um método segundo o qual eu escrevo direto na mensagem de correio, sem parágrafo, sem revisão, e mando para mim mesmo. Enquanto a mensagem sai e volta para minha caixa do Outlook, eu me levanto, dou uma mijada e pego uma cerveja. Me dá a falsa impressão de que vou ler um texto que alguém está me mandando. Por não ser meu, posso julgar sem medo e não posso mudá-lo. Tenho que respeitar o autor - e eu respeito autores. Aliás, que autor impressionante é esse que me manda textos.

Meu deus, eu leio aqueles espasmos chegando pelo correio e fico muito impressionado com a crueza e a energia e a falta de preocupação com o que quer que seja daquele homem que me manda textos exatamente quando me sento com uma cerveja na mão. Mas eu já não conseguia escrever como gosto, já que meu computador estava quebrado. E o técnico infeliz veio, mexeu em tudo, levou o dinheiro e não consertou a máquina da maneira certa. Meu deus, isso foi no sábado – quando eu me sentei com uma cerveja na mão e comecei a tentar mexer ali. Passei a tarde inteira tendo que recomeçar, enviar mensagens antes de acabá-las, esperar para lê-las, esperar para escrever mais. Fui ficando com raiva e - obviamente - fui ficando bêbado. Muito bêbado. Completamente bêbado. Porcamente bêbado.

Estava quente como a caldeirinha do diabo e eu suava cerveja. Eu estava melado de suor e já babava os primeiros goles de cada lata. Além disso, eu estava bêbado - eu já disse isso, mas digo para salientar que a bebedeira só aumentava minha fúria e me trazia à mente todos os problemas que andam me destruindo nos últimos dias. E, como estava quente e eu estava bebendo há algumas horas, ali, só de cueca, formou-se abaixo do meu peito uma barriga tão grande e redonda - e eu não estou exagerando - que o espaço entre meus pêlos dobrou de extensão. Bêbado, melado, suado, babado, com um cigarro na boca, escrevendo sobre o nada, chegando a lugar nenhum. Mas eu queria poder escrever e estava tentando. Tem dias que não adianta, e eu sei aceitar isso. Mas é preciso tentar. Sempre.

Henry está lá, como eu, tentando, revoltado até o útero, quando seu padrasto aparece e começa a fazer perguntas imbecis sobre o conserto do aparelho. Ficam as três primeiras perguntas no ar, sem resposta, até que o sangue lhe sobe à cabeça e começa a desfiar um discurso sobre todas as coisas do mundo e sobre como tudo tinha que partir dele para ter uma solução – falando sobre tudo no mundo, menos sobre especificamente o computador ou ao menos sobre Interconsciência.

O homem ouve cheio de incompreensão, até que aperta os olhos e pergunta “você está sóbrio... para dizer essas bobagens todas?”. Estou, porra. Todas aquelas latas espalhadas pelo chão, pela mesa, em cima da máquina, maços de cigarros vazios, latas dentro da impressora. Ele quase põe a mão no meu ombro, mas desiste - e nesse exato momento, eu saco que, caso ele encostasse em mim, eu me levantaria da cadeira, cigarrinho no canto da boca, barrigão de cerveja, e daria um soco na cara dele, gritando "não fode!" e segurando a cueca, para não deixar tudo cair. Mas ele desiste e sai. Eu fico falando alto, sozinho, apontando com o cigarro, tudo o que eu queria dizer ao técnico infeliz. Mais ou menos assim: "boa noite! seu nome é Benvindo, certo? Boa noite! Você esteve na minha casa, aqui em Underbroadway, eu paguei você, e você não fez o serviço como deveria fa...como assim qual é o defeito?! Eu não vou dizer qual é o defeito! VOCÊ é o profissssional, não é? Então você tem três opções: vir aqui DE GRAÇA e consertar a porra do meu computador; vir aqui AMANHÃ e devolver o dinheiro; ou sofrer as conseqüências legais da sua falta de competê... é isso mesmo! Incompetente! Olha, EU não vou discutir com você... no telefone. Eu me recuso! No telefone, não! Eu sou um jornalista, porra! E você é um técnico de computadores! Eu sei fazer o meu trabalho. Faça o seu. Boa noite! É amanhã, hein, porra!"

Eu queria dizer isso ao telefone para ele. Mas só percebo que o homem não está ali quando acabo de falar para a parede e a cinza do cigarro cai na planta do meu pé. Aí eu nem me sinto ridículo. Me sinto vingado.

Muito bem: em exatamente uma hora, dou uma daquelas solenes cagadas de chope que te esvaziam por dentro, entro num banho frio como um alemão na sala de cirurgia, faço a barba cuidadosamente, mas me machuco um pouco, me enfio numa roupa bonita, me perfumo, e é como se o filme tivesse feito uma elipse. Sou outra pessoa. Saio de carona com amigos para uma festa, levando embaixo do braço uma garrafa de Grant`s. A noite estava ganha. Amigos e tudo aquilo que acontece em festas garantiam minhas próximas horas.

Chego ao lugar que ferve de gente jovem e velha, basicamente jornalistas, e o que há no ar é o clima da mais pura, densa e colorida sedução - me sinto assim. Wow, era o álcool ou eu emanava mel? Sim, porque, digamos... – quem estava lá, sabe – eu despertei uma certa atenção. Vamos resumir a festa, dizendo que não foi difícil - e foi ótimo - sacudir - minha Subamerica - uma mulher que há muito tempo me fazia cogitar (maneira elegante de dizer "estremecer de tesão"). Ela me falava sobre como andava triste e sem vontade de conhecer gente nova, desde que seu último amor foi morto num acidente de automóvel. Eu realmente senti o peso daquilo e me lembrei de todas as vezes em que, por Deus, eu desejei que pessoas morressem embaixo de carros e aquilo nunca acontecera. Aí foi simples: foi só inverter a equação. Era duro para ela. Conversamos durante alguns minutos, logo após ela me salvar de uma conversa chatérrima com Leão, um maníaco-depressivo da Ordem.

O cara me ocupava e impossibilitava que eu fizesse qualquer coisa a respeito de uma outra pessoa, em quem eu estava verdadeiramente interessado. Ora, dentre aquela dúzia de mulheres fantásticas, eu havia eleito uma. Eu deveria agora conseguir. Mas Leão não deixava. Até que esta, a do namorado atropelado, me puxa: “Vamos pegar mais gelo?”, e me conta sobre tudo. Questão de minutos até estarmos nos mordendo e chupando e nos arrastando para os fundos da cozinha, sacando perfeitamente onde aquilo daria. E tranqüilos com o fato. Ela enfim havia desencantado da desgraça e eu havia decidido ajudar. Talvez tenhamos chamado a atenção, mas valeu a pena – realmente valeu a pena – principalmente porque tudo começou durante um assunto que eu travava com Mark sobre como estranhamente as coisas estavam dando certo para mim, nesse sentido. Wow, era o álcool ou eu realmente visitei aquele lavabo acompanhado? Oquei, eu às vezes fico meio infantil.

Muito bem: ela ida embora, decido aproveitar minha maré de sorte e fazer a outra circunstante a lúdica questão: "a gente ainda se come um dia, certo?". Tapa na cara? Olhar de incompreensão? Não. "Você é louco... mas isso já era pra ter acontecido, inclusive". É, não era o álcool. Não aconteceu nada com esta, porque um cara - muito simpático, aliás - estava trabalhando no terreno a noite inteira e eu não ia querer estragar isso. Preferi me sentar na roda que fumava um tabaco egípcio misturado com maçã num narguilé azul, turco, de cerca de um metro de altura. Tudo muito exótico - a garota, esta última, era filha de libaneses, inclusive - e parecia uma sherazade de maçã e canela. Me sento e fumo, conversando sobre a experiência do pai do anfitrião como embaixador no Cairo. Até que Leão – o maníaco conhecido, o "eu sinto meu cérebro congelar quando não tomo meus remédios", o cheiro de morte que anda, o constrangedor, o que bolina todas as mulheres - enfim, até que o Leão... decide que me quer ali mesmo.

O homem se senta ao meu lado, passa o braço por trás da minha cabeça, frio e silencioso como uma cobra, agarra meu pescoço do outro lado, puxa minha cabeça em sua direção e diz "vem cá... dá um beijo aqui" com o rosto inclinado e a boca entreaberta, deixando entrever os dentes escuros e a língua sei-lá-o-quê. O homem tentou me beijar à força às 7 da manhã. Todo mundo esperava minha reação, que foi apenas "acho que não, cara. Toma um cigarro". A libanesa me olhou com cara de "não estou acreditando", eu sorri com cara de "este é meu mundo, e ele vai engolir você" e puxei o bocal do narguilé para mim. A roda voltou a conversar sobre o Cairo.

Outro dia acordei nu, morrendo de sono, acendi um cigarro ainda deitado, me levantei, puxei as calças até os joelhos - não tenho usado cuecas, a não ser quando são só elas e mais nada - me desequilibrei, bati a cabeça no armário e desmaiei. Assim. Klunk. Achei que isso não acontecia jamais a pessoas novas. Acordei pouco depois, nu, no chão, com as calças nos joelhos e a faxineira me dando tapinhas na cara. Não achei o cigarro. Talvez eu o tenha engolido. Disse "valeu, amiga", terminei de subir as calças, enfiei uma camisa, acendi outro cigarro e saí para o jornal. Assim. Hoje fui receber uma notícia ruim com uma caneta na mão e, com a pressão dos dedos, esmigalhei a coisa em mil pedaços. Sem sentir. Cinema. Foi impossível dizer a ele que por mim estava tudo bem. Não está tudo bem. Não está tudo bem, mas eu não estou nem aí, porque, afinal, foda-se. É, afinal foda-se. Não estou nem aí e talvez eu nem volte mais. Desejem-me sorte. "langolango", faz o homem sem cuecas. Langolangoyeeeeah!

Os dias se passavam próximos demais à normalidade. Decido então fazer uma breve viagem, devidamente munido de tudo o que eu poderia precisar: chocolate, cigarros, discos, dois livros, seringas, duas camisas, uma calça, nenhuma cueca. Algum dinheiro, três baseados previamente apertados e com metade da seda reforçada, como havia aprendido certa vez, nenhum remédio. Paguei o ônibus e peguei a estrada. O fato é que eu andava de loja em loja especializada, procurando um autorama super moderno, em que os carros deviam ter uns 30 centímetros de altura e eram todos pontiagudos, japoneses-replicantes talvez. Era de noite, mas as lojas estavam abertas. Não, eu não estava em Underdogsville. Eu estava em Carbon Sampa-Ciudad del Este; e as lojas por lá estão sempre abertas e cheias de coreanos. Aqui não tem... Aqui não tem... Aqui não tem... Aqui não tem... o fato é que estava difícil encontrar. Desisto por um momento e vou correndo de camiseta branca para minha aula de water-future-polo-natation-bythewaterball. Era tipo um waterpolo, eu presumo, mas tinha um sei lá o quê de futuro, como aliás tudo o mais em volta, desde as luzes de Carbon-Ciudad até as roupas clean das pessoas - no futuro, as pessoas eram clean.

Sem dúvida que aquilo não era senão daqui a uns dez anos, muito embora eu tivesse apenas 24 e todos tivessem a mesma idade que têm hoje. Minha aula era no 2001, uma espécie de clube estranho que eu acabava de descobrir - não entendi até agora como eu posso ter acabado de descobrir um lugar ao qual eu já ia regularmente, mas o fato é que foi assim que ficou quando eu voltei - e onde eu deveria encontrar várias pessoas que todo mundo conhece. Lucas, Mark, Nögde, Nacib e Keef faziam aula comigo e já deviam estar lá - e nada de eu encontrar o autofuturama. Mas eu chego ao 2001 e não sei se mato a primeira aula. Chego e descubro que o fetiche do dono do 2001 - um clube fechado mesmo, todo azul, cheio de vidros foscos do futuro, com piscinas e com uma névoa eterna de sauna pairando no ar e passando e alisando os botões sem-propósito das paredes cor-de-tubarão que woooooooooow, as paredes eram da mesma família de cor de todo o resto, meu deus!

Entro de camisa azul e descubro o autofuturama que era o fetiche do careca de terno dono do 2001 - e "2001" era uma referência saudosa que o Lex Luthor do meu sonho fazia a um ano que lhe trouxe muitas coisas legais e foi o mesmo ano que muita coisa definitiva aconteceu a Lex Luthor na vida real, ali no meu sonho – e fico simplesmente maravilhado com o dinamismo e a beleza do futurautoferrofumaçorama do cara e pergunto se posso. Ele diz que ainda não. Com reverb, claro. Vindo de encontro ao vidro fosco - de longe, óbvio - e ele sabe que vai ter que desviar quando chegar - vem Bertrand Arcanjo, um repórter cabeludo de caderno cultural que é sobrinho de um autor de novelas; com cara de assistente do Lex Luthor, ele vem. Corta para eu babando em cima do autofuturamaluthor que corria e zunia por todo o perímetro do 2001 - zzzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmm - e os carros nunca jamais bobeavam e corriam numa velocidade tão perfeita que se o prefeito do 2001 fosse o de Underdogsville, ele ia proibir o esporte como se proíbe um Circo Voador - sem pestanejar.

E os carros iam simplesmente ali por baixo, voando rente - scrrrrrrrrrinheeeeeeeeeeeeeezzzzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmm.................wow, eu quero um autofuturama pra mim, man!!!!! Corrrrrrrta pro inevitável fim de mais uma aula de watersuplapolosmokafuturemanhood e eu saio com todo o pessoal que já citei - os da irmandade - para uma espécie de bonboniére, patissérie, delicatessen – isso, exatamente - na esquina. Todos de camiseta branca, como os jogadores de watersupla usavam no futuro - em referência a Carruagens de Fogo, de 1920, eu acho, em que a luz era mais amarela - diferente do blueshark2001- como o amarelo da delicatessen. Nögde senta-se em uma cadeira em frente ao caixa e me mostra o quanto curte a Kátia Chackra - professora da Ordem - é, eu também não acreditei quando ele falou - e ela está na fila para comprar um sonho de doce-de-leite.

E Lucas dá uma risada alta que quase me acorda e segura o pinto junto com Nacib que está segurando o pinto desde o início do sonho, o que faz Mark olhar de vez em quando e pensar "porra, tiramãodaí" e Keef nem se liga, comendo sonhos de doce-de-leite. Eu? Eu só assisto à cena e penso muito no suplorama azul que zzzzzzzzziiiiiiiiimmmmmmmmmairrghhhhhhhhh pelo 2001 e só o Luthor pode brincar. Compro meu sonho de doce-de-leite e todo mundo, inclusive eu, conversa sobre como tudo passou rápido desde a Ordem e o futuro é mesmo jogar watersupla - um jogo que permite que você use o máximo do humor e das sacadas únicas na hora de montar sua estratégia e basta olhar - caso sua equipe esteja bem-treinada - um para o outro e o cara já saca de uma piada do início do curso na Ordem e percebe que você vai jogar a ball para a esquerda e dubla a jogada de volta para o rebatedor.

O suploautowatersport é a festa das referências e até uma música da Gal-Roberto-Carlos-Rei entra na hora de se montar um contra-ataque. Você lança “meu bem, meu beeeeeem, sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo” e o outro time não está a par do que vocês combinaram lá nos anos 80, assistindo a humorísticos na TV e um ou outro lendo Nietzsche e intimidando o adversário com uma barba rabínica - cultura dá medo no futuro - todos os outros jogam o watersharkorama por instinto e jamais prevêem um contra-ataque regido por Nietzsche - aliás, as palavras no futuro são sons, apenas. A gente vai ganhar até a Taça Universal do Reino de Deus, já que os crentes têm medo de contra-ataque e a gente não se deixa abater por “paz de cristo” nenhuma. Yeah!!!!!!!!!

Estamos nesse auge na delicatessen quando vejo - definitivamente eu sei que é exatamente ela – a hipercolunável Constance Bassik!!!!!!!!!!!!! É a primeira vez que penso nela e ela me olha de volta e faz cara de surpresa e me lança o olhar mais erótico que eu já tive notícia na vida - e aquilo ia definitivamente virar uma esquete erótica. Eu sorrio e ela me faz pensar sobre o que é um orgasmo só pelo fato de me olhar - e ai, àquela altura, eu já sabia muito bem o que era comer gente famosa - e eu simplesmente sorrio. Ela chega mais perto: “De onde eu te conheço????” ela pergunta. Eu digo: “Da Ordem”.

Ela então só me observa e fica perguntando várias vezes “tudo bem”, eu de camiseta branca de atleta do suplosport, numa mistura de água e suor, cheirando a piscina, olhinho meio ardendinho de cloro e névoa - e ela me dá uma mordidinha no ombro - aiiiiiiiiii....delícia, ali, na Delicatessen, os outros olhando achando que já estava rolando uma coisa entre a gente há muito tempo.... mas não.... ela fala “oi” de novo.... me chama para conhecer de novo a loja de sapatos dela e me morde de novo..... muito louco – intensamente - mesmo. Todo mundo ali, debatendo suplowaterconstanceballoautosaunoramapolo e eu só levando as mordidinhas no ombro - coisa mais bossa nova, saca?

Ela até chega a me dar um beijo na bochecha, mas o autofuturama só faz zunir pelo 2001 e se podem ouvir os carros brincando de Deus entre as piscinas e as pessoas aleeeeeeegres com aquilo. Eu só sei que eu voltei pensando que o cabelo de Constance estava mais preto do que eu me lembrava - é estranho quando você fica defasado em relação a uma pessoa - e que a gente ia com certeza levar a Taça Universal do Reino de Deus-é-dez no suplo. Preciso ainda de cinco segundos deitado para cogitar que parte daquilo tudo havia acontecido e refutar qualquer coisa que fosse. Por onde eu andei todo esse tempo durante o qual o segundo sentido das coisas não se faziam tão presentes? Definitivamente eu precisava de drogas. Voltei a dormir. E, talvez, pela primeira vez na vida, a acordar, portanto, embalado pelo doce trompete cool de Baker e a gélida e monocórdica vocalização de Dr. Salieri.

O fato é que eu vi a Grande Virada de Mesa. Eu vi o coelhinho sacudindo o coiote e dei um urro de iiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaa! enquanto a presa virava o abuuuuuuutre da conspiração. Yeah, a savana é meu cenário e eu te trouxe até a sombra para você não poder me enxergar afiando as unhas. Ruge, ruge, ruge que eu faço meu som de coelhinho cenoura e Montypithonianamente vôo – eu efetivamente vôo - sobre Adis Abeba até o seu pescoço. Vida, acabou pra você enquanto mundo cruel. A savana é meu cenário. Sentado em frente à máquina, lendo um texto do Lucas e ouvindo Nina Simone se esgoelar no tom em sua "Sinnerman", eu emito urros loucos de uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuaaaaaaa! e sacudo a cabeça de um lado para o outro, como um punk alucinado que tem na mão uma cerveja e dentro das calças a ereção do show de sexta-feira à noite. Sagrado, grande e iluminado. Yeeeeeeeeeeeeeeah! uuuuuuuuuuuuuuaaaaaaaa! Vai! Vai! Vai! como eu disse outra vez a Chico em outra parte do planeta. Eu SEI que tudo é isso - um grito de uuuuuuuuaaaaa para a vida e um grande grito de yeeeeeeeeeeeeeaaaaaah para as noites que eu não dormi esta semana, me enroscando com ela.

A Grande Virada de Mesa na vida horizontal. Conteúdo é o que há de mais sagrado dentro da forma que é facílima de repetir. Virada horizontal. A da vida vertical eu viro correndo de um lado para outro, dando furos de reportagem a torto e não, e fumando dezcigarrettes-Poison-Ivy-Yeeeee-pooisoonIvy-yeah-yeah-yeah e sim, falando pelos cotovelos e correndo de um lado para outro, sem intervalo, saltando dos taxicabs e cumprimentando todo mundo que vai levando e curtindo – encontrando amigos que feeeeeeeeervem por dentro e se referem às suas próprias salvações de maneira perfeita e que até se parecem muito com a minha própria versão pessoal de me salva disso que é o buraco negro de não ter você - salva ele - salva ele - salva ele - eu tô aprendendo a nadar e já é esforço muito grande demonstrar o crown perfeito quando as ondas te carregam e você quer gritar porque as ondas te carregam - e gritar de alegria, bem entendido. Uuuuuuuuuuuuuuaaaaaaaaaaaa, Nina Simone! E um uuuuuuuuuuuuaaaaaaa, Jade Ostrower! Uuuuuuuuaaaaa, Allen Ginsberg! uuuuuuuuuuuuuuuuaaaaaaa, Ja-ja-jack Kerouac que me ensinou - god be praised - a fazer bebop por escrito! uuuuuuuuuuaaaaaaaa, Lucas Lonely, que faz seu oraltestbrainstormbeautiful a cada enxurrada de pensamentos canábicos ou adrenalínicos! uuuuuuuuuuuuuuuaaaaaa, Lucas! uuuuuuuuuuuuuaaaaaaaa!

Eu vou construir um templo gospel naquele estilo de Nova York, cheio de negões e o papo que vai rolar vai ser a velocidade. Eu vou falar para vocês, esta noite, de como é que se corre sem precisar sair do lugar. Eu vou demonstrar para vocês, senhores, esta noite - exatamente neste momento atenção - a bicicleta ergométrica que eu tenho aqui dentro. Yeeeeeeeeeaaaaaaaaah, coitado de quem receber por transplante algum órgão meu quando eu morrer - eu já pus no papel que eu dôo órgãos e tecidos - porque esses órgãos vão bater tão forte e tão rápido dentro do transplantado que o carinha vai pedir arrego. Re-la-cio-na-men-to. Para mim, isso não existe. O que existe é a tranqüilidade de saber que você vai se fundindo com uma pessoa - perto ou longe - e tudo mais são momentos felizes ou intrinsecamente sujos. Discussões e perdas de tempo entre quem se quer são sujas. Mas cachorro-quente é sujo e você come. Então vamos aos mal-entendidos necessários, mas vamos a eles com mostarda. Yeeeeeeeeeeeeeeaaaaaah, vamos usar para assim transformar. God be praised! Tá amarrado e vai transformar!

Vai, levanta e anda, discussão. Levanta e anda, lepra da perda de tempo! Me bagunça que eu só quero o bem. Eu viro a sua mesa, lado mau. De você eu levo a pessoa que você tentou me roubar ou levo a distância feliz e tranqüila. Jade Ostrower, eu te exalto. Eu te comemoro porque você é você e eu quero que todo mundo - toooooooooodo mundo do muuuuundo inteiro - saiba que eu estou apaixonado. Por você e por tudo que se parece com você - sorvete, céu azul, Nina Simone se esgoelando em "Sinnerman", crianças brincando pelo Underbroad Shopping no sábado e sendo simpáticas com o segurança, sua bochecha enorme, minha infância, você de olhos fechados - você de olhos fechados se parece com você - o senso de humor que eu nem me arrisco a mostrar em lugares públicos, a vontade de falar durante horas, a vontade de ouvir durante horas e uuuaaaaaaa!, a minha madrugada.

A madrugada é a sua cara e eu já associo direto com você tirando a sandália anabela e mergulhando, mergulhando, mergulhando - piscianamente mergulhando – no universo que não reconhece mais o lado de fora da porta do quarto. Vai, viaja, Carbon Sampa, mergulha em Carbon Sampa - piscianamente mergulha em Carbon Sampa - e deixa uma parte maior do país saber quem é você. Eu fico vibrando e pensando que além de museus e mostras, agora tem mais coisas por ali que valem a pena se conhecer. Esta noite, aqui na igreja gospel de Saint Adrenaline, eu digo: se Carbon Sampa não tinha um parque temático, agora Ostrowerpark chegou para trazer a era de Peixes straight para dentro da Era de Aquário. E os locutores traduzindo simultaneamente, com a voz embargada-alucicrazy: Senho-ladies and Gentlemen: se Ca-if Carbon Sampa não tinh-didn`t have um-a tema-parque-tic park, ago-now Ostro-The Ostrower Park chegou para-has arrived to traz-bring the era of Pisces sssssstraight into the era of Aquariussssss! Aquaaaarius!!!!!!!

Uuuuuuuuuuuuuaaaaaaaaa, amigos mil! Oralidade é para lembrar, para comemorar, para viver, para imaginar, mas na hora agá eu insisto em concordar com o que Lucas afirma e que se parece com o que eu insisto em fazer e que eu nunca tinha – ao que me lembre – comentado com Lucas, que diz, falando para você: "é.... já que os momentos bons me fazem pensar que a vida é curta, posso pular as partes verbais e beijar você agora?" Beijabeijabeija! Zelar pelo quê, quando tudo pelo que você zelaria está gritando por uma loucura plenamente justificável? Que aconteça o que tiver que acontecer – essa é minha torcida. Que aconteça o que tiver que acontecer e que a única coisa que influa na decisão seja a vontade de ser mais feliz.

Não sei onde a história vai dar, Doutor, mas estou fervendo para depois ficar sabendo que tudo foi incrivelmente quente e elétrico e que rolaram urros de uuuuuuuuuuuuuaaaaaaaa! Por toda Underdogsville-Nihiland, desembocando em Nihiland e levando lá para longe a maravilha de estar junto com quem te ilumina para sentar e aí escrever; ou levantar e sair correndo para um mergulho no mar. E a mancha da vontade de ser feliz e partir para o mundo vai se espalhando por Carbon Sampa, por Nihiland, por Adis Abeba e Nina Simone diz "don`t you knooooooow that I need ya?" e Henry Lee Zombie deixa a câmara correndo e suando, sem tempo para tomar banho, desesperado para comprar mais cigarro e canta a melodia mais alucinada que consegue lembrar para celebrar Jade Ostrower, o fato de estar pecilotermicamente mais quente que esse verão miserável e o meio do caminho da história com a vida.

Um mantra para a explosão, que eu, sentado, abobalhado em frente à máquina, ainda coçando os olhos e assistindo a tudo como um pai que se orgulha da felicidade de sua criatura, sei que vai se dar em algum lugar do oceano, com todos que estão lendo isto olhando para pontos que, involuntariamente, vão coincidir no exato mesmo lugar. Henry sai voando de felicidade pela porta e eu digo apenas: “uuuuuuuuuuaaaaaaaaaaaa!, eu só te adoro” - para tudo que aparece e me surpreende.
God be praised. “Oh, sinnerman, where you gonna run to? Oh. Sinnerman! So I run to the river - it was boiling, I run to the sea! So I run to the Lord and the Lord said: Go to the devil, so I run to the devil and he was waiting.” O lance é correr. Não importa para onde - o importante é o vento nos cabelos.

Henry Lee simplesmente não tem capacidade para sentar e priorizar o texto, afinal de contas. O que exatamente ele pensa que vai encontrar, rebelando-se assim, no pico de uma explosão de anfetaminas, logo após a leitura do Chatzi Kaddish pelo chazan contratado por Dr. Salieri? Talvez Henry Lee seja judeu, penso pela primeira vez desde o início. Ou talvez seja apenas cínico o suficiente para zombar dos versos bíblicos e procurar o primeiro rabo de idiche mamma que puder encontrar ali mesmo, pelo meio da rua. Me lembro de quando seguíamos de taxicab por algum lugar escuro e os répteis tentavam subir pelos vidros laterais, vendendo todo tipo de coisas estragadas e tentando empurrar seus fardos horrorosos em troca de qualquer ajuda agradeço da mesma forma e Henry mostrou o pau a uma cobra loura que tinha na mão a planta de algum edifício desnecessariamente grande numa vizinhança ilhada da cidade. Aquilo me cheirou a dadaísmo.

De qualquer forma, precisei deixar também o Doutor e as drogas e tentar beber alguma coisa, comer alguém, ler alguma besteira... Ainda mais, uma vez que a explosão de Henry e seu lance com a Torá me haviam causado um flashback que demoraria horas para ser absorvido; e só o seria sob a luz do sol. Catei algumas moedas no bolso, fiz uma visita à embaixada marroquina para, agora sim, recolher minha própria papelada, e me sentei no alto do Monumento para ter uma vista de todos os caminhos pelos quais o homem, perigosamente tomado pela vida, poderia correr. Uma sensação estranha me invadiu, enquanto olhava Underdogsville daquela perspectiva. Era estranho pensar em como tudo estava contido num limite geográfico relativamente pequeno e todas aquelas tentativas individuais de se safar da massa eram inúteis, uma vez que bastava eu decidir escarrar dali do alto para a gosma cair na cabeça de quem quer que fosse e estragar o dia da pessoa. Escarrei e desci.

Tive uma tarde ótima. Como qualquer pessoa normal. Talvez pela leve reflexão lá do alto do Monumento, uma alegria quase infantil me invadia, fazendo com que eu sorrisse para todos e fizesse amigos a cada esquina. “Opa, cuidado aí”, digo para um senhor gordo que quase é atropelado – e realmente o seria, caso eu não o puxasse pelo braço. Pronto: ganho um ótimo almoço em seu restaurante, acompanhado de vinhos, charutos e um creme de papaia com licor de cassis fenomenal. Não havia com o que me preocupar, e decido visitar meus pais e ver como as coisas andam por ali. Voltei para olhar, estava tudo no mesmo lugar. Era isso o que eu mais temia.

Aquelas épocas não voltariam jamais. Eu decidi, minha história agora se voltaria toda para o futuro. Aliás, história é sempre o que ainda não dá para contar. O resto, o que já foi, vira tudo parte do personagem. A partir dali, o que me oprimiria seria o que ainda não foi inventado. Uma espécie de presaudade. A partir dali, o que me oprime – quando oprime- (agora, por exemplo) é o dia de amanhã. É o século XXI. É o sábado que vem. É o cigarro e a abstinência que vêm. A noite que vem. E as pessoas que não vêm. Principalmente.

O que me esmaga é pensar que eu era uma promessa em vários sentidos. Quem nunca foi uma promessa? Você não? Nem mesmo para você mesmo? Para você, a promessa era eu? Bem, há sempre alguém com um olhar superficial ou deslumbrado que tem certeza de que você vai dar certo – segundo o que a pessoa chama de “dar certo”. Eu ainda não dei. Amanhã, por exemplo, não vai dar tempo de dar certo. Vou acordar mal-dormido, vou me barbear e ter um dia cheio.

Doutor, estou com medo. Definitivamente, estou com muito medo. Curioso, interessado, mas com medo. Não por fumar como um inconseqüente, não por não dormir um terço do que meu organismo exige, não por beber e sonhar enquanto outros trabalham como formiguinhas por um futuro acolhedor e conveniente. Mas por perceber que a inocência não tem lugar na Terra de Gigantes. E a Terra de Gigantes tem uma filosofia mais pungente, fedorenta e ácida que xixi. Que passa por baixo das portas e atravessa concreto armado, perfura lage impermeabilizada, explode azulejos e esquadrias e agarra na pele mais firme que cotton lycra. Um encontro em família, uma reunião de amigos, uma sessão de Shabat, são todos encouraçados em rota de colisão. Experimente se abrir para sua avó sobre drogas ou para seu amigo sobre inveja. Sim, quem não tem? Qual o ponto disso tudo?! Você me diz. Eu apenas registro.

E o pior é que, quando eu vir o final de tudo, não vou nem poder rir. O fim já vai ter passado. Eu vou ser uma carcaça e uma dívida de casa funerária para os que não tiveram tempo de passar por mim antes do fim. Vou virar um discurso na boca de alguém que se preste a subir na minha cova de terno preto sob o calor do cemitério israelita e Baruch atah Adonai eloheinu melech haolam asher kidshanu bemitzvotav vetsivahnu lehadlink ner shel shabat! Um brinde então à obsolescência de tudo o que um dia despertou interesse em alguém. É isso que eu ganho? O que eu deixo, eu sei. Este texto, por exemplo, fica. Alguém vai dizer que eu fico na memória de alguém? Se, em vida, muita gente consegue ser infiel e me interpretar sordidamente como simplesmente um cínico, imagina quando eu não estiver por aqui para me defender!

Será que em 2010 eu estarei me matando? Será que meu universo vai ser uma TV, um emprego automático, uma esposa e algumas amantes on the rocks? Ou talvez crianças loirinhas e diariamente sacaneadas e pisadas por Potemkins humanos? Quem sabe um câncer? Um final solene, sofrido, para que todos releiam as grosserias que eu disse durante a vida e passem a falar de mim como “um homem de personalidade forte”? Vamos às opções: final rodrigueano, final sartreano, final kafkiano, final rock`n roll, final de novela, final Henry Miller, final sem adjetivo.... Acho que é esse. Final. Preciso então garantir que alguma coisa venha comigo quando eu não puder ir mais a lugar algum e decidir apenas sumir. Preciso descobrir minhas vítimas e minha bagagem de mão. Porque eu sei que no que depender de quem está interessado apenas em ocupar espaços vagos, eu não embarco e fico na estação, dando adeus à vida.

Eu preciso é de pessoas diferentes, especiais. Preciso encontrar a Maravilha. Com M maiúsculo. Estou apenas esperando Deus mostrar a cara. Estou procurando em todas as coisas e lugares. Enquanto isso não acontece, apenas saio por aí; perdendo o sono e ganhando a noite. Da maneira que for. Pessoas especiais. Que não negociem suas belezas. Que não se façam de gostosas. Que não dêem margem a especulações sobre algo que todo mundo tem e que normalmente se chama sexo. Sexo e suas variantes, obviamente – beijo, abraço, simplicidade, abstração, liberdade, deus, roupa sem combinar, cabelo despenteado e tudo bem. Até porque não são essas coisas – e o mundo precisa perceber - que compõem as pessoas especiais. O que compõe uma pessoa especial é a leveza diante do tabu - uma variação do "grace under pressure" que os americanos tanto curtem.

E sem essa de que todo mundo é especial. Não é. Tem gente mais ordinária que sono depois das três da manhã. Isso, todo mundo tem e não há nada de especial aí. O fato é que, de ontem para hoje, nem deu tempo de tirar a roupa e já votei, cumpri oito horas de jornal e estive - em graus bem diferentes de intimidade - com duas pessoas. Ah, sim! Ainda deu tempo de comer sushi, de tomar umas doses ótimas de Red Label, de passear para cima e para baixo de taxicab e de gastar - assim, fazendo a conta por baixo - uns cem valores. Tudo como deve ser. Estou me tornando uma pessoa rodada e é por isso que eu cito isso tudo. Eu tenho visto, ouvido e vivido. E o que eu tenho visto não é nada animador. Que gente desinteressante, quero dizer. Raríssimas são as exceções - como a criatura de ontem - que sabem fechar os olhos e abrir as pernas junto com o coração, tudo na hora certa. Tudo tem seu tempo e há partes do corpo humano que, se não vêm em conjunto, não servem para muita coisa. E que combinação era aquela!

Um rosto absoluta e definitivamente de criança encaixado num corpo que define o conceito de mulher gostosa. A moda ainda precisa evoluir muito, porque foi uma surpresa. Foi só quando eu tirei a calça da mulher que pude perceber o que eu tinha levado para a cama do motel. Não sei quanto ao resto do mundo, mas eu moraria num motel tranqüilamente. Adoro. Mas isso foi ontem e, de ontem para hoje, eu já dormi cinco boas horas e acordei esperando mais informações. Vamos a hoje. Esse é o ponto a ser mantido. A japonesa que conheci ontem (não confundir com o que já foi citado) no máximo dos acasos veio hoje durante um encontro real com umas histórias ótimas. Boas demais para ela. Provavelmente mentiras de uma cabeça de 19 anos, cabelos escorridos de japonesa e pouquíssimo conteúdo palpável.

Nos encontramos na saída do jornal, em uma praça de alimentação de um shopping center. Eu esperava por ela durante uns cinco minutos, até que ela chega bem menos interessante do que eu imaginava. Vale dizer que eu esperava Buda, o que significa que, na realidade, ela nem era ruim. Era uma delícia, na verdade, mas tinha a cara larga demais. Me deu agonia. Eu até olhava com aqueles olhos vesgos de quem tenta ver figuras naqueles desenhos 3D... tudo para tentar me habituar – aliás, esse lance de 3D é mentira e todo mundo que diz que consegue ver merece morrer lentamente. Enfim, eu tentava de todo jeito me acostumar com a cara dela, mas sempre era mal-sucedido, já que, ineditamente, o shopping estava – não sei como – cheio de japonesas, o que me forçava a comparação entre elas. E a minha japonesa da cara larga perdia quase sempre.

Talvez essa massa oriental seja o seguinte: hoje é dia de eleições para prefeito, e de repente Underdogsville se enche de japoneses. Carbon Sampa é SEMPRE cheia de japoneses. Isso me leva a concluir que todos os japoneses têm domicílio eleitoral em Underdogsville, mas estão tentando ganhar a vida em Carbon Sampa. Quando tem eleições, eles vêm todos, em caravana, num ônibus da Viação Cometa. Itapemirim. O fato é que eu nunca vi tantos japoneses em Underdogsville quanto hoje.

Eu e a japonesa da cara larga então nos sentamos, e o primeiro assunto que surge é “encontros marcados pela internet e suas decepções inerentes”. Nada mais fácil para quebrar o gelo. Eu confesso que estava cagando solenemente para o assunto, pensando apenas se valia introduzir o assunto “beijo”, ou se o melhor era me concentrar no meu sanduíche de queijo cheddar. O sanduíche estava ótimo, e o cheiro – dos dois – competia acirradamente. Mas a cara dela era larga.... enfim, já falei. Mas estou eu todo prosa com as histórias sobre internet que conheço, quando ela saca da bolsa um cybercaso de seu próprio repertório adolescente. Pelo menos no momento pareceu interessante, com todo aquele saquê dançando no estômago.

- Eu tava conversando com esse cara, o Eduardo, que tinha o apelido de "sarado", num chat desses. Ele falava toda hora de musculação, ele fazia aeróbica, tinha uma loja de anabolizantes, dizia que adorava malhar... que era todo bombado, mas era gostoso... e nunca perguntava como eu era. Pô, um cara desses sempre está preocupado com como a outra pessoa é. Ele tinha que ter me perguntado logo como eu era. Eu normalmente nem digo, mas...

Bla, bla, bla.
Eu estava cagando. E ela, olhando para o teto e falando sem parar.

- Eu nunca digo como eu sou, porque eu acho que isso não é importante. Quer dizer, é importante, mas, quando alguém pergunta logo como você é, essa pessoa já está pensando em transar... sei lá.... eu sou uma pessoa que eu não penso nessas coisas quando saio com alguém. Eu quero ver o que rola. Entendeu? Se você fala pra mim “olha, a minha intenção é essa, essa e essa” (gesticula com as mãos, utilizando elementos da mesa de forma didática) e eu não curto, (pausa; mão no peito) eu vou te dizer logo que eu não sou assim, né? Vê se eu vou já sair pensando no que eu vou encontrar? Eu não gosto de me decepcionar. Pois é. Aí a gente terminou de conversar, trocou mails e ficamos nos correspondendo durante um tempo. Uns três meses. Ele me fazia uns questionários estranhos e tal, até que um dia ele sugeriu da gente conversar por telefone. Eu achei uma boa ideia. Sabe? Era a primeira vez que eu conhecia alguém pela internet.

Grandes merdas. Ela continuava.

- A gente se falou por telefone... umas três vezes. Na última, ele falou: “o que você acha de eu ir aí AGORA?”. Eu tinha mesmo que ir para o inglês, e disse “tudo bem”. Aí eu desci dez minutos antes da hora do curso e ele apareceu. Cara, quando eu vi, eu não acreditei! Eu não sei se a mãe dele fez alguma coisa para ele ter nascido daquele jeito... Não sei se era genético... mas ele era muito estranho.

- Estranho como, mulher?

- Ele tinha uma cabeça MUITO grande. Enorme. Desproporcional. Realmente ele era muito forte, mas ele era MUITO forte. Os braços não combinavam com o tronco, que não combinava com as pernas, que não combinavam com a cabeça... Era tudo enorme e muito desproporcional. E ele ainda tinha um cabelo duro.... Com um corte asa-delta... Aí eu vi a figura e resolvi ser simpática, mas ele ficava insistindo em me levar de carona para o curso. Cara, o curso era a cinco minutos da minha casa e estava mais perto do que o carro dele. Sinistro. Bom, mas eu topei. Fiquei com medo da cabeça dele. Era muito grande mesmo. A gente andou muito, e eu morrendo de vergonha dele, todo troncudinho, da minha altura (1,58), com aquela massa toda e tal. Até que eu entendi que, na verdade, ele queria me mostrar o carro dele. Era um Honda novíssimo. Ai, não acreditei. Achei muito escroto ele querer tirar onda com o carro. Ai, odeio esses carinhas que tiram onda.

- Tá, mas e aí?

- Aí, quando eu entrei, o carro era cheio de adesivos japoneses. Tinha umas coisas escritas em japonês, uns adesivos escritos “I love japanese girls” e tal. Muito estranho. E o cheiro? Ele ligou o ar-condicionado e fechou a janela. Cara, era um cheiro muito estranho! Sei lá... de guardado... de remédio... ele estava suando um pouco porque a gente andou, né? O suor dele tinha um cheiro muito esquisito e eu tava quase morrendo naquele carro fechado. Ai! Aí ele me deixou no inglês, não rolou nada. Ele depois até me mandou um mail, mas eu respondi friamente...

- Por causa da cabeça, óbvio.

- Cara, nem foi. Juro.

- Ah, vai! Até parece.

- Não foi. Eu achei o negócio dos adesivos muito esquisito. Bom, mas aí eu nunca mais ouvi falar dele, até que um outro dia eu estava num chat e entrou um “Dudu Sarado”. Aí veio uma menina e escreveu fora do reservado – para todo mundo ler – “Aí, gente! Esse Dudu Sarado tem uma cabeça enorme! Sério! Não encontrem com ele!”. Bom, eu já estava achando que era o mesmo cara desde que eu entrei no chat, mas, quando ela disse isso... Ainda mais que o cara desconectou na hora... Coitado. Mas a cabeça era horrorosa.

Bem, ali eu senti que a história tinha terminado e que, a partir daquele ponto, eu começaria a ouvir as filosofias de vida da menina. Como eu já havia percebido durante a narrativa que filosofar não era o forte da criança, interrompi a respiração dela.

- Escuta, eu tô morrendo de vontade de te dar um beijo. Adorei a história, o papo tá ótimo, mas o fato é que eu quero.

- ... Não vou te falar nada.

- Hein? Não entendi.

- Ué? Não vou dizer nada. Não vou responder.

- Peraí! Isso é alguma espécie de enigma japonês? Oquei, vem cá.

Nesse ponto, me curvo para frente e apoio o braço na cadeira da mulher. Vou me adiantando para cima dela bem devagar, bem educadamente e...

- Não.

- ... Não? Tudo bem, então. Vamos continuar o assunto. Sem problema.

- Não.

- Você quer ir embora então?

- Não.

- Você quer uma lambida no nariz?

- Claro que não.

- Vou perguntar de outro jeito: se eu te der um beijo AGORA, você vai me dar um tapa?

- Pô, eu não bato nas pessoas assim. Só no meu pai.


- ...

- ...

- ...

- ...

- Não entendi.

- Eu bato nele.

- Assim? Plaft? Na cara?

- É... Cara, você não tem noção! Meu pai é um filho da puta. Ele não respeita a minha mãe... e eu sei vários podres dele.

- Aí você dá tapa na cara dele? Isso costuma ser freqüente?

- Dou. Mas dou mesmo. Ah, é foda! E quando ele bebe, ele entra numa de passar a mão em mim... sério! Ela pega no meu peito... Enfia a mão na minha calcinha... Assim... Eu bebendo água... Ele chega às vezes de pau duro... Eu tenho que gritar “Pai, eu sou sua filha!”. Ele rindo... putz... E bato MESMO. De deixar marca. Depois ele vem todo idiota, no dia seguinte, me pedir desculpa.

- ...

- ...

- ... Caramba...

Caramba. Porra, o que você diria? O que você diria à menina? Algo que ela não saiba. Ali começo a sentir um enjôo da situação toda, o cheddar deixa de fazer sentido, e eu nem sinto raiva do pai da menina. O mais estranho é que me dá uma enorme vontade de comer aquela mulher e encher a cara dela de porrada. Não sei porquê. Meu dá vontade de arregaçar aquela nipo-patricinha ali mesmo. Na mesma hora eu imagino que, durante alguns segundos, antes de bater no pai, ela deve deixar o velho se aproveitar dela, só de camiseta e calcinha. Juro que sinto exatamente isso. E tenho certeza de que é assim que acontece. Meu impulso é segurar os braços dela e chegar de bicho. Ao invés disso, olho para o relógio e proponho irmos embora. Ela aceita e passa todo o trajeto das escadas rolantes deixando no ar a dúvida sobre se queria ou não um beijo. Ela chega ao ponto de sorrir maliciosamente e, quando me aproximo, empurrar meu peito com a mão fechada. Saco.

Desisto do assunto até que, na rua, ela me pergunta se eu quero provar a Hall`s de pêssego que ela havia comprado. Eu pergunto: "a minha ou a sua?". Pronto. Aí ela se identifica. Aí, na pior situação daquela noite, no approach mais imbecil e tedioso da semana, ela se excita e lança a língua na minha boca. Eu já quase não quero mais, mas a ereção é automática.

Olha, eu já percebi uma coisa: pelo beijo, eu consigo – mas consigo DE VERDADE – sacar como a pessoa é na cama. Sem erro. Ela? Ela seria absolutamente louca, desvairada, daquele tipo que chora e tudo o mais, mas bastante inexperiente e nervosa. Selvageria sem técnica é o caos. Ela seria o caos. Eu sei que ia machucar os dois e eu ia gozar sem perceber nem curtir como deve ser. Mas enfim, paramos durante alguns minutos numa praça. O que deveria rolar de preliminares realmente rola, mas ela é adepta do “só um pouquinho, para você não perder a vontade”. Odeio isso. O mundo precisa perceber que não é assim que funciona. Se alguma coisa é ruim, não adianta ter rolado uma expectativa. Vai ser ainda pior. E se a coisa é boa, não importa quanto tempo se esperou por ela. Eu inclusive digo essas sábias palavras, mas não a convenço a pegar no meu pau por dentro da calça. Não havia jeito.

Fazemos o trajeto mais longo, enrolado e burro do mundo até a casa dela, sempre sob comentários imbecis sobre namoro, sobre o que ela ia querer fazer comigo na semana seguinte.... E, para piorar minha náusea, ainda passa um taxicab swami gritando “vai ter que casar com a menina!”. Terrível. O que você diria ao ouvir um comentário desse tipo? Pois ela diz: “ele tava elogiando a gente, né?”. Eu então respondo o óbvio: “É, claro, deve estar lindo isso aqui. Todo mundo está vendo que a gente combina em tudo.” E mão na bunda. Bem, mas que mulher para morar mal. Via-Traffic é um labirinto, é um caos, e aquela criatura deve ter vindo anexada àquela massa de concreto velho. Tudo a ver. Na hora da despedida, estou pronto a mandá-la tomar no cu, caso ela mencione um “me liga?”. Mas ela não o faz, e simplesmente dou um passo atrás. Ela diz:

- E agora?

- Agora eu NUNCA mais te peço um beijo. Você realmente acha que está se valorizando aqui, não é?

- Mas e aí? É “tchau”?

- Ou VOCÊ tenta me dar um beijo, ou é “tchau”.

- ...

- Tchau, menina. Se cuida.

Obviamente ela se lança sobre mim, se sentindo uma estrela de Hollywood, e me dá um beijo de língua que, dessa vez, EU interrompo. Interrompo, lanço um milhão de pragas com os olhos em menos de um segundo, sorrio de uma maneira tão superior e sem ligar para nada que ela logo percebe que falávamos de planos astrais diferentes, acendo um cigarro, sopro a fumaça na cara dela – ela odeia cigarros – me viro e saio sem olhar para trás. Ouço atrás de mim uma voz chorosa dizendo “Henry...”, num tom de quem ia dizer “me liga?” e sigo pela rua, tragando deliciosamente. Ainda ouço mais uns dois “Henry...”, até que a rua reverbera o som dos saltinhos anabela dos tamanquinhos 36 afastando-se para dentro do prédio. Azar o dela. Meu tempo havia acabado. Pessoas especiais são assim. Sabem que nem todo mundo é especial e merece um olhar de compreensão ou de interesse. Pessoas especiais sacam que nem todo mundo merece receber de volta os vinte valores que me emprestou para pagar o saquê. Ainda que peça por eles no fim da noite. No fim, pelo menos a menina havia pago minha viagem de volta para casa, no banco traseiro de um taxicab enorme e amarelo, além de, de qualquer forma, eu estar ali querendo mesmo um cheddar.

Por outra, eu precisava aprender a aceitar o descompasso de iluminação entre Henry e criaturas que, não bastassem terem o nível tóxico no sangue pouco acima de zero, haviam apenas acabado de alcançar a maioridade. Se eu estava decidido a renovar meu esperma através do sexo “barely legal”, conforme me havia ensinado o Doutor, eu precisava conseguir extrair o que a tenra idade tem a oferecer sobre a relativização do conceito de “interessante”. Seria uma espécie de doutrina anti – Drukpa Kunley copular com mulheres que, caso eu não estivesse alerta, sugariam de mim pela boceta o mínimo de iluminação que eu havia adquirido através dos anos. Se o monge louco percorria o Tibet comendo senhoritas em troca da revelação que oferecia de dentro da glande, eu agora fazia o caminho inverso, vampirizando cabaços e me glorificando. Mas era em nome de algo maior. Eu era capaz de dissertar sobre isso, caso fosse argüido sobre minhas intenções. Normalmente eu não precisava. Era só segurar a onda e me deixar levar.

O perigo, na verdade, era o clichê. Nada é mais magnético que o clichê. Experimente perder-se no meio da transmissão de um pensamento. Veja o que emerge disso. No meu caso, o fascínio pelo conhecido, pisado e velho, começou a mostrar seus resultados numa troca de mensagens eletrônicas com outra japonesa, igualmente ninfeta, igualmente japonesa. Eu estava convencido de que devia agir cobrindo continentes, de forma científica. Rabo por rabo, idioma por idioma.

Tudo transcorria normalmente com esta, mas no intervalo entre nossas medíocres declarações, algumas coisas aconteceram: Tori tem uma amiga com problemas emocionais. Faz análise e está longe de se ver livre de seus fantasmas. Troca olhares com todos, faz poses sensuais, brinca de agarrar, parece até uma dessas menininhas de 12 anos, moradora de alguma favela integrada, que infelizmente vive em um plano da realidade onde não existem o látex, a pílula e a informação. Uma daquelas crianças que descobrem a sexualidade na TV e não têm referências para o uso sensual de seus finos caniços negro-cinza. Cheyenne é assim. Adulta e assim.

Seus seios, até bonitos, estão sempre loucos para saltar de dentro do top e abraçar o mundo numa grande e cósmica espanhola. Outro dia eles conseguiram. Pularam fora e disseram “olá a todos” no meio do centro de convivência da Ordem, provocando risos e um grande constrangimento. Reação apenas um pouco mais exagerada do que aquela que a dona das tetas extrai dos circunstantes quando se expressa normalmente. Se Cheyenne não tivesse aquela cara, eu até que entrava em cena. Mas, enfim, o fato é que Cheyenne lidera a facção fofoqueira do bando de Tori e acabou transformando minha situação com o Japão em uma parte de três. Explico: A protosexy tornou público o fato de que havia três homens interessados na asiática, o que provocou um ataque de estrela-mãe na menina. “Let the games begin”, gritou o arauto do rei. E no sétimo dia, Drukpa cansou, sentou e se abanou.

Drukpa 03:13 Ah, tá. Saquei. Mas tem um lance aí que eu não
entendi direito. Parece que meu interesse em você
(sim, é interesse mesmo) virou uma coisa meio
pública. Todos sabem, comentam, tb querem vc
(segundo eu soube)... Aí a coisa fica meio chata,
né? Cogita-se até uma "disputinha" pela Tori.
Não é beeem por aí, não, gatinha. Saca? Enfim, vc
tem meus telefones e eu não tenho os seus. Oquei?
Qualquer coisa me liga. Mesmo que nada role, saiba
que você é linda. Mas não deixe o sucesso te subir à
cabeça, babystar! Beijo. Te curto. Saiba disso e saiba
aproveitar. Ou não. Beijo! Drukpa.

Juro que não esperava resposta. Não estava blefando ou sei lá o quê. Aquilo tratava-se apenas de um "foda-se" com classe. E só. Mas...

Tori-Tora 04:07 esse negocio de que ta meio publico acho que rola
mais da parte dos outros e nao da minha, e o lance
de que perde a graça quem falou foi Cheyenne!!!!
O meu tel é 12345-67890!!!!!ce ta online?

Tori-Tora 04:08 depois disso tudo que ce disse ai eu to com
vergonha!!!!

O jogo. Apenas isso. Sem conclusões, a não ser uma: ela também sabe jogar. Só que eu não quero mais. Ou quero?

Dia seguinte, domingo, seis e meia da tarde. Após um telefonema bastante objetivo, largo um filme de James Bond no meio e decido pegar um ônibus até Nihiland e encontrar meu destino. Marquei com Tori às sete e dez e, obviamente, chego quase uma hora atrasado. Sou recepcionado ainda na rua por Cheyenne, que me informa que meu objetivo está no banheiro. Merda. O que Cheyenne estava fazendo ali? Agora seria impossível lançar meu charme sobre a Tai-Pan. Seriam horas de cerveja cara e papo-furado. Alguns minutos de quase nada, até que Tori aparece num modelito bastante curto, preto, sob um fino casaquinho de lã mostarda. Uma leve pintura nos olhos realça o ar cínico e deliciosamente hipócrita da menina. Cumprimentamo-nos socialmente, sentamos em um pub chique e encontramos uma amiga das duas. Talulah. Após cerca de uma hora de sushis, cervejas mexicanas, olhares comprometedores e elogios ao meu modo de vestir, começa uma discussão sobre para onde iríamos agora.

Sugiro uma chegada no bar dos Répteis, em Miami-Rio (a milhares de quilômetros dali) e, estranhamente, a ideia é aceita de pronto. Estamos os quatro no carro e não penso senão em mijar. Nunca a ponte Underdogsville-Nihiland foi tão extensa e aflita. Sem cabeça para conversar, olho pela janela traseira do carro e cada gota da Baía de Underdog me força os esfíncteres. Chegamos a um posto de gasolina, já em Underdogsville, e salto correndo do carro. Felizmente todas as meninas estão precisando esvaziar as bexigas e tenho a oportunidade de iniciar um assunto mais direto com Tori. Eu disse apenas "iniciar". Após uma conversa bastante adolescente, após alguns segundos de aperto no peito – exatamente aquela sensação bastante comum de se querer enfiar alguém na boca e não tirar nem para o café -, estou prestes a roubar um beijo quando as intrusas surgem do nada. Vale dizer que isso acontece pela terceira vez na noite.

Chegamos ao bar e vou comprar uma garrafa de batida de coco enquanto as ninfetas esperam no carro, brincalhonas e levemente sensuais. Salto da viatura sentindo-me um rei. Desfilo pela rua com o ar de quem pode chamar qualquer freqüentador poseur dos Répteis de pobre diabo. Sinto como se até o maço de cigarros que comprei para mim devesse agradecer a oportunidade de ser fumado e amassado pela versão subamericana de 007. Volto, sirvo um copo que passa de boca em boca e nos dirigimos à praia.

Já na areia, um certo clima de expectativa geral que me remete à quinta série do Primário antecede um jogo intitulado “Eu nunca/Eu já”. A brincadeira consiste em se anunciar uma aventura sexual que você nunca teve. Se alguém já foi agraciado com a situação proposta, deve sorver um gole de batida. O “problema” é que Tori não bebe. Ih, e agora? Simples: as meninas sugerem que a batida seja substituída por leves beijinhos na boca. Alguns prenúncios de lábios tomam conta do banco da praia e não chegamos a passar a roda toda no teste antes que as duas amigas resolvam levar a história um pouco além, um pouco mais próximo do que eu esperava há dias. O caso é que as meninas são bissexuais de carteirinha e firma reconhecida, e estavam procurando um pretexto para se beijarem na minha frente. Então, num clima muito jocoso e cheirando a intimidade proibida, acabam por esquecer o pudor e aproveitam um beijinho para enlaçarem línguas enormes e cor-de-rosa.

Me sinto um pouco esquisito por ainda não ter beijado Tori, e o estranhamento só se suaviza com a revelação de um belo papelote de cocaína, saído direto da calcinha de Talulah. Não que eu não tivesse tentado nada antes com Tori, mas a coisinha ficava citando um cara da Transilvânia com quem ela estaria envolvida. A solução surge quando os beijinhos são muito convenientemente substituídos – agora para uso geral - por beijos de língua. A grande primeira rodada de prendas revela-se um tanto burocrática, até que Cheyenne decide mostrar que sabe o que quer e ajoelha-se sobre mim, de pernas abertas, transformando a microssaia em cinto e provocando a primeira ereção mais concreta da noite. Aí era cada um aproveitando a sua vez para descarregar todos os demônios na saliva do outro. Ou da outra. Segue-se então cerca de uma hora de amassos, chupões, apalpadas e tudo o mais em plena praia de Miami-Rio. Meu pau fervia e palpitava, enquanto Cheyenne e Talulah cheiravam o pó na cabeça que só fazia crescer e aumentar a área de absorção da substância. Ótimo que fôssemos quatro, mas confesso que Tori bastaria. Talvez tivesse realmente sido melhor se as outras duas não estivessem ali. Quero dizer, não sei de nada, a não ser que estava realizando a fantasia de cem porcento dos homens e devia me comportar como o porta-voz da testosterona.

Decidimos voltar ao Bar dos Répteis para mais uma garrafa de batida. No caminho, mais um surto de vontade de mijar ataca as meninas. Acompanho Talulah até um obscuro banheiro no subterrâneo de um posto de gasolina e espero, fumando um cigarro e observando as seringas vazias e páginas rasgadas de um exemplar de livro de autoajuda. Provavelmente alguém limpou o rabo com aquilo. Sem dúvida UM exemplar da tiragem de milhões ajudou alguém a melhorar de vida. Talulah termina e posso vê-la através da porta empenada do banheiro passando papel na boceta ruiva e aproveitando para masturbar-se levemente com o atrito da folha contra seu clitóris lésbico; provavelmente quase-virgem de pica. Afinal, língua não fere ninguém. A não ser quando diz verdades. Talulah deixa o lugar, subimos as escadas e voltamos ao carro. Mas não para ir embora.

Agora é a vez de Cheyenne, que diz ter medo de mijar sozinha. Esta aproveita-se de um descuido meu - uma parada em um bebedouro - para relembrar uma cena de filme. "Você viu ‘Grandes Esperanças’?", ela pergunta. Não respondo. Apenas repito a cena em que o rapaz vê sua pausa mineral ser invadida pela língua de uma mulher. Ela me puxa pelas calças para dentro do apertado banheiro e cinco minutos de preliminares esquentam o recinto sob a American Avenue. Os seios de Cheyenne agora fazem sentido. São grandes, escuros, com bicos salpicados de cor-de-rosa e pontudos, carne grossa e cheirosa, e melhores ainda de se tocar que de se ver. Assim como todo seu corpo, que, se aos olhos já dá margem a especulações banhadas em esperma, sob a mão e sobre o pau adquire todo um novo significado. Pessoas táteis são assim.

Cheyenne abaixa minhas calças e, em menos de um segundo, faz qualquer coisa com a língua que eu jamais havia visto. Nem consigo percebê-la tirando a saia e só volto a mim com a safada me cavalgando, louca, a boceta mais parecia um desentupidor de pia, rude, rústica, peluda, suplicando em movimentos de contração e sucção por um jorro de esperma que a invadisse como uma represa descontrolada. Preciso tomar cuidado para que ela não me leve o sopro da Maravilha, quando não agüentar mais segurar e esporrar o que eu puder por dentro dela. Ela geme, rosna, me morde o pescoço, cavalga com um vigor invejável, penso em recordes olímpicos, penso na barreira do som; penso em futebol, penso em homens me dando porrada, com sua constituição física otimizada, superior; penso em buracos negros me levando tudo que pude reunir; penso no sol e em como dá para sentir a mudança para fora da sombra mesmo de olhos fechados, penso em como não dá para evitar de sentir... penso... ai... penso... penso... Explodo em esperma, e ela precisa me segurar pelos braços para evitar que eu saia voando pelo banheiro como uma bola de encher com o bico aberto, como uma mangueira de incêndio descontrolada; explodo num líquido absolutamente branco, consistente, sob gritos de PORRA! Aiiiiii! de Cheyenne, e o olhar disfarçado do frentista que, agora vejo, se escondeu em um buraco do almoxarifado, um cômodo à esquerda, para perfeitamente observar aquele ritual de cruzamento animal. Voltamos ao carro carregando um ao outro e acendendo cigarros com um ar de que “nada aconteceu aqui – apenas descemos a porrada um no outro”.

Tori não quis mijar e me recusa um beijo por achar que “dentro de uma brincadeira, pode, mas fora... é diferente”. Rio dela, fumamos uma tori-tora e voltamos por dentro de uma magnífica favela de rostos caleidoscópicos, ameaçadores e lindamente reais. No carro, sento-me ao lado de Cheyenne, que dirige, e ouço Tori e Talulah conversando sobre suas calcinhas no banco de trás. Os dois pequenos modelitos são brancos, de malha, mas o da japonesa tem detalhes em cor-de-rosa. Tudo combinando com as mucosas. Sinto o vento nos cabelos, na alma e na mão direita, que agora brinca de planador por toda a orla inundada de neblina, ao mesmo tempo em que percebo a mão de Cheyenne me acariciando a esquerda, a coxa e o pau. Cheyenne tem dedos mais fortes que os meus. Aliás, esse tipo de contradição é uma constante em minha vida. Uma semana atrás, me vi praticamente indefeso quando Diane, a americana, decidiu que me queria no meio de uma pista de dança num clube de salsa em Neocopa. A mulher me puxava a cintura e mais tarde os cabelos e eu me esforçava para acompanhar aquela explosão de margheritas e estrógeno. Mas isso já é uma outra história.

Após alguns segundos, a mão de Tori aterriza sobre meu braço direito, e beijo, chupo e mordo-lhe os dedos, para depois fazer alguns carinhos. Em resposta, o polegar da pinup roça e avisa: “estou aqui. Estou te acompanhando. O que você estava dizendo?” Chegamos afinal à porta de minha casa, e Cheyenne salta do carro comigo, usando o pretexto de conselhos sobre Tori para me agarrar. Alguns minutos ardentes contra o carro me lembram que é tudo verdade. Uma versão adulta do beliscão para checar se você está acordado. Ponho a cabeça para dentro da carruagem e procuro dar dois beijinhos amigos em Talulah, por quem, estranhamente e após uma noite desse tipo, não sinto muita intimidade. Juro que não esperava mais um ataque sexual. Ali, juro que me surpreendi. Sou puxado contra o volante e tenho a camisa amassada e os cabelos bagunçados. Dois minutos de uma punheta agressiva, cheia de mágoa ou fúria, acompanhados de muitos sorrisos maliciosos e vingativos. Acho estranho, já que o “Eu nunca/Eu já” havia ficado na praia.

Agora é a vez de Tori, que, sob um “tchau” em tom de “então tá bom! Deixa para lá”, parece mudar de ideia sobre o cara da Transilvânia e tenta me dar um beijo. Puxo-a para fora do carro e jogo-a contra o porta-malas, comprimindo-a pela cintura contra o vidro traseiro do Uno e agarrando-lhe a bunda pequena, redonda e lisa de japonesa. Ela suspira fundo e me puxa os cabelos, esfregando-se insistentemente contra mim. Já sinto o pau quase ralado contra a cueca de seda fake, e minhas bolas estão prestes a explodir contra as pernas de mármore daquele monumento ao sexo anal. Você não acreditaria na sensação de passar a mão por dentro da camisa de Tori. Japonesas têm realmente uma pele diferente, e aposto que o cheiro após o sexo é qualquer coisa de shoyu e casas de papel. Chega. Preciso tentar. Seguro-a pelo pescoço, faço-a girar na minha frente, ouço o som do corpo contra a lataria do automóvel, puxo a saia, abro o zíper da calça, e a imagem da menina de olhos fechados e boca vermelha e molhada se alterna em minha cabeça com flashes daqueles cabelos enormes e negros grudando no suor das costas enquanto a penetro por trás; aquela barriga de chocolate branco se contraindo e relaxando junto com sons arranhados e agudos que dividem aquela boca pequena com meus dedos molhados de muco vaginal e fluidos de toda parte do corpo daquilo que dançava em meus braços e se arrastava por meu corpo enquanto minha língua bastava estar posta de fora para passar em revista cada pedaço de pele branca, burra e sensual.

Segue-se a isso um amasso cinematográfico acompanhado de muitas mordidas e alguns calabocas, vindos sempre de minha parte. Nos engolimos. Mais que beijar, bebemos um do outro. Chupamos não beijos, mas línguas. Como se estivéssemos com a boca cheia de sorvete e mel de abelha, compensamos a falta de cama com tentativas de dividir o mesmo lugar no espaço. Um amasso bem dado é isso, um esforço de dois corpos para dividir um espaço na atmosfera onde mal caberia um. No caso, couberam quatro e talvez houvesse espaço para mais gente.
Finalizo a noite avisando que ligarei amanhã. Escalo as janelas do prédio, consumo de uma vez o que restou do papelote de Talulah, que roubei durante a dupla masturbação, meu nariz sangra um pouco e me lembra de que estou na ativa, e sinto-me irremediavelmente feliz, excitado, vingado, sortudo e, principalmente, único. Agora eu deveria ser um homem polido e arrematar aquelas horas com um bilhete simpático; para então ganhar o resto da madrugada perambulando sob as ruas e colhendo fatos novos para o relatório.

Drukpa 01:28 Oi! Adorei a noite de domingo. Pode confiar em
mim e esperar meu telefonema. Beijo. Linda, você,
sabia?

Tori-Tora 14:15 é eu e a Cheyenne estamos confiando pq ela ta
ficando com um cara da ordem que tb não pode
saber e a galera conhece ele!!!! liga aê!!!! Beijim
tori.


Ganho a rua. Com o coração tomado pela Ásia, mais uma vez retorço em agonia e memórias olfativas pelos dedos por alguém que simplesmente não está em casa, mas, tenha caído onde for, deve estar se tocando enquanto pensa em Henry Lee. Estou falando de Tori, garçon; que se revela a prova cabal de que o coração está se tornando um coisa simples para mim. Tori é o tipo da pessoa com quem tudo parece estar sempre bem. Sinto que caso algo se desdobre da ação instintiva que me levou à aproximação da vietnamita, isto será o céu. Caso tudo termine com aquela entrega de 1k de declaração de intenções em uma mensagem eletrônica, essa história terá servido de libertação. Tudo bem, de novo. A única coisa que me faz coçar a cabeça e rodar nos calcanhares fumando maços é como conseguiria me relacionar com alguém tão carregado de simbolismos. Seria trepar com uma bananeira em forma de cruz ou que estivesse voltada para Meca. Será que até lá terei conseguido abstrair? É possível. Ao menos já passei pela fase da idealização. Consigo vê-la com chulé ou chutando o nome de um diretor de cinema. Será que fazem isso no Vietnã? Eh, povo para não estar em casa! Também, depois de tanto massacre político... é trocar as fechaduras ou ganhar o mundo.

Daqui a três dias, começo em um novo emprego. Acho engraçado que, após ler tantos autores, logo Bukowski fique servindo de paralelo próximo em estilo de vida. Essa troca de empregos, esse cinismo, esses bares... Agora mesmo estou sentado em uma birosca em Via-Traffic, química e exageradamente iluminada por luzes frias que permitem entrever o reboco dos azulejos cor-de-laranja e bege. Por que será que donos de bares se inspiram tanto em decoração de banheiro para suas instalações? A conclusão a que chego é que é difícil ser Henry Miller em Underdogsville. Por mais que escritores se esforcem em vestirem-se mal, acho que o conteúdo e o estilo são diretamente proporcionais à situação financeira do sujeito. Bill Burroughs é que tinha classe: enfiava uma gola alta em qualquer bueiro e fazia o esgoto soar como a melhor vinícola da França. Outra, esta agora autocrítica: quando o escritor começa a se dedicar demais a crônicas, é sinal de que anda faltando ação em sua vida. Ou então, anda sobrando dúvida.

Hoje passei com louvor num exame médico e ganharei um seguro-saúde. Parece piada. Só conseguirei respeitar uma médica de empresa quando ela me perguntar como fico quando escrevo e, por uma fração de segundo, o texto empaca. Deviam me testar nessas condições. Veriam que veias saltam à fronte e a pressão sangüínea sobe ao dobro. É dessa metamorfose que surge o impulso seguinte, mas o processo é muito arriscado. Crianças e idosos, não tentem isso em casa. Ou em Hanoi. Esse impulso surge em um lugar da mente onde, parafraseando um amigo, “o neném chora e a mamãe não ouve”. Se me testassem assim, eu estaria fora. Não respeito médicos de empresa. Nem RHs, psicólogos de colégio, assessores de imprensa, técnicos em marketing, escritores que fazem crítica da obra dos outros... Profissões adaptadas são profissões desvirtuadas. Tiras em jardins-de-infância.

Deixo o bar com a cabeça girando e cruzo Henry Lee, do outro lado da rua, gritando “É EXATAMENTE ISSO!” para um monge budista. Morro de inveja e quero simplesmente morrer. Mudo de bar para um ambiente mais sofisticado, a fim de mapear a atividade noturna da cidade nos mais diversos níveis sociais. Tivesse eu pego o blaser em casa, passaria tranqüilamente por dono de alguma merda, com meu aspecto nórdico e minhas narinas levemente inflamadas. De qualquer forma, estou ainda preso a Underdogsville, o que me impossibilita ser Henry Miller. Outro bar, outra gente, e a mesma sensação de ineditismo. Ganhei novas pernas com o fim de um namoro e a perda de um emprego, mas continuo não respeitando a médica que me aprovou no exame de saúde desse novo cargo escravo. Deviam me testar assim, sentado em um bar, cheio de álcool, no hiato entre uma experiência inesquecível e outra.

Penso no Interconscience. Como é que se dá nome a um livro? Como seria possível resumir o atrito de toda uma fase de vida e o barbear suave de uma alma pós-revolução pessoal em apenas uma sentença? Um nome: “It Takes Two to Tango” parece uma boa alternativa. Além de expressar o conflito indispensável à criação, elucidaria dúvidas a respeito de Henry e ainda me pouparia respostas a ataques por parte de personagens. Acho que, ao menos, já tenho um início: como todo e qualquer autor que merece ser levado em consideração, inicio cheio de inimigos em potencial. Agora mesmo, posso citar a aura sexual da loura em pé defronte a mim e ganhar, em seu namorado, um anônimo desafeto. Não que seja esta minha intenção, mas realmente a largura bem modelada de seus quadris só me deixa pensá-la de quatro.

Posso adivinhar o cheiro de cada uma das moças presentes com meu novo megaolfato e ridicularizar a cara de sedução de todo e qualquer bofe que circule no recinto, com esse meu recente megasenso crítico. E tudo sem precisar dividir a boca entre o álcool e o verbo. Só preciso escrever neste pedaço de toalha de mesa. Linho. Saio à noite e só internalizo toxinas. Gente feia.

Segundo consta, Hemingway era veterano em brigas de bar. Ora, então vejamos: agora mesmo estou trocando olhares com a mulher de um desgraçado qualquer. À primeira vez que olhei na direção da pin-up de longos e lisos cabelos castanhos, ela já me encarava. Daí sucederam-se, até agora, cerca de vinte minutos de olhares sensuais. De ambas as partes, vale dizer. Consigo até prever o futuro para alguém menos precavido, em semelhante situação: sorrisos seriam trocados, até que o dândi de camisa listrada se aperceberia e viria até aqui, quebrando uma garrafa na mesa. Derrubaria cadeiras, ficaria vermelho e encostaria um longo caco de vidro em meu pálido e suave pescoço. Eu diria um eicaraabaixaissoaí, ele deixaria o vidro se espatifar no chão – de certa forma agradecido por ter sido poupado de linchamentos e aborrecimentos judiciais – e eu me jogaria em seu pescoço, com o punho em riste. Eu o agrediria. A fêmea começaria a gritar, fazendo-se de vítima. As câmeras ligariam seus holofotes e alguém da produção entraria em cena, colocando um cobertor sobre os ombros da menina. Começaria a chover. D’onde se conclui que, normalmente, uma briga de bar é iniciada por uma mulher insegura, carente de aprovação e com antenas ligadas na estética dos demais freqüentadores. D’onde se tira que Hemingway era bonito. É sempre assim – os valorosos recebem a lâmina, e os medíocres, a estabilidade, o conforto. Gente estúpida. Vou dormir.

Acordo sóbrio como um bispo por volta das 7 da noite e sei que a equação está ligeiramente torta. Ou está tarde demais, ou simplesmente perdi outro emprego porque não me apresentei, ou eu deveria estar ligado em algum tipo de psicotrópico e mais preocupado em ganhar vivência e descobrir a Maravilha, ou eu não deveria ter me babado tanto enquanto dormia, ou não deveria estar tremendo tanto, ou não deveria estar morrendo de calor e tremendo assim, ou deveria sentir as pernas, ou deveria ter feito a barba desde a última vez que fui ao jornal, ou provavelmente todas as opções acima. Mas como nada é como deveria, nem mesmo quando a gente faz o possível, desfaço-me de minha mais absoluta nudez enfiando uma calça social e catando uma camisa de botões no fundo do armário, calço um par de sapatos bicolores e parto a pé em direção à loja de artigos fotográficos do pai de Keef, a fim de arranjar algum dinheiro emprestado. Keef sempre empresta dinheiro, e eu, sempre que possível, pago religiosamente. Ademais, desta vez, mais uma vez, eu acabaria, de uma forma ou de outra, arranjando um meio para pagar.

Keef está de bom-humor. É fácil perceber quando isso acontece, uma vez que seu suor eterno na testa é mais intenso e seus olhinhos samoanos quase se fecham, escondidos atrás das bochechas mais simpáticas e iluminadas do mundo. Keef é uma pessoa boa e vai adorar saber que esta noite eu decidi descer aos porões da cultura funk-dada. Ele me mostra músicas novas de uma banda pop-bluegrass de New Orleans, e eu, do alto de meus calçados bop bicolores, emano suor automaticamente, extasiado com a bênção de sua cultura musical, sempre atualizada constantemente. Nos dirigimos ao estoque da casa e fumamos um solto magnífico, coroando mais um dia da mais sincera e construtiva amizade. Quando o homem ouve que estou engajado na Interconscience de Dr. Salieri e fica sabendo sobre Henry Lee, solta uma risada deliciosa, diz “eu sempre soube que um dia vocês iam se juntar” e me pergunta “Henry Lee é um junky ou o cara quer dar para você?”. Respondo que provavelmente um pouco das duas coisas. Mas completo que Henry Lee Junky é Deus, ainda que não saiba; e sua divindade está exatamente em crer que é apenas um viciado. Keef é o primeiro a entender o processo lógico. Sempre é.

Mas saio dali como um raio, direto para o buraco onde me disseram um dia que eu encontraria Dom Creoule. Grande nome, aliás, tinha o preto. Creoule era um cara alto, negro como a asa da graúna, magricela, cheirador, bicha assumida, mas gerente do tráfico na Unidade Norte de Underdogsville. Um lorde da malandragem; um embaixador do tóxico dotado do dom da palavra e do ritmo. Dom Creoule não tinha referências televisivas, mas sacava perfeitamente a velocidade dos acontecimentos. Como uma coruja que observa a noite do alto da árvore, Creoule sabia exatamente o que rolava no mundo e simplesmente cagava para o que era certo. Ele era o ímpio da bunda suja. Quando fazia piadas, sincopadamente mexia as mãos, como que num ato reflexo de quem passa os dias fazendo hip-hop. Nunca matou ninguém. Sua ficha policial era até mais limpa que a minha, branco otário que roda na mão dos meganha. Os porcos jamais chegavam até ele. Aliás, autoridade nenhuma. Ali, no meio da massa funkeira, no meio das AR-15, não tinha porco que entrasse vivo e saísse sorrindo. Mais de dez mil pessoas se acotovelando para ouvirem o sermão megarrápido do homem; suas palavras de ordem, seu repente do mal – ou da verdade.

- O meu pai, ele é crente; minha mãe também. De igrejas diversas, pastores também. De distritos vizinhos e ruas idem. Mas não falam de Deus a não ser se convém. Eu ando atrás de um Deus diferente. Que sorri gargalhando e mostrando os dentes. E que dança e que bebe e que repete preces de ódio por perda de tempo; e alguém me disse que Deus estava em mim. Eu concordo e já vi, mas eu digo que sim, que em cada pessoa tem demônio assim. E meus pais só fazem rezar e pregar. Uma vida inteira, só merda e azar. E eu quero morrer quando trepo e atinjo o orgasmo e o pastor me ocorre a falar: “Sai demônio do corpo, tu tá amarrado na cama de Deus e de Santa Maria”. Sem ídolos pop, a bichona se veste bem como um mendigo realmente faria. Eu quero é o ouro, eu quero é subir aos degraus mais altos da comunidade. Meus pais, os coitados, só sabem dizer aleluia, aleluia e suar ansiedade. Eu ontem comi a filha do pastor. Ele nunca jamais nem me desconfiou. E meu pai, que finge que nada mais vê, roubou as camisinhas que a puta comprou. Pra queimar, pra rasgar, pra as incendiar. E negar que o filho é funkeiro e do bem. E detesta essas missas que arrancam dinheiro e detesta esses padres que fazem neném. É, o bonde da coca passou por aqui e deixou uma alma bem agradecida. A mil por hora e com o pé na partida, cheirando, injetando e feliz da vida. As putas que passam a manhã na igreja de noite procuram meu pau e cerveja. As bundas mais lindas se sentam à frente. O pastor as bolina; a ereção é de inveja. Tô errado? Tô torto? Quem é que me prova que homem crismado não come um rabo? Quem é que me prova que o bispo é capado? E quem é que me prova que há um outro lado? Quem há de dizer que a morte transcende? Quem há de dizer que o pecado arrepende? Quem vai me jurar que eu, mudando, tô salvo? Quem vai me ajudar a enganar o diabo? Se bem que o diabo é o pai de Jesus. Como o meu, orgulhoso, o enfiou na cruz. E deixou os abutres comerem seus olhos. E o povo gritando por Deus e repolhos. É sempre assim, a fome sempre dá margem a fé, a esperança e a débeis mentais que procuram o auxílio de um Jesus menino que prega com os dedos cruzados por trás. Eu não largo meus vícios por nada no mundo. O homem é seus vícios e os vícios segundos após os primeiros se tornarem leves e os outros virarem o prazer mais profundo. Eu canto, eu danço, eu trepo, eu levanto a barra das saias de obreiras malandras que falam de fé e que guardam consolos embaixo da cama e, nuas, na varanda, se exibem ao povo que passa de noite voltando do baile e da perdição com a pica molhada da hora da lenta das filhas da igreja e do próprio patrão. E os velhos que bebem e que pedem perdão não sabem que a vida não tem contramão, mas sim marcha-ré e tem freio de mão; e desistem, se entregam até pro ladrão de almas, de bolsos, de religião. Eu dispenso a hóstia e dispenso o sermão, pois eu sei do que faço e não abro mão. Meu pau me conduz até meu coração e me leva entre as pernas até o popozão. Eu invento o que a mina precisar ouvir. Elogio o seu jeito ruim de vestir. Dependendo da hora, até travesti. O que eu quero é meu funk e zoar por aí. Elas acham que achando descobrem o que é bom. Mas quem bem mora mal não tem mesmo opção: é aceitar e negar, dia sim, dia não. Esperar a batida, nova opinião. Quem aceita Jesus perde o recurso de recusar o diabo que mora em si e que empurra a mão para o bolso que garante o egoísmo do céu que sorri. Não há o que esperar pra ver tudo queimar. É sair e notar que nada vai salvar e que cada cabeça que tenta enrolar só faz conseguir e assim agrupar gente louca que entra e que paga pra ver o diabo sacudindo o alvorecer do diabo do bem que faz acontecer a única coisa boa que pode viver no caos, na pobreza - que é o prazer. Eu dispenso a moeda e dispenso o aumento. Eu dispenso a modéstia e o envolvimento. Eu quero é sair e explodir no ar o morteiro da morte do triste penar que envolve a todos na comunidade - de raça, de credo, de sexo e idade - desesperados para se livrar do fardo que os mesmos insistem em criar. Eu dispenso tudo que me oferecerem, pois sei que é no funk que a noite acontece. Enquanto eu sair e encontrar o DJ, nada vale o popô que a gente merece. Uvinha, gatinha, minha cachorrinha, desce gemendo na pista, loirinha do cabelo blondor, do cabelo nu, que eu entro com a vara do mais puro azul. Eu sou preto, sou pobre, mas limpo não sou. Pelo menos o pó que se acumulou eu preservo pra ver foi que algo rolou e que a noite, de dia, ainda não acabou. E eu ando, eu mato, eu prendo e eu solto. Depende de quem rodar na minha mão. A justiça do preto é a fome da hora e a mágoa e a revolta, o bolo e o pão. Sangue de pobre é vala de rua e peido de pobre é perfume de igreja. Não há escritório em que o preto não sue e não mije na tábua é toda a cerveja. Eu carrego uma pasta de segunda a sexta cheia de papéis que eu não consigo ler. E quando é dia de sábado à noite eu só quero é ver a pretinha descer. Nêgo perde pra mim o seu nike e o mizuno. Nêgo perde até o medo de rodar porque EU sei fazer pelo mundo o que essa porra de Deus tenta sempre acertar. Se tu mata um coitado, tu é só viado. Se mata a galera, tu é coroado. Se mata a família é preso e espancado. Se mata geral, tu é Deus e é louvado. Demorô.

Dom Creoule sabia dar o recado. Falando da Igreja ou de sexo anal, era sempre a mesma coisa. Ele não cedia a fórmulas fáceis de encaixe de ideias, como a maioria dos MCs fazia. Ele sabia exatamente onde estava indo e queria estar com as mãos livres. O lance do cara era a rima e o pó. Dar a bunda também era de grande ajuda, mas não garantia que as popozudas pagassem o ingresso. Eu me misturava à massa e aguardava ansiosamente a hora da dança das cadeiras – momento em que as meninas procuravam homens sentados para discretamente tirarem suas calcinhas e sentarem no colo rebolando com o dedinho na boca. Ali você precisava ter presença de espírito e efetivamente ficar de pau duro. Era necessário abstrair do cheiro horrível de suor. Se bem que cheiro de suor é fetiche quando você está ouvindo o pancadão sem medir as conseqüências. “Dança da motinha–dan–dan-dança da motinha. Dança da motinha; as popozuda perde a linha” e eu ali, sentado, ligadíssimo na pequena quantidade de branco e de preto que havia comprado na boca, na subida do morro. Eu, o turista, eu o filho da madame, eu, o pleibói, eu, o gringo, o ruço, o galego, os alemão.

Até que uma ninfetinha do cabelo com cheiro de creme rinse, de batom vermelho e espremida em um top de lycra azul que descombinava pungentemente de uma microssaia verde-limão, essa putinha proletária e absolutamente gostosa e sexy, simpatiza comigo e vem. Ela anda em minha direção com uma cara mais transformada pelo pó do que areia mijada por um time inteiro de watersupla. A tchutchuca vem, rebolando, dando quebradinhas e subindo devagar; se botando maluquinha sob a massa sonora. Ela anda fazendo dancinhas e olhando de cabeça baixa para minha pica. Como que dominada por um Exu e simplesmente adorando. It`s only Rock n` roll, Tranca-rua! – a menina some atrás de uma pilastra para reaparecer igual, porém com uma pequena calcinha vermelha de renda na mão. Rodando no dedinho. Ela vem. Agora já sei que realmente ela não vai desistir, e minha calça está quase explodindo. Penso em como devia ser aquele êxtase em países árabes, onde mulheres que não se conformam em terem seus clitóris amputados trepam como cães, em busca do mínimo de prazer vaginal.

A tchutchuca agora pára na minha frente, vira de costas, empina a bundinha e rebola lascivamente. Ela sobe e desce, jogando o rabo para os lados, magrinha, sequinha, nos músculos, levezinha e quase subnutrida. Quando ela, de costas, joga os peitos para frente, posso ver o montinho peludo e orvalhado de suor. Como aquela boceta tinha pêlos; e como eram densos, recobrindo lábios enormes e ameaçadores como uma planta carnívora. A única parte do corpo da cachorrinha que tinha um excedente de pele era aquele órgão que, meu Deus, como eu queria estar ali dentro. Até que ela vem dançando de costas, sem olhar para mim, com um ar de que está simplesmente sentando na cadeira. Ela vem e, ainda depositando o peso sobre as próprias pernas, se roça em meu colo. Ah, eu podia gozar ali mesmo.

A menina então põe peso e continua se roçando, de costas para mim, apoiada com as costas em meu peito, e agarra minha cabeça por trás. Aquele sovaco deliciosamente selvagem, mal-raspado e fedorento roçando em meu pescoço... Ela então, por baixo de si, abre minha braguilha e sobe e desce apenas encostada no meu pau que, pela frente dela, entre a vagina e a mão suada, exibe veias do tamanho de avenidas e se esquenta com aquela punheta envolvente, meio-mão-meio-boceta; vagina que se molha como uma garrafa fora do freezer e que sem que eu perceba, sem mais nem menos, engole minha pica e me leva à loucura. A gatinha solta um grito surdo no meio daquela consistente pulsação. Só percebo que ela havia gritado porque posso sentir seu abdômen contraindo e um impulso respiratório para baixo.

O funk não aceita trégua e ela rebola no ritmo da música, segurando a cabeça com uma das mãos e usando a outra para tocar o próprio joelho. Simulando uma pose de top model enquanto desempenha seu papel de bottom bitch. Deus, eu era todo miami beat. Eu sabia trepar. Eu estava disposto a me juntar ao movimento e garantir que aquele baile não terminasse jamais. Eu sustentaria o tráfico, eu sustentaria a tchutchuca, eu sustentaria o namorado dela que provavelmente estava ali mesmo, na quadra, comendo o cu de outra glamourosa enquanto cheirava polvilho em suas costas. A menina não devia dar a mínima para a hipótese, já que seu horóscopo havia dito que ela era uma mulher independente. Sagitário. Definitivamente ela era. Qualquer tentativa que eu fizesse de controlar o ritmo daquela foda seria inútil. “Devagar é o caralho!”, me disse ela, quando tentei segurar seu surto com as mãos. Ela queria se satisfazer e eu era seu instrumento. Sua arma branca.

Até que naquele estágio em que você se convence de que caso mexa qualquer músculo do corpo você goza, fico louco e simplesmente dou um tremendo tapa na cara da mulher. No mesmo segundo em que sinto o rosto fervendo em minha mão, tenho a nítida sensação de que me mijei; mas não: corre por minhas coxas o resultado de uma gozada tão grande – minha e dela, ao mesmo tempo – que simplesmente me tira do ar e faz a batida virar um imenso furacão em minha cabeça.

Preciso comprar mais pó; preciso comprar cigarros; preciso parar de gozar, me limpar e sair dali antes que o dono da mulher apareça e me reboque na mão; preciso arrumar uma maneira de reaver o dinheiro de Keef. Talvez vender bagulho. Talvez. Eis que me liberto da garota, que se comporta como se nada tivesse acontecido ali, e saio me esgueirando entre Lado B e Lado A, tentando levar o mínimo possível de socos, no meio daquelas duas facções da mesma miséria que se enfrentavam por aparente motivo algum. Cada rosto que me aparece gritando coisas ininteligíveis sobre a “comunidade” em que mora me apavora um pouco. Qualquer um ali é mais forte que eu e – pelo menos se levada em conta minha necessidade de cheirar mais – muito mais alucinado. Perigo.

Chego à porta da quadra e sinto algo estranho. Me lembro da vez em que fiz um constrangedor pacto de fidelidade com um amigo, ainda muito criança. Nós assinamos com sangue um tratado que dizia que jamais esconderíamos alguma coisa um do outro. Deus, com quem eu dividiria qualquer coisa ali? Isso era um sinal? Até que um preto velho – mas realmente velho e lindo – surge no meio da pequena multidão que se acotovela para tentar entrar na quadra. Percebo que provavelmente eu havia sentido as emanações de sabedoria do ancião. Me aproximo com um sorriso místico nos lábios. Caminho meio que sem reflexos, ouço uma gargalhada horrorosa, acompanhada de um negrume que se aproxima de mim pela cara e, splat, recebo um beijo de língua daquela criatura nobre, bela, fétida e enrugada, sem dentes, que, segundos depois, revela-se na verdade a bicha mais velha do morro. Putz, como bichas perdem a dignidade quando envelhecem. Ainda mais bicha pobre que, por ter tido na vida como único modelo masculino um pai extremamente machista, acaba precisando se identificar o melhor possível com a mãe e a avó. Bicha pobre é mais bicha do que bicha rica. Bicha rica é gay. Bicha pobre é viada. E viada velha dá nojo. Quanto mais dentro da sua boca.

O beijo do velho é horroroso e tem o nítido gosto de um cheiro que conheço muito bem: esperma. Provavelmente a tia havia se aproveitado de algum mendigo inconsciente e guardava na boca os resquícios do sêmen mais sujo do mundo. Ótimo: agora eu estava duro, entrando na paranóia da coca, sem meios de conseguir mais, preocupado com a grana de Keef, com os lábios sangrando de um soco que levei enquanto tentava deixar a quadra, além de sozinho, e cheio de porra de mendigo na boca. O que poderia ser pior? E algo de melhor poderia acontecer depois daquilo tudo? Ali? Dom Creoule grita no microfone allgo sobre espancamento durante o sexo, o público delira da forma mais crua e feia que jamais pude imaginar, tudo fede, cachorros sarnentos transitam de um lado para o outro e um galo provavelmente fétido se manifesta ao longe, enquanto me afasto do salão em direção à boca de fumo. Meus olhos estão tão esbugalhados pelo pó – e meus dentes tão trincados – que a impressão que tenho é de que há rodas sob meus pés e, na verdade, eu não caminho em direção à droga. Por outra, eu deslizo sobre o chão de terra batida.

Percebo a porta do ponto de vendas bem à minha frente e nem me preocupo com o cano da arma em minha cabeça enquanto simplesmente invado o estabelecimento gritando inconseqüente pelo administrador. Sou conduzido por um menino de 12 anos mais destruído pelo vício que eu, todo perfurado de agulhas, até o dono do negócio. Me ofereço: “ZZZZZZZeu precizzzzzzo de pó e de dinheiro – qualquer quantia – para pagar um adiantamento de um atraso que eu mesmo assumi – confesso – me desculpe – eu acho que sou viciado mas sei trabalhar e não tenho nenhum – eu disse NENHUM - medo de polícia – e eu sou jornalista, saca? Imprensa e tal, eu posso usar minhas credenciais para servir ao senhor e eu conheço o esquema deles e, eu sei, eu sei, eu tenho cara de alemão mas eu sei correr e sei decepar cabeça de tira e enfim, por favor, me deixa trabalhar essa noite. Eu tenho seguro-saúde até... mas perdi meu emprego. Eu, como vocês aqui do morro, funciono melhor à noite e, como você pode perceber, oh, meus olhos estão abertos e estou no meu meio-dia, cara! Meio-dia pra mim é exatamente isso. O que você tem aí? Hummm... é heroína, certo? Eu sou formado nisso também.... só um pouco, posso?”

O bom homem ri alucinadamente e me dá o emprego noturno. Me injeto deliciosamente e ejaculo tanto quanto havia conseguido com a funkeira. Os horrorosos da boca assistem ao espetáculo terrível do bacana-escritorzinho despencando e estrebuchando no chão, extremamente bem vestido e com a face do mais puro cinza, se gozando inteiro e acabando com a calça de alfaiate italiana e dizendo versos de Baudelaire que, para eles, eram apenas merda de gringo. Passo alguns bons minutos assim e só não sou chutado ou executado porque agora eu realmente havia contraído uma dívida. E ia pagar, nem que fosse na base da porrada. Uma nuvem de cores e sons passa por minha mente enquanto lembro de minha avó me ensinando a dançar valsa, aos cinco anos de idade. Me lembro da primeira vez que tomei ayahuasca e assumi a mesma posição fetal, mas, para mim, há uma indefinição sobre se estou ali e me lembrando da ayahuasca ou se acabei de tomar ayahuasca e senti a sensação familiar de ficar curioso ao passar na entrada de uma favela. O fato é que é bom e renovador.

Volto a mim num pulo, arfante, completamente encharcado de suor e sentindo o peso de anos sem um sono decente; recebo no mesmo segundo instruções para arrombar um caixa automático, saio sem entender direito como faria aquilo apenas com o pé-de-cabra que me deram e, na descida do morro, cruzo Henry Lee, saindo de um terreiro de candomblé com uma negra da cor da noite. Digo um simpático “putaquiupariu”, conto sobre minha missão e ele pega as chaves do carro da mulher e diz: “Vem”. Não estou em condições de entender, mas sinto-me seguro. Se Henry Lee estivesse simplesmente me levando para longe daquilo tudo, eu tinha certeza de que ele saberia perfeitamente onde me esconder. Apago no banco traseiro da carroça. Acordo tremendo loucamente, com o peso de centenas – talvez milhares – de notas de dinheiro vivo despejadas sobre mim. Henry Lee sorri enquanto faz a maravilha e soca outras tantas cédulas em seus bolsos e nos meus. Ele diz: “Apenas se lembre de esvaziar seus bolsos em algum saco de lixo quando voltarmos ao morro”. Sem problema.

Agora estou acordado, passei para o banco do carona e, a cerca de 200 quilômetros por hora, aquele homem nos conduz de volta ao covil dos horrorosos. Simplesmente fumo um cigarro amassado e sinto a brisa da madrugada me acariciando o rosto. Quanto dinheiro tínhamos ali? Quanto sobraria para a gente? Provavelmente o suficiente para abrir uma franquia da boca de fumo em pleno centro de Underdogsville. Penso seriamente na ideia. O rádio toca uma canção abençoada de Chet Baker – “look for the silver lining... whenever clouds appear in the blue..... remember somewhere the sun keeps shining... and so the right thing to do....” – canção essa que me faz cantarolar e bater os pés. Mordo a língua sem querer e percebo que o sangue ainda corre em minha boca. Certifico-me de que nada manchou minha camisa nova e sorrio infantil e debilóide. Consulto minhas unhas e constato que sou um homem limpo, afinal de contas.

Chegamos ao morro, grana escondida em um saco de lixo cuidadosamente empurrado para dentro de um bueiro, resto da grana – maior parte – no banco traseiro do carro. Entro gritando para o traficante que, agora sim, eu queria tudo o que ele tivesse ali em matéria de heroína ou que fosse relacionado a ópio – coisa pouco consumida no morro – e uma quantidade respeitável de maconha. Boa maconha, faço questão de frisar. Consigo tudo o que peço, saio correndo de volta ao carro, paramos em frente à quadra e saltamos. O velho homossensual ainda está tentando entrar no baile e me sorri maliciosamente. Conduzo-o com o olhar até um beco ao lado do pancadão e Henry Lee vem atrás, silencioso como um rato. A bicha tenta alcançar meu pau quando meu belo viciado lhe dá uma paulada seca na nuca e vejo o corpo caindo sob um gemido de “aaah”. Henry Lee puxa o velho quase inconsciente, vira-o de costas e me recuso a olhar. Henry grita comigo alguma coisa sobre a existência de Deus e enraba o coroa, que, surpreendentemente, esboça um sorriso e sussura: “me fode assim...”. Preciso de drogas para não vomitar em cima daquela cena indescritível. Mas percebo que não haveria morte melhor para aquele farrapo que, ainda num fio de vida, diz: “obrigado”. A cena valeu por um curso de catecismo e de psicologia juntos. Me iluminei e compreendi tudo sobre todas as coisas.

Com a grana ensacada, a droga reunida, o dever cumprido e as feridas quase secas, partimos no carro roubado da negra sem a menor intenção de retornar ao cenário. O dia amanhece enquanto estamos na estrada, a caminho de uma pequena cidade vizinha. O rádio, mais uma vez, milagrosamente nos presenteia. Bebop da melhor espécie. Ornette Coleman conduzindo uma cambada de loucos e ilustrando perfeitamente a orgia de erva que nos propiciávamos ali. Henry conta sobre quando trabalhava em um navio e o único passatempo era fumar com as arrumadeiras e trepar sobre o oceano. Ele conta que nada jamais fora tão elucidativo quanto as conversas com o ajudante de timoneiro; um filósofo pós-graduado que se afastou definitivamente do meio acadêmico porque era cleptomaníaco e roubava suas alunas ricas. Ali, no navio, o homem não teria para onde levar o produto. E o comandante lhe fazia o favor de, diariamente, revistar suas coisas. Sempre achava algo. Henry Lee encarava a história como uma fábula da ajuda mútua e de como qualquer infeliz encontra um ambiente onde seus defeitos são apenas características individuais. E nada mais.

A estrada chega ao fim e, no fim da manhã, uma fome absolutamente incontrolável nos toma. Fome porque havíamos fumado mais do que um ser humano poderia suportar; fome porque, afinal, já nem nos lembrávamos da última vez que comêramos. Um restaurante francês aparece nos limites da cidade e nem precisamos nos consultar para decidirmos que o lance agora era enfiar a mão no saco de lixo e puxar algumas notas. Pegaríamos apenas o suficiente para não precisarmos voltar ao carro. Poderíamos comer e beber à vontade, sem nos preocuparmos com o preço. Sempre uma grande coisa. O mâitre nos pergunta se somos fumantes ou não-fumantes e, como dois colegiais, sucumbimos a um ataque de riso incontrolável, que nos faz cair à porta do lugar e chamar a atenção de absolutamente todas as mesas. Num espasmo ridículo, consigo fazer o gesto de alguém fumando e seguimos até nossa mesa engatinhando, atrás do funcionário atônito e envergonhado por nós. Os velhos casais nos olham e comentam baixinho estupidezes que soam como gritos em meus ouvidos e me fazem suar copiosamente.

Todos nos olhavam e eu tinha certeza de que cada um dos presentes saberia contar em detalhes aos policiais tudo que havia ocorrido; desde a dança da cadeira até o velho sodomizado atrás de um carro roubado, recheado de drogas e dinheiro ilegal. A sensação só se dissolve quando o vinho chega geladíssimo, reluzente como um troféu. Bastava que nos calássemos para que eu tivesse ideias geniais sobre todo tipo de assunto. Ideias que se transformavam em nada, em pó, em menos de um segundo. Onde está a comida? “Onde está a comida, porra?!”, grito para o nada. Em menos de um segundo, o garçom nos poupa um esforço tremendo e anuncia que quatro pratos de raclete e dois vol-au-vents de camarão estão sendo providenciados. Caso desejemos, há ainda um fondue de queijo que, é só sinalizarmos, chega maravilhoso à nossa frente. Aceitamos todas as sugestões.

Quando chegam os pratos, meus olhos estão se fechando e quase posso sentir o cheiro da emergência do hospital e dos uniformes brancos me reanimando com injeções extremamente desinteressantes. Olho através da porta da cozinha, entreaberta, e quase tenho certeza de que o cozinheiro está esquentando uma colher de forma extremamente suspeita. Meu braço coça. O garçom vai e vem, me confundindo e mesclando meu cansaço com medo de que, em menos de um minuto, o lugar esteja infestado de policiais. Estaríamos deliciosamente fodidos. Me alimento como um porco, deixando cair queijo por toda a mesa, e o vol-au-vent vai inteiro à boca de Henry Lee, que não pensa em nada, a não ser na ausência de calcinha da gatinha que come na companhia dos pais de meia-idade, na mesa em frente. Me desligo de tudo e apenas como.

Levo um susto quando percebo Henry se encaminhando para o banheiro apressadamente, logo atrás da criatura, que joga os cabelos para o lado e rebola coreográfica. Foda-se. Ainda estou com fome. Alguns minutos se passam, estou na segunda garrafa de vinho, e Henry Lee volta, contando vantagem, esfregando o pau e dissertando sobre como a garota gostava de dar a bundinha. Logo após, volta a menina, sorrindo para mim. Henry me conta que havia dito a ela que eu era o escritor com o maior pau do mundo. Tanto faz.

Saímos ilesos, logo após deixar tudo o que havíamos comido por lá mesmo, na mesma cabine onde o casal havia se amado. Aliás, fui obrigado a analisar quanto sêmen havia sido desperdiçado naquele chão de mármore. Voltamos ao carro e Henry me conta outro caso, enquanto, enfim, estreamos nossas merecidas seringas, recompensa de nosso espetacular assalto ao caixa automático. Muito merecidas, aliás, uma vez que cada um ali fez a sua parte. Afinal, Henry Lee arrombou a máquina e eu não atrapalhei. Trabalho de profissionais.

Henry Lee contava: Mario Jorge tinha seus 16 anos quando assistiu ao pai ser morto por traficantes traídos. Adamastor Leite, 56 anos, era o único homem da região que não aceitava se calar diante do poder das drogas no morro do Zagreb, refúgio da miséria para sua família, cuspida pelo desemprego do Nordeste do país. O pequeno Mario assistiu a toda a tragédia, desde o telefonema do pai para os jornais – a chamada que faria ruir todo o poder de Andrinho, chefão da comunidade – até o desfecho final. Mario não tinha voz ativa em casa, logo não pôde dissuadir Adamastor. Trancou-se no quarto e sofreu por antecipação, até ser chamado pela campainha, que trazia os horrorosos à procura do pai. Naquele momento, Mario sentiu revolta. Uma espécie de enjôo que só foi superado pela atitude nojenta da imprensa ao chegar à sua casa, fazendo perguntas tolas, pisando no sangue do pai: “Quantos eram os assassinos? O Sr. Adamastor estava ligado ao narcotráfico da região?”. Àquela altura, era inútil tentar vender uma imagem daquele homem. Agora, afinal, era um morto; e foda-se. No dia seguinte, as primeiras páginas dos piores noticiários de Underdogsville estampavam: “mais uma queima de arquivo dentro da hierarquia das drogas”.

Mario então decidiu ali se tornar policial. Toda a imagem sadia e religiosa de Adamastor pôde ser perpetuada em toda e qualquer ação do soldado Mario Jorge, desde a voz firme e contida até o bigode farto e ridículo. O amor à casa, à família, ao Zagreb, eram parte da personalidade do homem. Nada podia abalar a estrutura ordeira e fiel daquele que veio a se tornar um profissional respeitado e resguardado por toda a comunidade, inclusive pelo agora velho Andrinho. Concessões foram feitas à marginália. Isso Mario soube fazer, por ser mais esperto que o pai. A calmaria naqueles anos do Zagreb não havia jamais sido vista pelas delegacias de polícia da região. Já não se ouvia falar em conflito armado ou cativeiro de seqüestrado.

Até que Andrinho resolveu estampar seus domínios econômicos e políticos na fachada de sua residência. O barraco foi transformado em mansão, câmeras e guaritas despertavam a inveja de todos à volta, e os cobradores de ônibus, já acostumados à cumplicidade do silêncio, deixaram de ver as cédulas amassadas de Andrinho, passando a acompanhar as constantes visitas do chefão à Câmara dos Deputados através da janela do carro japonês, com vidros à prova de balas e CD player envenenado, que agora servia de transporte para o velho. Mario Jorge sempre foi um cara humilde e sempre encontrou justificativas para a pobreza em sua fé religiosa. Aquela ostentação não parecia certa. Foi aí que os laços foram rompidos – o agora cabo Mario Jorge deixou de freqüentar o pé-sujo dos traficantes e passou a esconder dos velhos amigos seus diálogos mais íntimos. Visitas suspeitas no meio da noite passaram a ser uma constante e deixavam o bebê Adamastor Neto assustado e o cabo apreensivo.

Mas foi uma festa junina regada a champanhe e caviar beluga – vetada à comunidade brega de empregadas domésticas e policiais - que deixou o homem com raiva. Toda uma milícia foi então organizada entre policiais de vários morros para estourar a boca de fumo, nunca antes tão movimentada. Os tiras queriam vingança; queriam na verdade sentar à mesa do traficante e serem, eles mesmos, ainda que por alguns segundos, algo que valesse a pena contar para os filhos. Mas tiros, vidas perdidas e a debandada dos policiais acabaram por deixar Mario Jorge isolado em um barraco cheio de mortos, com seu uniforme e sua munição de mercado negro. Várias tentativas de pedidos de cobertura, e o quartel central da PM se recusava a mandar homens. A justificativa, “o período é de balões, e toda a corporação já está mobilizada para incidentes”.

Naquela noite, pela primeira vez, Mario Jorge realmente debulhou-se em lágrimas. Sentou-se e pôs-se a lançar mensagens a torto e a direito através do único benefício que a PM havia lhe dado na vida: o rádio. Quinze minutos depois, uma voz do outro lado o aconselhava a não se mexer, dizia já saber sua localização e estar a postos “com câmeras e microfones”. O quase-morto demorou um pouco para entender. Só pôde levantar-se quando viu Andrinho entrando no barraco com uma camisa sobre a face, iluminado por um forte holofote, respondendo a perguntas imbecis de um homem bem penteado, trajando um belo terno, estapeando a ignorância do Zagreb com um discurso vazio, idiota, mas bem articulado: “(Tá valendo?) O senhor acredita que o narcotráfico existe sob conivência da Polícia Militar?”.

Estranhamente, assim que Henry Lee calou a boca – eu nunca tinha visto uma onda pior – finalmente vomitei. Vomitei muito, na verdade. Senti meu corpo inteiro sendo limpo de algo que eu não sabia o que poderia ser. Mas saía muita coisa mesmo. A heroína começava a fazer um efeito avassalador, meu pés suavam e gelavam, e uma força cósmica percorria meu corpo inteiro, saindo pela boca e me esvaziando... e deixando o ar entrar. Livremente. Puro. Limpo. Com gosto de champanhe. Gay. Colorido. Foi aí que percebi o que o caso de Henry havia sugado definitivamente de mim: a cafonice. Tive um surto de raiva com o universo deprimente que o homem havia trazido à minha onda e apenas chorei um pouco. De ódio. Combinamos então nunca mais falar em assuntos tão bregas e rasteiros. Mas ele sabia o que estava fazendo comigo. E além do mais, ele também vomitou. Depois dormimos no carro. No dia seguinte, devíamos estar de volta para mais sessões de Interconscience.

Chego à cidade com a cabeça do tamanho do mundo, aguardando ansiosamente os eletrodos de Dr. Salieri se acasalando e gerando frutos em meu crânio, e, ah, sim, os textos do Doutor. E agora entrávamos na fase em que a música por si só tinha um papel fundamental no tratamento. Uma cuidadosa seleção de discos antigos havia sido feita pelo médico, o que me deixava profundamente ligado no que deveria acontecer dali para frente. É bem verdade que praticamente não reconheço Underdogsville nessa nova visita, uma vez que, àquela hora da manhã, normalmente eu não era nada. Que luz amarela e azul era aquela que havia espantado os répteis das ruas? Onde estavam as formas de vida que eu conhecia? Meu nariz escorria e me sentia como se houvesse acabado de sair de uma sala de cinema, direto para o meio-dia da savana. Meus olhos queimavam com o reflexo do sol nos pára-brisas de automóveis de todas as cores. Quanta gente comprando jornal e correndo com sanduíches nas mãos. Quantas mulheres exatamente iguais às da noite, mas escondidas sob tecidos finos e de verão. Quanta moda. Quanto dinheiro. Quanto desperdício de humanidade. Onde aquelas pessoas estavam indo tão depressa?

Cabelos armados, penteados, escovados, cheiro de desodorante caro, e cada um em Underdogsville poderia estar em uma peça publicitária. O plano de arrecadação de mentes da Agência Superior de Propaganda Privada realmente havia atingido o estágio máximo de eficiência por ali. Os poucos que fumam olham a massa que caminha na direção contrária com um ar preocupado com a fumaça que sobe de seus cigarros. Não queremos incomodar e somos fumantes civilizados e temos nosso próprio pequeno e apertado espaço nos melhores e mais caros restaurantes do mundo. A sociedade nos aceita, embora demonstremos esse fraco espiritual pela nicotina e caiamos no erro essencial de sermos inegavelmente humanos. Mas preferimos nossa pequena parte de rebeldia contra o triste e asséptico mundo contemporâneo. Quase podia ouví-los dizer. É impressionante como, desde que a Agência Superior de Propaganda Pública resolveu disseminar a ideia de que o cigarro causa câncer, as pessoas passaram a se incomodar visceralmente com o cheiro do tabaco. Como cães que passaram pelo teste de condicionamento de Pavlov, as pessoas associam um cilindro de papel e fumo à sua destruição, a dentes amarelos e à barriga que cultivam – elas mesmas – através da péssima alimentação. Quanta merda.

Hoje seria o dia em que a embaixada liberaria a primeira parte da papelada, principalmente aquela referente ao árduo condicionamento físico. Talvez essa fosse a parte mais difícil dos exames para a viagem marroquina: provar que eu tinha condições físicas para agüentar tantas horas sentado na cadeira de um avião sem surtar perigosamente, e mais ainda: que eu sobreviveria tranqüilamente por minha própria conta e risco num país em que o conforto e a segurança pessoal não eram, com certeza, a tônica. Obviamente, se quisesse, eu não poderia pôr no formulário que, em caso de problemas maiores, eu poderia recorrer à minha valise de complementos psicotrópicos. Na teoria, as regras do jogo diziam que eu deveria estar, por mim apenas, capacitado para enfrentar o que viesse. O dia seria decisivo para mim, uma vez que, além dos testes, da nova sessão com o doutor e Henry Lee, eu deveria ainda tentar consertar minha vida, começando em um novo emprego. Mais uma vez, eu tentaria seguir carreira em um grande jornal.

Vai. Tenta fazer uma continha com sono. Quero ver. Na época da escola, eu aprendi a somar na base da porrada. Tudo bem que meu pai era louco, mas isso serve para provar que matemática não é uma função natural do ser humano. E quando você fica com sono, você vai, pouco a pouco, perdendo as habilidades que não são naturais. Até que você vai perdendo as naturais também e acaba apagando. Por que eu digo isso? Bem, na noite anterior eu havia ido dormir às três e meia da manhã. Talvez às quatro. Então eu tirei um breve cochilo até às seis e meia, quando acordei de um sonho em que eu matava a aula de novas tecnologias do jornal - sim, nós teríamos que aprender sobre segredos de computadores para, no fim, desempenhar a função mais antiga da humanidade, depois de trepar e cagar: contar uma história. No sonho, eu não ia à aula, e fazia isso apenas para beber um refrigerante em frente ao jornal com um colunista famoso. Matávamos aula - eu tinha certeza de que ele detestaria a aula - e íamos tomar uma coca num bar em frente à redação. Bom, mas eu acordo desse sonho estranho e fumo um cigarro. Sem o colunista ao lado, obviamente.

Tomo coragem e parto para a embaixada. Sim, às sete da manhã, eu saio de casa em Underdogsville, com a esperança renovada na cidade, e já preciso lidar com testes e burocracia. Eu havia lembrado apenas na véspera que aquele seria o dia D. Não estava indo ao curso preparatório para ex-viciados que só querem ganhar o mínimo de massa muscular e sumir para outro país, a fim de começar a se drogar de novo; mas falando outro idioma com os horrorosos de sempre. Photo çekilibir myim? Chego ao complexo e sou instruído por um encarregado do setor de Funções Vitais e Organização de Pensamentos do órgão, em frente ao laboratório de química eletroanalítica. "?", você diria. Eu responderia "!". Prédio vazio, laboratórios, primeira prova: economia aplicada ao mercado internacional de troca e evasão de divisas. Delicinha, baby. Delicinha. Ainda bem que guardei a prova para poder rir de novo mais tarde.

Perceba essa questão: "Seja o custo total de produção de um bem em um mercado perfeitamente competitivo dado por CT(Q) = 10Q.Q + 5Q + 100. Encontre agora o intervalo da quantidade Q em que as firmas ofertam este bem no curto prazo, mas não no longo prazo". MAS NÃO NO LONGO PRAZO, ENTENDEU? Tentei transcrever a equação, pensando no ramo das transações de narcóticos; tentei imaginar um lucro a longo prazo. Mas a expressão “a longo prazo” só me fazia pensar em como você nunca sabe o que pode acontecer a longo prazo. Arrisquei essa resposta, mas essa questão não era a mais difícil. A mais difícil tomava o verso da prova inteiro e continha gráficos lindos, cheios de linhas e curvas e sinais negativos. Mas enfim, era delícia. Sono? Não... eu nem estava com sono. Eu estava com tanto medo de que a comissão julgadora percebesse o quanto eu ignorava tudo aquilo, que eu já estava absolutamente acordado.

Na verdade, eu havia chegado à embaixada às sete e meia, e a prova só começava às nove. No intervalo dessa tortura, eu deveria ir ao ginásio e passar por testes de resistência e respiração sobre os quais eu não sabia nada. Bom, eu salto então de um taxicab, tentando expelir o máximo de ar que podia, para limpar o pulmão. Faço também alguns exercícios ridículos no meio da rua, o que me causa uma pequena câimbra nas costas. E caminho roboticamente para o ginásio, supondo onde o prédio deveria estar, segundo eu me lembrava da última vez, há um mês, em que falhei no mesmo processo. Percebo que vou, ao mesmo tempo, em direção a um barulho de máquina - e máquina às sete e meia da manhã - alto-chato-barulho-poeira-barulho mais alto- brrr-cedo-brrrrrrrrrrrrrrrr. Olho para a porta do ginásio e na verdade vejo um descampado, com dois tratores remexendo a terra, como dois besouros gigantes que riam da minha cara. Onde puseram o ginásio? Jamais descobri. Enfim, fiz a prova de divisas, fui comprar cigarros - desesperado - e todos - TODOS - os lugares que vendem nicotina estavam com os stands ali, vazios. Sem problema. Pelo menos não estou com sono. Mas como eu acordei muito cedo e não dei tempo a meu travesseiro, meu cabelo amanheceu de mau-humor. Eu estou parecendo um menino preguiçoso que come seus cereais e sai para a escola com remelas nos olhos.

Terminada a tortura mal-sucedida, sem nenhum novo resultado sobre meus papéis, pego um taxicab em direção ao jornal. O motorista me vê e diz, no seu código pessoal de boas-vindas: "tá na sombra... tá na sombra." O carro? O carro não estava na sombra. Quem está na sombra? Eu estou na sombra? Bem... Saímos. O motorista é gordo, peludo e tem uma voz extremamente grave de João Ubaldo e faz comentários bobos. Constrangedoramente bobos e num tom muito profundo e lento: “uma sééérie de áááárvores..... uma sééérie de áááárvores.... estão florindo”. Deus. Ele olha para o termômetro da rua: “Quarenta graus? Em Underdogsville? Às 11 da manhã? Quarenta graus? Em Underdogsville? pffffff...... O que vc acha?”. Eu respondo "estranho" e imagino que provavelmente tudo o que ele queria era uma deixa para começar uma conversa de gente. Agora eu estaria salvo. Mas ele: “Pois você sabe que onde eu nasci as árvores estavam sempre cheias de crianças?”. Meu deus. Fora o fato de que o homem dirigia de uma maneira muito esquisita, tomando os caminhos mais longos e fechando os outros carros. zuuuuuuuuum... bibiiiiiiiiiii... ziiiiiiiiiiim... porra! bibiiiiii... eu não entendia nada.

Seguimos assim, até que, já quase em frente ao túnel, após o retorno mais burro do mundo para enfim se dirigir ao Centro, o trânsito pára por um segundo. Paramos. Oquei. O sinal abre. O carro da frente sai. Silêncio. Intervalo sem ação. O tempo perde o timing. “Anda”! Acho demorado demais para a partida e olho para ele. O homem está dormindo. “Opa! Vamos lá?” – eu digo para acordá-lo, com a difícil missão de inclusive mantê-lo acordado por todo o caminho agora. Saímos. Mas tudo anda mais rápido que nosso taxicab. O trânsito pára de novo. O homem fecha os olhos lentamente. “Oooopa!”. Ele acorda envergonhado e, fazendo beicinho, balança um “não” para ele mesmo com a cabeça. Ali, dentro do túnel, decido DECIDIR que vou abrir os vidros do carro e fumar um cigarro. Em parte pelo medo que eu sentia por causa do zigue-zague suicida que o homem fazia de olhos fechados-abertos – eu considerando fortemente a hipótese de aquele ser meu último cigarro na vida – e em parte para irritá-lo com o cheiro.
Eu, como numa terapia do anti-sono, pigarreava e soprava a fumaça na nuca dele; e ele parecia agradecido, por eu o estar ajudando a ficar desperto. Ele esboçava um sorriso e eu soprava cuidadosamente, tecendo teorias sobre o ser humano. ffffuuuuuu... hum-hum... ffffffuuuuuuu... hum-hum. Eu já estava quase desmaiando por ficar soprando daquele jeito, e ele ainda continuava pegando no sono e mudando de pistas sem sentir. Foi assim até a porta do jornal.

Saio do carro meio tenso e procuro alguém para trocar uma nota de cinqüenta valores – o bonachão não tinha troco – e ninguém tampouco resolve meu problema. Nunca foi tão difícil trocar uma nota. Quando volto para o carro, a fim de pagar, imagino o cara desmaiado de sono, babando, e eu batendo no vidro e o taxímetro rodando, e eu batendo mais forte no vidro, e ele acordando num pulo e com os olhos vermelhos, e eu constrangido. Mas chego perto do carro e ele está... de óculos de leitura, fazendo contas sobre seu lucro a longo prazo em um caderninho de controle.

Entro na redação já com vontade de sair, mas preciso do emprego. Senão pelo menos porque havia ficado acertado que meu primeiro mês de salário seria pago antes mesmo que eu começasse. Eu havia ganho uma licença médica plenamente justificável, assim que fui contratado, e já havia embolsado a grana. Arranjo um computador, ninguém me impede, sento-me em uma cadeira, abro minha agenda e simplesmente espero, fumando um cigarro. É sempre impressionante como me sinto no primeiro dia de um trabalho novo. As pessoas todas naquele ritmo, trabalhando, se ocupando de problemas e demonstrando um total domínio sobre suas tarefas; e eu ali, fingindo que também estou entendendo tudo. As pessoas dizem “opa!” para mim, eu digo “opa!” para as pessoas – e na verdade eu tenho vontade de dizer “e aí, cara, você sabe o que eu tenho que fazer agora?” – mas eu digo “opa” e ando de um lado para outro, com cara de quem está ocupado com alguma função. Até sei que uma hora ou outra alguma coisa vai aparecer para ser feita, e essa coisa vai me deixar baratinado com tanta importância – já que essa vai ser a primeira coisa que vou poder mostrar como um trabalho meu, certo? Essa tem que sair perfeita.

E aí eu fico andando, pensando no que vai ser essa coisa e se vou conseguir dar conta. Os telefones em volta tocam todos e sei que nenhuma daquelas ligações é para mim. Se uma voz se eleva e pronuncia um nome que parece com o meu, nem me preocupo – sei que não é comigo. E assim as horas passam, entre um cigarro e outro, entre um papo frugal e outro, entre uma mensagem eletrônica e outra. E as pessoas passando e cumprimentando e dando a impressão de que qualquer uma delas vai resolver meu problema e dizer: “me mandaram te passar isso aqui”. Mas isso não acontece e vivo intensamente cada “oi”.

Sei quem tem a solução para o meu problema. Sei com quem preciso falar para resolver meus horários, pegar tarefas novas e ganhar missões. Mas a pessoa está ocupada. Então fico vendo essa pessoa passando por mim, com papéis na mão, falando com outras pessoas que também estão ocupadas e decido que, caso chegue perto de quem pode me salvar, estarei sendo inconveniente. Aceno para ele, deixando claro que estou na área. Aceno com as sobrancelhas levantadas, para dar a entender que estou alerta, apenas esperando uma ordem. Mas só posso fazer isso uma vez, ou senão o cara vai achar que sou um obsessivo. Então é muito importante escolher o momento exato para acenar. Preciso estudar os menores movimentos dele para perceber minha deixa. Ele não pode perceber que estou prestando atenção nele, analisando... senão ele pensa que estou cobrando alguma coisa.

Preciso esconder metade do rosto atrás do monitor, curvar um pouco as costas e olhar com apenas um olho, lá do outro lado. E tenho que ficar ligado nas pessoas em volta, senão elas podem pensar que estou tramando um assassinato. Apesar de as pessoas em volta estarem ocupadas, elas falam ao telefone olhando para o nada. E como, numa situação dessas, você é o nada, muitas vezes elas olham para você com um olhar vazio, enquanto falam ao telefone. É complicado estudar os movimentos de alguém. A coisa que mais faço durante o dia é olhar o relógio. Não sei se torço para o dia acabar logo ou se quero que o homem se desocupe agora e me chame. Caso ele não chame, vai ser complicado. Se ele se esquecer que eu agora sou parte do time, amanhã vai ser tudo igual. Até o dia em que meu contracheque não vier e eu descobrir que, na verdade, nunca fui contratado. Que simplesmente não fui notado. Sou o fantasma do sistema. E o mais incrível é que, ao final do dia, estou cansado como se tivesse trabalhado o tempo todo. É realmente muito esforço mental. Um esforço que quase me traz lágrimas ao olhos quando finalmente ouço meu nome ressoar pela redação; límpido, cristalino; ameaçador.

Devo correr até o setor da fotografia, catar uma “repórter fotográfica” e descobrir o que um político imbecil planejava fazer durante a tarde. Aquilo parecia uma besteira, mas, de qualquer maneira, chega como uma excelente notícia para mim, ao menos algo para se fazer antes de apenas voltar para casa e dizer: “nada aconteceu hoje e amanhã não sei se volto. É capaz de ninguém dar falta”. Consulto meus telefones, falo com um e outro, e as fontes vão se multiplicando. Acaba parecendo o melhor fazer uma rota de restaurantes atrás do porco imundo e gordo. Detesto a ideia, mas oquei, sou um profissional. Passo correndo em minha cadeira, arranco a bolsa da mesa e faço uma rápida escala no banheiro, para uma cheirada absolutamente necessária. O roubo ao caixa automático já estava ficando para trás, e carrego comigo, ali, os últimos papelotes e baseados que aquilo havia rendido. Saio do banheiro voando, cantando um bop, e cato a tal da fotógrafa. Deliciosa. Pulamos no caro do jornal e pergunto ao morotista se ele se incomodaria se, enquanto faço ligações, eu fumasse alguma maconha ali atrás. Sem problemas.

O trânsito é louco e chegamos sãos, salvos e assustados ao primeiro ponto de apuração. O local é limpo e silencioso, e logo ali reconheço um traficante, que já me olha e diz: “veio atrás do homem? Ele esteve ali com o outro horroroso e já foi”. Como o outro horroroso era um trafica com o qual eu não mantinha relações, conseguimos fazer uma foto e pegar declarações. Oquei, agora sim eu tinha um furo. Saio correndo do lugar e telefono para a redação: “envolvimento com drogas”, digo ao chefe de reportagem, que, do outro lado, dá um salto da cadeira e pede mais espaço na página para minha matéria. Ele pergunta, quase que me dando um esporro: “Você tem CERTEZA disso?!”. Tenho. Voamos entre os carros, ligo para um ou outro enquanto me afundo nos intermináveis papelotes, falando cada vez mais rápido e pensando cada vez mais atomicamente, e a fotógrafa aceita uma cheiradinha; o que a faz enjoar um pouco. Me debruço sobre o banco da frente e digo em seu ouvido: “olha, garota, nem pense em ter um treco aqui. A gente acaba com esse deputado, nem que eu tenha que fazer as fotos eu mesmo. Acorda, abre os olhos, enxuga o nariz e vamos lá”. Ela então me diz, com um ar deliciosamente drogado: “eu estou bem. Sem problema”.

Descubro o segundo ponto. Entramos ali como vândalos, gritando “IMPRENSA” com sorrisos maravilhosos, e brincando um com o outro. A garota era legal. Estava curtindo meu trabalho. Até que encontro a prostituta com a qual havia falado ao telefone, convenço-a a me ajudar em troca de sigilo e ela me conta que havia acabado de trepar com o figurão, que seguia agora para um prédio público. O deputado havia até esquecido alguns papéis, dos quais me aproprio e que me fazem praticamente chorar de emoção. Aquilo era o dossiê completo que provava as denúncias atrás das quais eu estava, mesmo que não soubesse ainda muita coisa sobre elas. Peço então um uísque e engulo um preparado leve de anfetamina, só para agüentar o tranco. “Dor de cabeça”, comento com o bartender. Bebo gloriosamente o segundo copo, quando vejo a fotógrafa deixar o banheiro com o fundo das calças tingido de vermelho. Ela tem um leve ar de choro e precisa de umas bolas. Decido que agora vou cuidar dela.
Jade era muito frágil e seria fácil imaginar que o pó não surtiria efeitos positivos naquele corpo. Mas foda-se. Uma mulher precisa saber conviver com o universo de seu homem. E uma vez que eu era o repórter, e ela, a repórter fotográfica, ela era minha mulher. Eu poderia até dar um beijo no motorista, uma vez que ele havia se tornado meu pai por um dia. Éramos uma equipe, afinal. Naquela tarde quente, precisávamos nos apoiar um no outro para garantir que não morreríamos de insolação e tédio. Assim fazíamos, como ocorreu quando passei a mão em seus cabelos castanhos e ela se encostou em mim, deixando o seio direito roçar levemente em meu braço. Tive uma ereção e pensei no que devia ter ocorrido no banheiro. Eca, honey.

Não tínhamos mais um segundo a perder e, após nosso divertido coffee break, saltamos de novo no carro e seguimos até o prédio público. O porteiro não me deixa entrar sem argumento lógico, mas damos a volta pelos fundos e encontramos uma janela. Solucionado. Estamos dentro. Corremos silenciosamente pelo corredor, subimos um elevador rezando para não dar de cara com um policial, preencho meu refil de coca e saltamos no oitavo andar. Empurro a porta do deputado com o pé, gritando “IMPRENSA” e simplesmente dou uma gargalhada quando o homem, com o nariz branco, grita assustado “SEGURANÇA!”. Fazemos uma dezena de fotos da cena e o aconselho a começar a se defender. Minha caneta flui pelo bloquinho como um sax tenor completando a pulsação de um baixo acústico numa opereta bop, subindo e descendo, fazendo curvas, contornos, improvisando e assimilando, preenchendo páginas, virando páginas, riscando, corrigindo, sorrindo, gargalhando, e não paro de me mexer, olhando ao mesmo tempo para o homem e para o papel, sorrindo para minha fotógrafa alucinada e peituda que saltava como uma macaca na frente dele, click click click click click, fazemos uma pequena festinha de maconha e piadas bobas no carro, de volta à redação. O chefe de reportagem me abre caminho entre aquele povo falsamente ocupado e sento vertiginosamente em frente ao computador, batendo tudo mais rápido do que qualquer pessoa poderia supor e, num raio de velocidade, a menos de cinco segundos do horário de fechamento da edição, subo na cadeira e digo baixinho, murchando: “pronto”. Digo obrigado a todos, pego minha bolsa, entrego o dossiê completo ao editor para que ele pudesse escalar outro para o dia seguinte, passo na fotografia e reboco a mulher direto para dentro da noite. Uma grande quantidade de morfina é dada a ela, para garantir que eu ainda a teria comigo depois da atrasada sessão com Dr. Salieri.

Gotta catch that plane at seven-thirty
Why haven’t you come to say goodbye?
Time is running out and I’m still waiting
I’m so lost without you, I could die
Yesterday you said you loved me
Everything seemed to be fine
Today you’re not here; I’m so lonely
It’s the waiting that’s driving me out of my mind
Don’t know how I sing in that big city
How can I perform if you’re not there?
This will be the worst of all my journeys
The image of your face will follow me everywhere
I need your tender kisses
The feel of your hands; your caress
The perfume has me burning
My heart’s yearning to touch you, I miss you so much
If you’re not here, by my side
Can’t hold back the tears I try to hide
Don’t think I can take it
I know I won’t make it
Make it without you

O carro é uma sala-de-estar toda coberta de veludo em que a TV é o mundo todo.
E o avião é uma casa que leva as pessoas e que muda de endereço rápido demais para que você possa definir um CEP e mandar uma carta. Onde estará meu destino? Em que aeroporto eu encontro minha bagagem? Robby Rosa tem a resposta, alguém me falou. Eu me lembro que na época que eles faziam sucesso, as coisas eram mais simples. Faz sentido. O mundo precisa do Menudo de volta. Eles conhecem a solução. “If you’re not here” – esse será meu mantra. Puerto Rico - esse será meu destino. Passión - esse será meu nome. Penso nisso talvez como resultado do maravilhoso boquete que Jade me propicia enquanto os eletrodos emanam aquelas suaves ondas musicais e Henry Lee é apenas um junky vegetal ultrapassado. Casa.

Aí num susto eu me livro, saio, me olho no espelho do banheiro, e só o que aparece factualmente - friamente - é um sujeito com cara de pouco mais velho, mas suficientemente bonito para, num comentário de avó, “estar pensando besteira demais”. Mas alguns momentos antes, tudo que acontecia de confuso entre mim e Jade - e quanta confusão - explodia numa total incapacidade de consumar o ato sexual. Nada mais coerente, se você pensar que a mulher que já me chamava de “amor” e “gatinho” ficava repetindo “eu sou uma pessoa complicada” e “não estou no meu momento”. Meu deus, com a cabeça escondida no meu peito, a mulher soluçou, enquanto eu pedia para morrer. Que cena. Ela escondia o rosto da luz da rua que entrava pela janela e, quando eu perguntei “que foi? Você tá chorando?”, ela só faltou morrer de vergonha. Eu olhei de outro ângulo, tive certeza, e ela insistia em negar e engolir o choro. Numa hora dessas, você imagina que a melhor solução seja conversar, mas, por mais que eu tentasse, ela só fazia dizer “estou com medo. Não quero falar sobre esse assunto. Fala você aí.” Medo. E eu?

Bom, eu tentava abraçar a mulher e esquecer por um minuto que eu também já vinha, há horas, desde o momento em que começamos a tomar saquê, sofrendo uma “onda ruim pra caramba”. Eu também sinto medo e, naquela noite específica, diante do fato de que ela vai embora para outra cidade no auge da minha paixão – e eu já estava em paz com o fato de ela ir – eu percebi que, efetivamente, eu não tenho nada na vida. Não tenho ninguém. Nada que seja externo ao meu corpo ou diferente de minha mente realmente pertence a mim. Eu costumo ser budista nesse sentido e aceitar esse princípio como uma coisa maravilhosa mas, naquela noite, o fato de as neuroses dela me fazerem perder o controle até mesmo sobre meu organismo potencializou minha agonia. Eu não tinha a mulher, nada indicava que eu realmente um dia viria a ter, e eu, já naquele momento, não me bastava. E ainda que bastasse, eu não me tinha.
Lá pelo quarto cigarro mútuo, fumado deitado de costas, nu, olhando para o teto, ela me pergunta, como era costume entre mulheres: “posso dormir aqui?”. Eu digo que quero morrer e a única coisa boa que me ocorre naquele momento é a ideia de ela dormir exatamente ali. Ela fica, mas se distancia de uma maneira impressionante. Realmente, espaço físico é algo muito relativo. Minha cama nunca havia sido tão grande quanto estava naquela hora. Ela se afastou de uma maneira assustadora. E ela dormiu. E eu não consegui. E eu rolei na cama durante muito tempo e tive vontade de chorar. Minha vida passou inteira na minha cabeça e pensei em fugir para muito longe e começar tudo do zero. Melhor: não começar nada. Apenas ir para muito longe. Mas não fui. Quase chorei durante uma hora e meia, mais ou menos, até que me convenci de que eu só conseguiria dormir se a abraçasse.

Passei o braço por cima dela. Ela se afastou e disse, dormindo: “hummm... quente.” Estava muito quente. Me afastei e continuei tentando dormir. Impossível. Formulou-se na minha cabeça, com lead e sub-lead, a seguinte declaração, que eu faria em voz alta e seria compreendido: “eu não tô conseguindo dormir. Me abraça pra eu dormir?”. Mas no exato momento em que esse pensamento se completou, diante daquela muralha que estava deitada a meu lado, me senti mendigando carinho e simplesmente desisti. Continuei rolando na cama e tudo se apagou, até o momento seguinte, em que ela, já de manhã, me acordou secamente e disse: “gatinho, tô indo embora”. E foi a vez em que ela saiu da minha casa mais cedo, desde que começou a ficar por lá. E foi a primeira vez que ela dormiu comigo, depois de me mandar uma mensagem eletrônica com a pergunta: “será que meu tempo acabou???”.

Eu estava fracassando em minha tentativa de iluminar as mulheres. Drukpa Kunley, o grande asceta do sexo, talvez pudesse realmente envergonhar-se de mim. Mas eu estava tentando. Eu estava tentando. Eu já entendia, mas não podia pôr em prática. Não que compreender mulheres fosse um grande mérito. Elas não mudavam muito com o tempo, desde os tempos de Drukpa. Bastava consultar Bukowski e toda a bibliografia referente e você tinha um painel geral.

- Por exemplo: toda mulher guarda para sempre um quê de menina, já repararam? Não importa a idade, a tribo, o tipo de música que ouça, o cargo que ocupe. Tem sempre um momento em que você cativa e elas te olham com olhos de criança. E o senso de humor, a facilidade de cair na pilha, são de criança. E a voz na hora H é de criança. Por mais que seja quente e sexy, é de criança. Se você sorri com cara de “tô te sacando” - e é bom que você saiba fazer isso, sem vergonha nenhuma de demonstrar que você sacou - elas ficam levemente envergonhadas - umas mais, outras menos - e perigam perguntar “que foi?” com o ar mais desconcertado do mundo. E se você ouve a história mais boba, a fofoca mais cruel com cara de interesse, elas entram numa espécie de transe da empolgação e vão falando cada vez mais rápido e se permitindo comentários cada vez mais infantilmente cruéis. Crianças são cruéis. E se você está fragilizado, com medo de alguma coisa, inseguro, elas sabem exatamente o que te dizer - até porque durante séculos elas tiveram que aprender a lidar com seus próprios medos, já que nós, homens, não estávamos nem aí para eles. E continuamos nem aí. Se você não tem medo de dizer “estou com medo” ou de demonstrar que sacou quando é ela quem está insegura, você ganha uma espécie de cumplicidade entre meninos que te rende uma conversa tão proveitosa que acaba solucionando outros problemas que você ainda nem tinha percebido que existiam. Mas crianças são cruéis e, quando elas estão com raiva, são capazes das atitudes mais baixas que alguém poderia imaginar. Deus me livre de brigar com mulheres. Elas são muito melhores que nós nesse tipo de coisa. Eu enfrento três monstros, mas não brigo com mulher. Elas te destróem fácil.

Henry sabia como falar. E continuava.

- Ah, mulheres vivem de detalhes. Você não vai ficar se preocupando com detalhes, é claro, já que, se você fizer isso, você será, antes de ser homem, um paranóico obsessivo. Mas se você já tiver entendido o que são as mulheres, você vai agir de um jeito que vai fazer seus detalhes se saírem perfeitos. E você ganha uma mulher. Mas veja bem: “ganhar uma mulher” não é “pegar uma mulher”. “Ganhar uma mulher” é ganhar o direito de desfrutar de uma das coisas mais interessantes e completas que foram postas na Terra. É ter ao seu lado a única chance possível de sublimar a realidade que te faz um robô sem propósito. É ter com quem dividir cada momento em que você tem a estranha sensação de que você não é a rocha que o mundo quer que você seja. “Ganhar uma mulher” também não é “ganhar uma menina”. Lenin dizia que o comunismo era a doença infantil do socialismo. Ou o esquerdismo era a doença infantil do comunismo? Algo assim. Pois bem: a menina é a manifestação de uma verdadeira doença que, por vezes, é apenas um inchaço na alma que serve para diferir uma menina de uma... mulher. Talvez seja a natureza protegendo os filhotes dos adultos. A menina é a mulher no seu pior sentido. Nos caprichos, na manha, nos joguinhos, na indefinição, no caos, no excesso de racionalidade - o excesso de racionalidade é o resultado do medo e da falta de visão, coisas que só acometem aos que não são realmente racionais. Já que racionalidade é uma coisa simples como “pá-pum”. As mulheres sabem ser meninas na hora certa. As meninas precisam comer muito feijão com amor para virarem mulheres. Muitas delas nunca conseguem. É possível se relacionar de uma maneira legal com uma menina, mas eu digo isso apenas para não ser taxativo demais. Se eu fosse taxativo (ou realista), eu diria: é impossível se relacionar de uma maneira legal com uma menina, a não ser que você esteja procurando as coisas erradas. Cazuza, o poeta, dizia: “Eu vejo as pessoas se unindo pelos seus defeitos; e caminhando juntas como dois aleijados pela vida”. É mais ou menos por aí. Se você acha que vai resolver sua profunda insegurança, seu vazio, no momento em que encontrar alguém, você vai arrumar uma menina. Uma mulher não vai querer você. Uma mulher vai querer um homem - criatura que, no dia em que eu me dedicar a escrever sobre, eu me sentirei como um daqueles escritores clássicos, que viram pôsteres com imagens cafonas no fundo. “Serás um homem se fizeres...”. Terrível. Eu prefiro mulheres falando de homens. E eu só estou falando sobre um aspecto das mulheres. Quem sabe um dia eu entendo o todo? Por enquanto eu apenas adoro a convivência, nos mais diversos níveis. Obrigado por vocês existirem, amigas. Eu sou fã de todas vocês - menos nos momentos em que vocês se comportam como meninas de satã. Nesses momentos, eu tenho vontade de ser o próprio Sete-Pele para poder dizer: “vocês estão fora. Está nítido o que vocês estão fazendo. Não pode ser assim. Mulher tem que ser confusa!”.

Henry Lee realmente sabia se expressar, ou blefar, e foi aplaudido de pé pelas jovens e pelas senhoras da reunião mensal do Clube. Seu discurso tinha um quê de erótico, é verdade. Podia-se sentir a vontade do bom e velho sexo nas entrelinhas do que dizia, mas as mulheres pareciam gostar disso. Reprimidas ou hipócritas, as senhoras que vinham pagando seu salário de vigia noturno na sede da administração gostavam de ouvir o rapaz falando em nome delas. Muitas ali, ao verem o sujeito forte demonstrando ideias da mais profunda sensibilidade, desejavam-no. Algumas conseguiram alguma coisa, poucas tiveram uma segunda chance. O homem sabia se virar. E a rotina simplesmente não existia, já que seu eventual emprego de jornalista lhe rendia sempre novidades maravilhosas ao longo da semana, transformando segunda a sexta em dias memoráveis. E os sábados e domingos, bem, Henry sabia se virar.

Para mim, sábado à noite dispensa explicações. Sábado à noite é a aclamação da desgraça inevitável que se estende por toda a semana e da qual você não consegue fugir, a menos que jogue tudo para o alto e não se preocupe com o que vai acontecer na semana seguinte. O sábado à noite marca o homem como a brasa marca o lombo da vaca. Você não precisa estudar os hábitos de uma pessoa durante os outros dias para definir a que classe ela pertence. Você não precisa enfiar tubos e eletrodos na cabeça do homem e enviar os resultados para Massachussets, se quiser sondar as ondas cerebrais, a religião e o modo de reagir do cara. Basta assistir à figura delineando e aproveitando sua noite de sábado. Todo mundo sofre de segunda a sexta - uns mais, outros menos - e até aí nada de novo. Meus sábados à noite são de álcool, excessos, festas, gritaria e, sempre que possível, o bom e velho sexo redentor. Meus domingos são uma história à parte. E assim foi meu último sábado à noite.

Sábado à tarde foi o de sempre: demorei para fugir ao movimento inercial que a semana me impôs. Estava cansado de tudo e precisava puxar o freio. Terminei um livro, enchi a cara, mandei uns remedinhos para dentro, escrevi uma ou duas besteiras, falei ao telefone. Passei a tarde em casa, enfim. No fim do dia, o telefonema que confirmava a festa. O X que marcava a noite. As iniciais do senhorio no meu lombo holandês. yooooooooooom... almodamarghanamashterialooneylamalooneylama... um mantra antigo e híbrido se eleva do meu corpo até que eu caia morto e saia torto e afim de tudo que haja aí. Isso é a percussividade de sábado.

Voltando: calibrado até os ossos, pulo no taxicab e corro atrás de um cheeseburguer multinacional e encontro amigos – sempre amigos - e a mesa vira central de telemarketing - ligações para cima e para baixo, procurando gente que sabe o endereço da festa. Sempre o endereço da festa. Alguém que ouviu alguém dizer que chega antes e entra antes e prepara o terreno para alguém que traga as cervejas e tenha em mente uma história boa para desfazer o desconforto de, no fim, sermos todos penetras; até mesmo os que foram convidados, mas não conhecem a fundo a pessoa que faz aniversário e cede o espaço em volta da piscina. Eu fui convidado. Música, mulheres, e aquele ruído em uníssono que nada mais é do que centenas de pessoas falando ao mesmo tempo sobre assuntos completamente diferentes e nos volumes e timbres mais diversos. Coleman mostrou que isso existe na música, quando pôs um negão para tocar seu solo em paz e fundiu com outro negão na mesma onda e mais outro e outro, até que o resultado - era inevitável - exibia um tom que, se não tem nome, ah, com certeza tem cara. Assim é o uníssono da festa. Lhaaaaaaaam... Você ouve aquele som de sala de concerto quando abre a porta. Festa.

A noite vai passando e eu perdôo minha semana, meus pais, a Igreja, o jornal, e a noite vai fechando o ciclo do circo dos horrores da minha vida pessoal. E o sábado à noite transforma minhas tragédias em ironia. Dá para rir de tudo quando você brinca de dança da bundinha com uma amiga, com a cara completamente cheia de álcool, mas com total domínio do que está acontecendo. A noite vai crescendo e a onda vai mudando, até que um R.E.M. explode das caixas de som, na música que talvez expresse melhor o que o punk rock tanto se esforçou equivocadamente para mostrar: “It`s the end of the world as we know it (and I feel fine)”. wow! tatatatatatatata - a letra vem metralhando e sacudindo e liberando o “I don`t care” geral, até que o refrão explode - e naquela noite o refrão realmente explodiu, na cara de Lucas e na cara de Drukpa, e os dois se olharam e, mesmo antes de comentar, perceberam que aquilo era tudo. A música marcava o lombo holandês com as iniciais F.S.. FODA-SE. Está tudo muito louco, mas, afinal, a gente está aqui e, depois que o mundo acabar, como na música, tanto faz. Deixa o mundo acabar. Os dois pularam. Grande momento, depois de tudo.

Quando a música acaba, percebo que a loira do outro lado da pista realmente está interessada no que está acontecendo, embora ela não tenha - nem possa ter - a menor ideia do que está acontecendo. A mulher vai ao banheiro e vou atrás. Entro na fila. Ela sai do banheiro, pergunto o nome, confesso que estava sacando aquilo tudo que era ela desde o início da coisa, e ela diz sentir o mesmo. Pronto: resolvido. Eu só parava para comentar sobre assuntos diversos com os amigos, e fiquei feliz quando percebi que estava tudo bem. Eu podia, naquela noite, me ausentar do assunto e voltar, sair de novo, pegar uma cerveja, voltar, engolir a loira, voltar... Tudo bem. A noite termina no domingo.

No domingo, acordo ainda um pouco bêbado, nu - grande novidade - e lanço uma calça curta, preta, mais velha do que acordar nu no domingo. Acendo um cigarro, coço a barba de quatro ou cinco dias e me encaminho para o banheiro. Tori, a japonesa, está em pé no corredor, falando com a porta da privada. Hein? Alguém está ali. Ouço de longe um uníssono típico de festas, mas, vá lá, devia ser no vizinho. Até que a porta se abre e, de biquíni tropical-ecstasy-pele-curvas-eu quero, surge uma criança do prazer, saindo de dentro do lugar onde minha urina pedia para entrar. Hummmm.... domingo, é? Vamos vivê-lo. Tori então me diz: “essa é Melissa, e tem um monte de gente lá em cima, fazendo um churrasco”. “Churrasco?”. “É, sobe lá. Tem bebidas”. Claro que subo. E era domingo, ainda por cima, o que me desobrigava do banho social. Lancei uma camisa aberta por cima e parti para a carne.

Realmente, a piscina estava abarrotada de jovens perdidos, funkeiros do bem, gatinhas sangue-bom, carinhas no limite entre a rebeldia e o mais puro mauricismo subamericano - preconceito meu. Afinal, a gatinha que saiu do banheiro quando acordei continuava ali, rondando, linda, de biquíni, pisando descalça nas pedras com seu pezinhos maravilhosos e pegando as carnes com suas mãos de criança e rebolando com seu bumbum incrível e redondinho e sustentando seios sérios com o biquíni verde-tropical-churrasco-redondo-pele-sunday-eu quero você. Ah, e como queria.

Conversamos durante horas e a coisa evoluiu para um beijo que, estranhamente, depois desses dias de morte do coração, emanava carinho. Eu tinha carinho por aquela criatura. Claro que fiquei de pau duro, mas fiquei carinhosamente de pau duro com aquele cheiro que, não sei como, não se misturava com o cloro da água da piscina. Cheiro de sábado de manhã, eu diria bêbado, sem pestanejar. Tive vontade de fazer o possível para que o tempo parasse. E fiz. O tempo parou e só voltou a andar quando chegamos ao meu quarto, no fim da tarde, e, maravilhosamente bêbados e sujos de óleo e limão, nos mordemos e fomos tirando cada peça de roupa desnecessária. Tudo era desnecessário, a não ser aquele cheiro e aquela menina que se lançava ao sexo sem perguntar por quê nem questionar se eu ia telefonar no dia seguinte. Apenas vontade de sexo. E foi ótimo. E, para um domingo, foi realmente ótimo. O domingo marcou o lombo da menina com o X do... Não... O domingo marcou minha menina com o lombo do X do senhorio do FODA-SE. O que quer que isso queira dizer. Eu gosto da frase. Ela mostra a confusão e a troca de cenários.

Troca de cenários. Segunda feira foi provavelmente o dia mais importante disso tudo, já que, pouco antes da sessão começar, no bar do cinema, ela me diz: “eu não sei se eu devia te dizer isso, mas você me salvou. Eu já estava achando que não existia mais um cara legal por aí. Obrigado”. E me deu um beijo. E sorriu simples e clara. Mas hein? Eu? Como? Quando foi que isso aconteceu? Assim? De cara? Rápido, não? Mas eu topo a velocidade. Gelei. Quem é essa menina? E desde ali, todo dia ela me surpreende nas pequenas coisas e me provoca ataques de riso nas grandes questões. Ela sabe me interessar e parece que se interessa. Melissa. Daqui a dois dias, ela viaja para Paris. Antes que eu pudesse mostrar toda minha idiotice e fizesse um drama com isso, ela me surpreendeu e me convidou para “dormir mais tarde na véspera”. Onde andavam essas coisas, que eu não via acontecendo? Não era enquanto eu dormia, já que eu nem mudei de fuso horário. Ou será que ela realmente havia saído de dentro do ralo do meu banheiro, como resultado de tudo que se incorporou ao chão da minha casa - choro, livros, discos, fumaça, álcool, barbitúricos, programas de TV, solidão, amigos e tal? O fato é que ela gosta de bebop. E eu acho que gosto dela e quero cuidar para que tudo fique bem. Difícil falar sobre essas coisas.

Mas mais difícil ainda é falar sobre como, desde Hannah Valentine, eu simplesmente não consigo sentir mais nada. Enquanto tantos viciados perdem a capacidade de trepar, eu perdia simplesmente o amor. Toda forma de amor. E me viciava cada vez mais em experiências curtas e na sobreposição do mesmo mito, apenas baseado em pessoas de alturas e cores diferentes. Como num coquetel do Doutor, eu misturava bocetas terapeuticamente, a fim de manter uma média que, no fim, era igual a zero. Eu só tinha a mim e a Drukpa. Mas eu, Henry Lee Junky e um estúpido asceta morto não conseguiríamos jamais mudar a ordem natural das coisas. Estávamos fadados a definhar no discurso de alguém que lesse nosso livro alguns anos mais tarde. O projeto ia para frente, éramos já a mesma pessoa, mas o resultado do trio, no fim da contas, era simplesmente ninguém.

Talvez fosse melhor discretamente abandonar o barco e aceitar que provavelmente o que eu via do mundo era o resultado de uma equação que vinha há séculos sendo resolvida e aparada. Talvez fosse mais inteligente aceitar que eu era apenas mais um viciado inútil com mania de grandeza. Talvez fosse apenas cocaína demais; e cocaína levada a sério. Eu precisava pensar.
Saio então com Natalie e uma nova amiga, apenas bons amigos, e vejo pendurado em seu pescoço o cordão de ouro com o pingente que leva escrita a letra N. Eu havia dado a ela de presente há cerca de três anos, quando estávamos juntos, e ela ainda usa. Hoje mandei uma mensagem para uma amiga e, sem querer, acabei enviando para todos os recipientes dela. Uma menina que estudou comigo no colégio reconheceu meu nome e perguntou a ela por onde eu andava. Memória. Sobras, restos, finais. Um amigo que já não vejo há meses busca referências antigas para começar uma conversa. Já não me identifico com o que ele lembra de mim. O cara desiste de conversar quando percebe que já tenho os braços marcados, parecidos com um jogo de liga-pontos. Agilidade e defasagem. A noite passa e minha vontade de agarrar alguém e morder a nuca vai se transformando em desânimo e cansaço. Dou uma passada no banheiro e me sinto absolutamente ridículo, flagelando meu antebraço com uma seringa, em busca de sei lá o quê.

Amanhã é sábado e já até amanheceu. Hoje é sábado e logo, sem que eu tenha revolucionado nada, será domingo de novo e outra semana começa. Quanto tempo até poder olhar para trás de novo e perceber uma cópia do que vem pela frente? Quanto tempo até olhar para o chão e perceber que há muito tempo parei de crescer? Nada me vem à mente a não ser a calma que Miles Davis tem me concedido pela interindução, no taxicab, a caminho do jornal. A lagoa é um espelho diário do céu, mas apenas na superfície. Poucos centímetros abaixo da lâmina d`água, posso ver que há peixes mortos e restos de comida que se transformam em insetos inéditos e já até se locomovem. Foda-se o espelho. Eu sei do que ele é feito. De tempo. Para pensar, para descansar, para fumar demais, para se arrepender, para recomeçar, para virar a página, para resolver questões. Tempo para se arrepender do que foi feito às pressas e de tudo o que não se ousou por preguiça e ansiedade. O tempo é o preço de quem se apressa e a recompensa de quem se apressa e calha de agir da forma certa.

Automaticamente associando ideias e elementos, chego a conclusões que me guiam e selam meu destino segundo a segundo. Que instinto é esse que me faz destruir o que tenho e construir sobre o terreno alheio? Que instinto é esse que me faz perder o tempo que preciso para resolver questões urgentes? Para onde eu for, sei que vou levar a insatisfação e o desejo de viajar para longe. Sem bagagem.

Chego ao consultório de Dr. Salieri decidido a não mais interferir nas alucinações de Henry Lee, que, segundo eu havia ouvido, andava bem mais divertido e entretido que eu. Henry Lee Junky estava agora trabalhando como modelo. De passarela. O homem acreditava que o novo trabalho poderia lhe render viagens grátis, mulheres grátis, além de um passaporte para a fuga. Assim que os agentes o perdessem de vista em uma esquina escura de Paris, ele correria como um presidiário e ninguém jamais o veria de novo. Mais ou menos como em “Expresso da Meia-Noite”. O plano era simples, e eu próprio já cogitava trilhar o mesmo caminho. O da moda, quero dizer. Uma vez que, se por um lado eu talvez não tivesse a estatura para desfilar, por outro eu costumava me sair perfeitamente bem em fotografias. Uma vez que eu tivesse toda a documentação necessária para viajar para onde quer que fosse, eu poderia me virar. E amizades não seriam problema, já que eu tinha contatos para abastecer todo o casting das agências com drogas injetáveis. Eu compraria adoração; eu compraria sexo; eu compraria o mundo. Ademais, o heroin look andava na moda. Eu estava feito.
Faço então meu dever de casa e induzo o vômito, limpando meu organismo para a sessão com o Doutor, e já feliz por estar me acostumando com a ideia da bulimia, que seria necessária para manter a forma em minha nova carreira, sem me privar dos prazeres gastronômicos. Vomito bastante – eu havia enchido a geladeira nos últimos dias e andava bem alimentado, rosado, saudável – e preparo meu estômago para o baque da ayahuasca. Penso que preciso discursar para Henry Lee e para o Doutor antes de ingerir o chá, uma vez que, tomada a primeira garrafa, não sobraria muito de mim para dizer qualquer coisa.

Faço a barba cuidadosamente, deixo a cama pronta para quando eu voltasse, deixo inclusive um copo d’água no chão, ao lado da cabeceira, limpo a passagem desde a porta da rua entre restos de todo tipo de coisa e ponho um disco de baladas de John Coltrane para tocar, programado para não parar nunca mais. Ganho a rua decorando: “Parabéns, Henry Lee Junky. Minha vida no momento está uma merda e chega a ser uma honra estar a seu lado, absorvendo suas histórias e compartilhando com você a alegria de caminhar na direção certa. Feliz aniversário – eu jamais poderia me esquecer – e espero que tudo dê certo em sua vida daqui para frente. Sei que fico no caminho, mas é uma honra ter sido parte deste livro que, eu sei, ainda vai mudar a vida de algumas pessoas”. Era aniversário da criatura. Provavelmente nem ele se lembraria da data, mas talvez a alegria de receber os parabéns contribuísse para um material excepcional durante o Interconscience e me ocupasse a mente enquanto a ayahuasca me destruía o corpo. Estava aí uma droga que me metia medo. Coisa que inca pré-histórico tomava não é para filho da cidade grande brincar.

O cheiro de incenso altera completamente o ambiente da câmara escura e, já de princípio, meu cérebro dá uma volta inteira na ideia de que estamos em algum ritual esquisito de Santo Daime, com todo aquele povo vestido de branco e entoando canções hipnóticas e assustadoras no meio da selva amazônica. Dr. Salieri agora é Mestre Irineu ou Padrinho Sebastião, com suas barbas longas e seu discurso apenas aparentemente inócuo e sem sentido. Meus olhos se arregalam e meu sangue gela diante da hipótese de ser confrontado com meu EU mais profundo. O que surgiria dali, num momento tão crucial de minha vida? Me assustava mais ainda a exata consciência de que, se eu tinha medo do caminho forçado pelo yage, no momento específico eu não hesitaria em tomar qualquer decisão que o cipó me determinasse. Fosse morrer ou matar, decepar ou me isolar, eu iria atrás e terminaria como Gallo, o escravo do Daime que eu conhecera uma vez, havia alguns anos. Um zumbi do Céu do Altar – unidade da seita em Underdogsville – encarregado de simplesmente ficar em silêncio em um cubículo abarrotado de artigos religiosos e sair apenas para beber o chá e cuidar de limpar a merda do padrinho que lhe era imposto. Eu não queria aquilo. Respeito o Daime, sei que escravos migram para todo tipo de lugar, mas, de toda forma, eu não queria aquilo. Não queria, mas não poderia evitar.

Em questão de minutos, enquanto os preparativos eram feitos, meus lábios põem-se absolutamente dormentes e sou capaz apenas de balbuciar “Parabéns, Henry Lee...Junky. Gosto de você do fundo do meu coração de luz. Espero não entrar na peia do Daime quando a gente embarcar nessa”. Henry Lee já havia assumido há tempos uma postura favorável, e apenas me manda examinar a consciência e me humilhar diante de Deus. Diante de Deus, por Deus e com Deus, agora eu estava decididamente fodido. Quase chamei por minha santa mãe quando o Doutor fechou meus olhos naquele ambiente cheirando a patchouli ou sei lá o quê, entornou meia garrafa daquele líquido de cor e gosto de terra em minha garganta e explicou que eu estava ouvindo a uma iluminação de Chico Corrente. A gravação arranhava assim:

- Eu peço a Deus que perdoe os meus pecados. Perdoe a mim, perdoe os meus irmãos. Eu peço a Deus que me dê a Santa Luz para eu amar Vós no meu coração. Vi Deus no Sol, Deus na Lua e nas Estrelas. Vi Deus no Vento, Deus na Terra e Deus no Mar. Todos sabem que Deus está em tudo. Todos se firmem e se componham em seu lugar. Eu digo a todos com amor no coração: Deus é quem nos dá a Santa Luz. Deus é quem dá o nosso destino pra nós sair deste mundo de ilusão.

Vozes agudíssimas de mulheres se sobrepunham às dos homens, elevando-se aos espíritos naquelas gravações clandestinas, feitas pelo próprio doutor que parecia ter um sério problema com algum tipo mórbido de prazer em nos fazer sofrer. Os hinos seguiam-se em uma dimensão imensurável de tempo, um frio me gelava os ossos e, pouco a pouco, não poderia distinguir entre mundo real e projeções da mente. O médico lia em voz alta trechos do minucioso Livro das Mirações, de Alex Polari, num tom monocórdio e assustador que ia, pouco a pouco, conjugando-se aos chocalhos dos fiéis, Tsh-tsh-tsh-tshic-tsh-tsh-tsh-tshic, ia se revelando profundamente acolhedor e me lembrava muito as vezes em que meu pai lia histórias antes que eu dormisse profundamente. O hino seguinte vem como um soco na barriga e me faz refletir sobre o que vinha rolando desde minha mais tenra infância – o que me fazia questionar a validade de tudo aquilo. Que tipo de ser poderia querer que eu voltasse a ser o que eu nunca na verdade quis para mim?

- Vivia fanatizado por toda esta ilusão. Pensando que ia direito no caminho da perdição. A ilusão é riqueza que não engrandece ninguém. Antes faz é tirar o valor que a gente tem. Quando eu cheguei nesta casa do brilho do amor, a Rainha da Floresta a meu Mestre me entregou. Meu Mestre me recebeu, que a Rainha me entregou, mandou-me que eu trabalhasse para eu ter o meu valor. Quem me guiou aqui foi a sempre virgem Maria. Meu Mestre me recebeu com prazer e alegria. Todos nós que chegar na casa da Mãe Divina, ela vem nos entregar ao Mestre que nos ensina.

Antonio Gomes. Como alguém com um nome comum assim... Eu nunca conheci Antonio Gomes. Henry, eu sede. Ai, me dá um copo d’água. Um copo-garrafa de...luz Desculpa. Preencha meus buracos perfeitos para se encher de líquido e hummmm... escuro... Pai, me abraça e não me deixa descer pelo ralo agora.

- Sou filho do sol, sou filho da lua, sou filho das estrelas porque elas me pertencem. Sou filho do sol, sou filho da lua, sou filho das estrela porque elas me pertence.

Tsh-tsh-tsh-tshic-tsh-tsh-tsh-tshic-Tsh-tsh-tsh-tshic-tsh-tsh-tsh, não estou com vontade de voltar para casa e caminhamos pela praia, de madrugada, no mais perfeito retrato de duas pessoas que passaram por toda a cidade e chegaram, a pé, ao fim de tudo – eu procuro a Maravilha - duas pessoas que estão na ressaca do mundo, e não conseguem extrair nada de produtivo disso tudo - duas pessoas que vagam desesperadas e suando, como que saindo da cena do crime, espantadas com o que viram e duas que talvez tenham visto o que era realmente o que elas mesmas fizeram - eu nunca tinha dado uma festa de aniversário, e ela, tenho certeza, já tinha ouvido falar em pessoas ruins - ela monta cavalos e tem cabelos lisos, muito compridos, veste-se de jeans e monta cavalos e por outro lado, ela decidiu comprar o bicho num leilão, porque estava completamente bêbada e se apaixonou pelo animal – eu monto cavalos de areia e flores – cabelos enormes e olhos azuis maiores ainda – pai, me tira de perto do monstro que pica – ssssssssmiração de amor - Tsh-tsh-tsh-tshic-tsh-tsh-tsh-tshic- tsh-tsh-tsh-tshic-tsh-tsh-tsh-tshic – sim eu, sorrindo substância na cabeça, respirando o frio daqui e deixando fluir, como faço - voilá, água e quem me diz que foi Deus? De onde alguém consegue tirar a teoria absurda de que uma força sem pai sai criando as coisas, sabendo exatamente no que vai dar? E, se sabe, quem me convence de que existe um plano maior para que ela tenha dado forma a vou estar alegre, mas vou me esforçar para lembrar que é possível esquecer que eu tô aprendendo a nadar e já é esforço muito grande músicas tristes a homens anestesiados diziam que ia sair o cheiro então garantir que alguma coisa venha comigo quando eu não puder ir mais a lugar algum e decidir apenas sumir bacana-escritorzinho estrebuchando no chão interessado apenas em ocupar espaços vagos encontrar a Maravilha simplicidade alegria aceito. A música pára e volto, num estalo.

Tudo faz sentido no final. Eu estou mais uma vez pronto. Não saberia para quê, mas estou pronto. Não produzimos nada dessa vez, e Henry Lee Junky fica em pé, com o olhar mais vazio que eu já havia visto, mesmo quando a música pára e os chocalhos emitem seu último eco nas paredes da câmara. Henry entrou na peia definitivamente e não podemos tocá-lo, apenas entoar algumas páginas do hinário do Daime, a fim de dar-lhe repetidas novas chances de voltar ao mundo.

- Com certeza, a minha história, por onde eu já passei, mostrando a Santa Doutrina, a todos eu ensinei. Com firmeza, a nossa doutrina, por onde está passando, mostra vossa disciplina e a todos está ensinando. Viva os mestres desta força, que é quem nos traz o remédio contido no Santo Daime. Ele vai dando a quem lhe pede. Recebemos com amor enquanto nosso mundo está girando. Como é bom cantar em roda com nosso Mestre nos ensinando.

Padrinho Alfredo Gregório não era o suficiente. Dr. Salieri então me pede para, a despeito do retumbante fracasso desses dois dias sob o yage, confiar-lhe Henry Lee, surpreendendo-me com sua falta de fé.

- Vamos deixar a cargo do tempo e de, mais uma vez, pó e heroína. Afinal, o garoto é apenas Henry Lee Junky; e não alguma entidade da floresta. Traremos seu Henry de volta, mas lenta e gradualmente, através do equilíbrio perfeito entre as duas substâncias.

Que choque ouvir aquilo, depois de tudo. Não fazia mais sentido brincar com coisas tão mundanas. Eu queria era o amor, não um abraço do vício. Balancei a cabeça, acendi um cigarro, rodei nos calcanhares e simplesmente mergulhei de volta na realidade crua de Underdogsville. Eu tinha diversos assuntos a tratar.
Sem ao menos fazer escala em um restaurante, sigo então para o jornal, com os olhos injetados, as mucosas lacrimais quase voltadas para o lado de fora, com a sensibilidade aguçadíssima, e como que megassentindo o mundo em volta. Megassentindo a cara das pessoas, megapercebendo quando alguém é legal ou não, megaouvindo as pessoas falarem. Parece que estou dentro de um aquário ou me recuperando de uma anestesia geral. Parece mesmo muito quando operei a cabeça depois do acidente, em 1836, e estava voltando à realidade. Eu me lembro que, na ocasião, quase chorei com o barulho das pessoas simplesmente cochichando. De qualquer forma, é muito estranho. Parece que sou apenas esses sentidos. E eu sinto até o ar pesando sobre meu ombro. Até o ar é pesadérrimo e os compromissos parecem sentenças de morte. Cada problema parece serem três e eu megaquero que tudo pare e eu possa realmente descansar. Nem sei mais se me preocupo com o que vai acontecer comigo, já que nem tenho mais juízo de valor sobre o futuro. Megaentendo que a realidade, no fim, não passa de um conjunto de vibrações. E se você está aberto para megassentir as pessoas vibrando, fica tudo muito intenso. Quero colo. Nunca mais me drogarei de novo. Foda-se o livro. Me deixa sair vivo, pelo menos.

Tenho então uma síncope bem no meio da redação e desfilo impropérios para o pessoal que cobre polícia, discursando sobre como eles estão equivocados, expondo a vida de gente que simplesmente não tem opção, e que se droga por motivos que eles provavelmente jamais compreenderiam. Aquilo me rende a demissão por justa causa mais bem aplicada que eu jamais pude imaginar. Antes mesmo que eu terminasse de expor minha teoria, o chefe de reportagem me entrega um documento timbrado e com carimbo de cartório, que fala algo sobre eu jamais trabalhar ali de novo. Ignoro o papel e sigo calmamente até a ilha onde ficavam os repórteres e editores de moda, que assistiam a meu chilique com um ar de profundo respeito. Aviso a todos que vou me lançar como modelo e ganho um convite para um jantar com agentes do negócio fashion. Tudo oquei mais uma vez.

Saio correndo da redação, fumando três cigarros ao mesmo tempo, ligo para três estúdios profissionais de fotografia, troco três palavras com três produtores de moda e, em três minutos, começo a trabalhar em meu book. Tudo muito clean, andrógino, pouquíssima roupa, algum batom, algum sexo sugerido. Em três exatas horas, o material está impresso e passo em casa para tomar um banho e fazer as sobrancelhas. Eu precisava mesclar inteligentemente meu ar selvagem com uma certa delicadeza homossexual e moderna. Aquilo não seria problema, já que eu saberia transformar o profundamente doloroso ritual de pinça e cera quente em uma brincadeira qualquer. Lanço um Lou Reed no volume máximo, cato um jovem bonito que também vagava pelo estúdio e brincamos de gato e rato no banheiro, jogando água um no outro. Eu precisava aprender sobre moda. Eu precisa aprender sobre coisas. Transamos louca e docemente. Eu estava muito sensível. Não consegui uma ereção, mas, afinal de contas, com Jade não estava sendo muito diferente. E Pablo realmente gostava de mim. Ele teve cuidado, de uma forma que eu já não conhecia. Ah, eu o contrataria. Talvez eu abrisse mão de um contrato internacional para fazer o moreno Pablo feliz. Dormimos juntos, nus, de colherzinha, logo depois de um longo e perfumado banho. Eu merecia.

No dia seguinte, Pablo não está mais lá, mas me sinto preparado para arcar com o que fosse necessário até minha fuga desde o outro lado do mundo. A futilidade sempre me atraíra profundamente e agora eu quase chorava de emoção ao imaginar ambientes limpos e bem iluminados em que todas as pessoas presentes fossem ótimas opções para a noite. Meninos e meninas brancos e negros, japoneses, reluzentes ou alvos, cheirosos, bem cuidados, a elite do planeta louca por sexo e cheia de inseguranças. Um prato cheio para um aproveitador como eu.

Chego à recepção da agência mais bonito e interessante do que qualquer um, sóbrio, esperto, todo sorrisos maliciosos e bem-sacados, dentro de um terno reto e negro, de três botões, gravata verde-alface bem clara, monocromaticamente combinando com a camisa italiana. Sapatos de bico quadrado alemães e um discreto gel nos cabelos, ressaltando um topete incrível. Os olhos levemente pintados de rímel ressaltavam o verde que a natureza havia depositado ali, quando na data de minha estréia no mundo. Eu estava fatal, com meu lucky strike marcando cada gesto perfeito. Além do mais, toda a minha roupa combinava perfeitamente com as cores do maço, deixando apenas o vermelho do rótulo projetar-se, chamando a atenção para o fato de estar ali um fumante esperto. Isso tudo me garantia que eu estava realmente bem-vestido. Vestir-se segundo as cores de um maço de cigarro é sempre uma boa medida.

Chego e sou imediatamente apresentado a um headhunter e a sua nova namoradinha ruiva. Quem a bicha pensava poder enganar? Não a mim, certamente. Conversamos um pouco, entrego o book, comemos pastas exóticas com vinho tradicional, circulo como um cafetão pelo ambiente, me movendo o máximo possível para ser notado, e termino a noite descabelado, numa limousine branca, sendo violentamente enrabado pelo dono de uma agência. Bingo. Eu estava dentro.

Algumas horas se passam até que eu possa realmente chorar por ter mais uma vez injetado aquela coisa no braço direito, cheirado aquela outra, e recebido ainda outra por trás. Desabo na cama como uma menina estuprada, viro meio frasco de calmantes com um copo d`água, e só me levanto – sob uma Billie Holiday chorosa, que canta lindamente “You go to my heeeaaad... like the bubbles in a glass of champaaagne...” – para limpar a pintura negra, borrada, da cara. Procuro um cigarro no bolso e encontro um papel com algo referente a “circuito nacional” estampado em lilás. Eu estava decidido a aceitar. Meu plano era maior e a droga me ajudaria a perder a sensibilidade. Sem Henry Lee por perto, eu chegaria longe. Em nome de deus, eu chegaria longe. Eu precisaria apenas... hummmm... onde estão minhas fotos? Meu passado? Minha infância simples no interior? Deus, meu bar-mitzvah! Quase já havia esquecido da emoção de minha avó. Olha a cara dela aqui, do meu lado, apontando para meu kipá! Olha eu aqui, meu primeiro porre! Gente, como eu era bonito! Que bochechas! Ai, pára tudo que eu quero voltar! Esses agentes precisam entender que, na verdade, eu sou uma pessoa simples! Eu tenho sonhos! Eu tenho Deus no coração! Eu preciso casar com alguém legal... Ter minha casinha.... Sabe, carreira de top não é para sempre, não. Quem vê nem imagina pelo que a gente passa.

Semana de Estilo Carbon Sampa Fashion Bazaar. O techno marca as passadas firmes das modettes e os bloquinhos da imprensa se apressam para encher páginas e páginas de absolutamente nada, uns atuando para os outros, distinguindo-se da massa apenas por suas credenciais iluminadas, sentando-se nas primeiras fileiras das laterais. Sussurros, fendas, decotes, assimetrias, bojos grandes e tendências novas, os asteriscos mentais no alto dos olhos após a cheirada elegante no camarim. Peitinhos pequenos e bocetinhas quase adolescentes de modelos deliciosamente neuróticas e bulímicas dividem meu campo de visão com jovens fortes e imberbes, o state of the land em matéria de pênis castos e bumbuns delicados de anjos. Quantas opções à mostra, e eu, aqui, absoluto, promovido a molde de beleza nacional, arriscado a ser trocado por camelos por algum sultão que me compre a liberdade no Barheim. Eu aceito. Três na fila, antes de mim. A loura anoréxica que me paga um boquete discreto atrás da arara dos couros enfim encontra sua overdose branca e cai, silenciosamente, relaxando a boca e abrindo um lugar na espera pela arena dos olhares invejosos. Estou prestes a brilhar.

A rotina é diária e me esforço tanto para expressar no olhar o total desprezo por estar na passarela – como manda a cartilha – que até consigo me convencer do fato de que realmente cago para aquilo, e nem guardo lembranças dos momentos em que sou alvo da cobiça de tanta gente. Afinal, no fim das contas, meu trabalho é vender a roupa, e não a mim mesmo. Isso é com as estrelas de cinema. Me preocupo apenas em cavar meu espaço no circuito internacional e encontrar Henry Lee Junky lá na frente. Espero apenas que eu consiga chegar lá ainda me lembrando de qual era o propósito disso tudo. Quanto a ele, idem. E assim se passam meses. Sou o rei do pico entre as colegas, o rei da pica entre os meninos, o rei do passo entre os aplausos. O príncipe do dono da agência. Mas agora preciso me manter fiel. Preciso me manter fiel. Quase ninguém entende realmente como eu podia me dizer apaixonado por aquela figura gorda, de cabelos oleosos e óculos de armação pesada, vestida constantemente de cores cítricas e ofuscantes. Mas Giorgio estava satisfeito comigo e, toda noite, me falava sobre Milão.

Eu não pensava sobre muita coisa quando ele realmente viajou com fotos e material em videotape do elenco da agência, prometendo me mandar notícias excelentes sobre contratos com a Prada. Promovi então uma festa em sua cobertura de High Carbon Sampa, para comemorar a possibilidade e, em segurança, voltar a exercer meu papel budista de simplesmente comer bocetas. Há quanto tempo aquilo não acontecia? Deus, há quanto tempo eu não fodia, por exemplo, uma funkeira suadinha ou uma lolita do discurso ensandecido? Não que aquelas modelos que estavam ali agora fossem realmente mulheres. Elas eram ícones. Mas ícones bocetudos. Aquilo já seria alguma coisa, naquela altura.
Elas chegavam bem-vestidas, sorridentes, vazias, como tamanduás, farejando o pó que estava cuidadosamente disposto sobre bem cortados pedaços redondos de espelho, estrategicamente colocados na cabeceira dos sofás, puffs, poltronas, recamiés, divãs e da cama. Um ambiente perfeito para a festa mais completa dos sentidos. A cobertura simplesmente fervilhava com lésbicas vomitando no vaso sanitário a única rúcula do dia, veados esguios se sacudindo e esfregando línguas sob a trilha sonora mais contemporânea, européia e hype do mundo, gatinhas do interior convertidas a pin ups descobrindo as maravilhas da heroína e cumprindo o ciclo natural da sobreposição de clientes de traficantes que, esses sim, pareciam não se divertir, tensos com a possibilidade de uma armadilha monumental. Eu não me barbeava há alguns dias e já parecia um policial. Ou um repórter. Estava no sangue. Diante daquele ambiente maravilhoso, eu me esforçava para conseguir estar entre as bichas e não deixar transparecer toda minha heterossexualidade há algum tempo reprimida. Levar na bunda, nunca mais. Pelo menos não naquela noite.

Até que percebo Giulia Lowenthal, uma ninfeta de 18 anos, já veterana dos circuitos, completamente ligada numa onda de ecstasy e se encaminhando sorrateiramente para o quarto azul, acompanhada de uma outra menina qualquer que, sem maquiagem, se parecia com qualquer uma da festa. Solto uma sonora gargalhada sobre uma piada absolutamente sem-graça de um daqueles veados e sigo para o quarto, com ar de quem vai regular o ar-condicionado. Fecho a porta atrás de mim e ameaço: “se alguma de vocês abrir a boca, saibam que nunca mais trabalham de novo. Giorgio confia em mim e, no final das contas, se der tudo errado, eu não vou ter nenhum problema em acabar com a vida das duas”. Eu estava visivelmente ridículo com aquele discurso de vilã de novela. Minha sorte foi que elas realmente estavam profundamente interessadas em sexo naquela noite. Provavelmente não por motivos naturais, congênitos, mas ao menos pela combinação de E e cocaína pura como a face de Deus.

O silêncio do quarto é perfeito, hermeticamente fechado em relação ao resto do apartamento, e só o ar-condicionado emite um ruído muito baixo, rítmico, gostoso. O cheiro do ambiente é exatamente o delas. Perfumes leves e extremamente femininos, que me faziam parecer a mais máscula das criaturas, com meu odor de relativa falta de banho e minha barba meio crescida. Eu estava irreconhecível para as passarelas, e extremamente familiar para mim mesmo. Eu conhecia as conseqüências daquele estado: eu acabaria com as duas naquela suíte. Ajoelho-me então sobre a cama, chegando perto da dupla, que se lambia e tirava as roupas uma da outra, soltando risinhos e me chamando com o dedo. Elas rebolavam, se embolavam, giravam no lençol, agarravam minha coxa e me mordiam. Sou atacado por trás por uma delas, a desconhecida, que me arranca a camisa e me lambe as costas, enquanto Giulia, delicadamente, abre minhas calças e me deita soberano. As duas ficam nuas e me beijam ao mesmo tempo, uma lambe minha orelha da maneira mais perfeita que alguém jamais fez, quase choro com aquela língua voltando aonde originalmente pertencia; e eu voltando ao que originalmente nunca deveria ter deixado de fazer, chupo agora uma delas enquanto a outra cheira mais um pouco do pó e geme de frio, para depois voltar, checar meu pau e.... nada. Nada. Nem um pulso de ereção passa por ali. Nem uma gota de sangue se decide a engrossar aquele excesso de pele que pende entre minhas pernas, rosado, casto, puro. O ar congela.

Um frio insuportável me sobe pela espinha e, ao mesmo tempo, uma consciência maior do que estava acontecendo me toca, misturando-se automaticamente a meu velho e habitual cinismo autopreservador, e resultando em “desculpa, meninas, o meu lance é sexo oral”. Mentira. Me seguro para não chorar, pois percebo ali que uma parte de mim, depois daquilo tudo, havia finalmente morrido. Literalmente. Agora o lance era realmente injetar alguma coisa pesada e cuidar para não deixar o foie gras estragar. Para mim, a festa havia terminado. Desço para a Carbon Avenue, povoada noturnamente por crianças precoces, que se afundavam em crack, benzina e cola de sapateiro – as drogas da casta inferior – e, barbado e camuflado pela poluição, decido me juntar ao bando. Jovens de tão pouca idade que me recuso a citar trepam sem distinção de sexo sobre o calçamento do centro de Carbon Sampa, emitindo urros horrorosos e espalhando filhos pela noite. Junto-me ao bando, cheirando cola e evitando o fumo que – eu sempre soube – conheceria em mim o receptáculo ideal e me levaria à morte em questão de dias. Cheiro a cola e o efeito é muito simples: nenhuma graça, apenas o aumento do contraste entre os néons dos prédios e o escuro dos becos do centro. Uma sensação de tédio do tamanho da Subamerica também é bastante marcante, e masturbo uma adolescente de 18 ou 14 anos de idade, que deitava de pernas abertas ao meu lado, entregue a qualquer roedor degredado. Volto para o apartamento nem sei como.

No dia seguinte, acordo com uma vontade grande de me masturbar. Automaticamente, antes mesmo de abrir os olhos, puxo um cigarro, acendo, e passo a mão pelo tronco até onde deveria haver um certo volume. Nada. Parece que a noite anterior, desta vez, realmente havia vindo com toda a veracidade que poderia, e, agora, não me restava muito o que fazer, senão levantar, tomar um brunch na varanda e começar a me preparar para mais uma sessão de fotos. Abro os olhos e, ao meu lado, de bruços, está deitada uma das garotas – a outra ou outra exatamente igual – apenas de camiseta branca e meias soquete. Com a cara enfiada no travesseiro, aquela figura mais clara do que os lençóis tinha as longas pernas abertas e o volume logo à frente do bumbum era completamente depilado e cor-de-rosa. Um pão de mel pronto para ser comido. Deslizo para baixo e enfio a cara bem ali, para sentir o melhor cheiro do mundo e dar beijinhos que significavam todo o meu apelo para o fim da história. De toda a minha história. Eu queria entrar de cabeça naquela pepeca – esse é o termo exato – lambendo em volta até o útero. Me afundo ali e quase volto a dormir, respirando a intimidade mais profunda. A menina me sente, rebola um pouco, diz qualquer coisa bem baixinho e continua a dormir. Abro as nádegas e dou um beijinho, que a faz contrair ali, bem no meio, e me pergunto se não era hora de me isolar em alguma cidade mínima com alguém e me dedicar à exclusividade e ao estudo profundo do corpo humano. Eu não precisaria me alimentar a não ser dela. Mulheres são como vacas – o animal que te abastece de tudo o que é necessário. Ah, aquele pão de mel era tudo que eu queria ou precisava. Apago, para só acordar dali a algumas horas, exatamente a tempo de saltar dentro de um taxicab e participar da conferência por telefone com Giorgio, via cabo da sede da agência.

Num pulo, saio da cama e, olhando de volta para os lençóis, encontro um lindo bilhete da garota, com letras azuis, redondinhas, de criança. “Adorei ser seu travesseiro. Acorda, dorminhoco”. Uma mensagem definitivamente bem melhor do que o “Prada precisa de rapazes orientais este ano” que ouvi de Giorgio, em viva-voz, ao telefone, sentado em uma cadeira giratória no centro de Carbon Sampa. Aquilo agora servia de sentença de morte para meus planos imediatos de alcançar o exterior e pular o muro para a revelação final. Tenho um dever a cumprir, uma agenda a honrar, mas a dose de estimulantes me faz abrir os olhos e realmente ver o que estava rolando por ali.

Talvez por este ano a Semana de Estilo Bazaar ser dedicada à venda de roupas e adereços, diferente da esquizofrênica ideia de apenas “lançar tendências”, o centro estava relativamente cheio de garotas espertas, descoladas, bem-vestidas e loucas para esvaziar os bolsos. Grupos de seis, sete ou oito jovens eram uma constante, circulando entre os entendidos e lançando olhares curiosos. Circulo alheio a tudo aquilo, com as veias ardendo por uma dose nada bem aplicada da droga – talvez aquilo estivesse misturado com o satânico dilaudid líquido – e subitamente ouço uma voz familiar chamando meu nome. Aperto os olhos e, do meio de um grupo de bichas modernas, sai maravilhosa, num vestido fino e revelador, com suas sardas dominantes e seu astral recessivo, Hannah Valentine. Fico mudo. Penso em abraçá-la por todo o tempo em que estivemos separados e eu estive completamente perdido, mas ela apenas me dá um tchau de perto e diz, como só ela sabe fazer: “cara, você sabe o que eu penso sobre isso tudo”. Era o suficiente. E o máximo para ser apreendido superficialmente, antes que meu braço cheio revelasse a verdadeira essência daquilo tudo sobre o que Hannah diabos pensava.

Faces que se alternam e desejam “sucesso”, com seus ares de corações e clubes fechados. Vaidades que se esfregam e faíscam. Favores mais egoísmos que favores de verdade movimentam o que deveria ser o espírito de equipe e azeitam a máquina do trabalho. Vaidades que relegam amizade a forças circunstanciais e acenam em néon e uísque com borbulhas de jazz glamouroso ou musiquinhas de gosto geral, feitas por gente incandescente como eu para servirem de piada particular e trilha ilustrativa. O som desconexo da palavra “fama”. O status surreal da solidão monástica - uma prece para o estrelato.

É fácil competir com rostos e formas, já que estamos todas mais ou menos alinhadas com as propostas globais e com todo tipo de pedidos e encomendas. Caminhamos firmes e sensuais sob olhos atentos que anotam cada pequeno deslize e aplaudem cada proto-iniciativa. Um petit-comité atraente e assustador, iluminado por luzes de mil watts que matam de calor e fazem suar frio, pois deixam qualquer mortal com aura de aparecer na TV. Pare sob os rebatedores e experimente. É um frisson impressionante que vale cada mão de pancake, cada passada de lápis, cada ponto de glitter.

Caminho pulando cabos, tropeçando em nomes e egos. Uma passada no make-up room para lavar o rosto e as olheiras mal disfarçadas pela intensidade do trabalho e retocar tudo de novo em tons que vão se sobrepor às peças e mudar meu colorido para algo mais apropriado. Eu quero e sei que não devia. Sei que não devia me transformar em detergente. Me intriga a validade do sexo por terceiros, o sorriso de projeção das colegas durante conversas com qualquer playboy subsidiado pela indústria, que trepa e diz que trepa com todo o catálogo da Alta Casta Models.

Ouço a naturalidade do discurso sobre o créme de la créme básico, cotidiano, me pergunto se sou eu quem está deslocado ou se é tudo questão de se inventar um passado, e injeto nas veias fumaça de cigarros caros, refrigerante, café e brie derretido da produção do evento. Voltar para casa é imaginário e não há sentido em se desligar da tomada e deixar de receber volts de créditos rolando na tela, aplausos de vips nas laterais da passarela, olhares curiosos nos camarotes e alleys. Não há por que dormir. Não há que se dizer “bom dia”. Não há que se ouvir o sem glamour, o tímido e o discreto. Há algo mais ilusório que a vida real, fora do brilho fashion victim? Nada daquilo tem interesse. Ou será que meu banheiro dá ibope? Começo a compreender o olhar vazio de modettes e socialites, quando perguntadas sobre vida particular. Não existe vida – existe espetáculo. O mundo precisa de retoques. Eu quero glamour.

Quero me entreter. Me entretenha ou me perca. Poucas vezes pude abrir os braços, piscar e perceber uma pessoa real vindo em minha direção. Sempre uma redoma me atropela, chegando às vistas da platéia vestindo um modelo-surpresa, uma fenda maior que a minha, um decote mais ousado que o meu. Neste ponto, vendo a alma ao Diabo. Eu aceito. Em troca, quero fama, dinheiro e néon. Troco minha luz por néon e primeiras páginas relevantes. O princípio da audiência é mais fiel que um cão, enquanto as pessoas muitas vezes são gatos, que pleiteiam afago e leite junto a aquilo que se transforma facilmente em sua caixa de areia. É fácil adotar um bichinho. Difícil é mantê-lo aquecido e longe de olhares de seca-pimenteira. Difícil também é convencer, dia após dia, as pessoas em volta de que seu rosto é neutro e vai bem com tecidos do couro ao tactel.

Jogue lixo em mim, mas é bom que a sucata venha em formatos novos. Posso sempre reciclar um desprezo e apresentá-lo como segundo ato na composição operística e circense da coleção para a próxima temporada. Você me chama de brega e eu rio do rótulo. Aí, seis meses depois, surjo linda e poderosa, usando enormes óculos fumê e sorrindo toda Farah Fawcett. Você me chama de infantil. Eu encho meus biquínis de beijinhos de batom e faço qualquer titio babar e aumentar a vendagem das revistas em que eu, (eu, óbvio) apareço na capa, usando nada além de uma singela meia soquete. Aí você não desiste e diz que eu ando vulgar demais. Ah, aí é facílimo: tem um estilista amigo meu que está investindo tudo no lilás. Eu visto um tubinho de chamois superclássico e flutuo sobre a trilha sonora mais leve do mundo. Quero ver editor no mundo negar que minha vingança vai para a capa.

Não se sinta constrangida por mim. A vida é um conflito. Não sei quem vai vencer - se eu, eu agora ou um novo eu. Assisto entretida e, quando acabar o desfile, visto minha melhor roupa e caminho em transe até Nova York, Paris ou Milão. Qualquer que seja a estação e onde quer que a última panelinha ache que me pode negar o vício. Te vejo no topo, amore. Espero que possamos dividir um loft, tomar um belo e quente capuccino - só um pouquinho, porque açúcar é o fim - ou, quem sabe, entornar um uísque na cabeça de algum editor de moda que usa palavras estrangeiras para expressar conceitos simples. Mas muito franca que eu não me vendo por pouco. Jamais aceitaria aquela submissão por apenas um circuitinho subamericano. Eu quero é mais. E se meu plus não vem como modelo, e se a vida na moda me rouba até o tesão, se me põe no feminino, eu saio linda, loura e japonesa, mas levando o que puder comigo.

Volto para a cobertura de Giorgio, tomo um banho de duas horas falando sozinho, reúno todas as sobras da festa – drogas, comida e vinis –, faço uma grande mala e pronto: estou fora. Não sou chegado a cenas de adeus, e simplesmente me recuso a fazer um telefonema para aquela gente fútil. Estou de volta à ativa, de cara lavada e os bolsos cheios de grana de cafetão de ninfeta. Meu destino, Arcadia. Nacib já está lá – ele sempre está – e sei que vai me acolher, contanto que eu jamais toque no assunto “viadagem” e apresente uma quantidade boa de maconha e alguma disposição para ajudar com a louça. Isso não seria problema.

Chego à casa de madeira, cansado, e a umidade relativa do ar na Arcadia é tão alta que você respira um estado físico que a física não pôde jamais prever. Uma espécie de algodão gelado flutua no oxigênio, consistentemente misturado ao som de água corrente, constante na Arcadia. Muito verde, nada de sol, uma espécie de narcótico natural dança pelo ambiente quando chego e ponho as malas no chão. Sigo direto para o quarto, para a enorme cama de casal coberta por uma colcha de zebra, e simplesmente apago por dois dias. Nos dois dias seguintes, me alimento apenas de café e cigarros. Nos outros dois, maconha, café e cigarros. No seguinte, um macarrão com alho, que Nacib prepara com maestria, e injeções nunca tão boas de heroína, combinadas a nada mais que café. Passo os dias deitado na rede, escarnecendo do mundo inteiro e me sentindo um idiota por dar valor a qualquer coisa que fosse, e que demandasse qualquer esforço além de simplesmente deitar numa rede e apreciar um bom baseado de Arcadia. Apenas fumar e tomar café, até que chegue uma meia dúzia de amigos, com um aparelho de som e músicas que eu associava diretamente àquela casa, como discos cool de Cardigans, Air, Squirrel Nut Zippers e Portishead. Ah, eu estava realmente ali, num retiro espiritual pleno e perfeito, sem preocupações ou qualquer chance de fazer besteira. Aquele era meu personal paradise.

Mijar ao ar livre ali é um dos meus passatempos preferidos. Você acende um cigarro, abre a braguilha, sente um calafrio terrível quando o ar agarra seu pau, uma energia deliciosa trespassa sua espinha quando você respira fundo, e o ato de mijar em si, o fluxo para fora, é um orgasmo sem limites, pois o seu canal seminal está verdadeiramente contraído. Um homem sabe que está em casa quando mija feliz, sem se preocupar com absolutamente nada. E quando mijo ao ar livre na Arcadia, passo cerca de dez minutos segurando o pau, olhando para o céu e cantarolando uma ou outra musiquinha de criança ou de Coleman Hawkins. Isso se prolonga por horas, caso eu tenha ingerido uma quantidade boa de maconha. Mas o fato é que a Arcadia deveria ser o final obrigatório de cada viagem e o início compulsório de qualquer relacionamento. Nacib tinha o local perfeito para a humanidade. Quando apertassem o botão, ele correria para lá e a atmosfera do lugar não deixaria a radiação passar. Eu faria o mesmo quando estivesse ficando louco.

Dez dias na casa de Nacib renovam qualquer ser humano. Posso agora voltar a Underdogsville e reiniciar meu processo burocrático na embaixada. Posso também limpar totalmente minha consciência, me submetendo a algumas sessões de Interconscience e terminando de vez a porcaria do livro com Henry Lee. Posso e preciso dar um rumo em minha vida, já que percebi que meu cinismo não vai me salvar quando as circunstâncias me forçarem a ver que não há mais nada ali; nada a ser extraído. Meu pau já havia ficado no caminho e era trabalho suficiente me manter desacordado para não encarar o terror mental que aquilo logo começaria a me causar. Esperar que minha alma seguisse a mesma trilha não parecia um bom negócio.

Nesses dias de volta à cidade, enquanto fazia as aulas do curso ilegal de preparação para os testes físicos da embaixada, apenas um pensamento me vinha à cabeça: o que aconteceu entre mim e Hannah? Foi nela que tudo começou, desde que abandonei o barco da chance mais óbvia que tive de arranjar uma cúmplice e rodar a Terra? Estava nela a resposta para tudo que eu vinha me perguntando sobre a vida e as coisas do mundo? Ou realmente tudo conspirava para que eu precisasse passar por todo tipo de provações até conseguir deixar o país, como um Cristo desgraçado ardendo em chagas? Já havia passado tempo demais desde minha última experiência com o yage para que agora eu voltasse a acreditar num plano superior e considerasse essa segunda hipótese. O que eu precisava era de, mais uma vez, me entregar aos conhecimentos do Doutor e doutrinar minha necessidade de controlar o ambiente. Talvez eu estivesse racional demais. Era isso que me emperrava. Estou de volta.

- Peraí, cara! Eu sou meio careta – ela disse.

- Tudo bem, eu também - retruquei.

- Oquei.

- E namorado? Cadê o seu?

- Não tem.

- Bom saber. O daquela ali é gay. Repara na maneira que ele olha ela e os outros dançarem.

- Ele não é gay; ele só não deve gostar de chorinho. Ou de jazz. Ou de samba. Ele é travado.

- Ele é definitivamente gay.

- E você é jornalista, certo?

- Mas hein?

- Tá na cara. Ah, e eu sou vidente. Sério.

- Ah, é? E o que mais você vê? Você vê que eu tô te cantando? Ou você é careta demais para ter esse tipo de visão?

- hahaha! Eu não vi isso... Mas é chato ser careta, não?

- Nisso eu posso te ajudar. Vem cá.

- Porra, pára! Você vive num filme?!

- Num livro. Sim.

- Mas então você é um personagem. Que merda!

- O personagem e o autor, na verdade. Além de escrever a história, eu tenho liberdade total para agir dentro dela, já que é tudo ficção.

- Mas isso aqui é vida real, querido.

- Só se você quiser.

- Putz.

Nos beijamos. Dali tomamos um amarelo taxicab e partimos apaixonadamente – eu, obstinadamente – para meu triste e esfumaçado apartamento das coisas jogadas e da pia nua, sem bancada, sob o espelho esclarecedor. Ele nos mostra passando embolados, tirando camisas, para então a cama nos receber com suas manchas de sangue e todo tipo de coisa. Subo-a pelo colchão, como se fechasse uma gaveta, e ela agora é bem mais silenciosa que naquele bar de choro e jazz negróide. Os cabelos lisos e negros cheiram a cigarro mentolado com canela e, entre as pernas, um cheiro inconfundível de roupa limpa. Mergulho. Profundamente. Ela me pede para não parar e o disco do Coltrane continua tocando baixinho, talvez desde a seção de ayahuasca, inclusive. Estamos em plena “Nancy (with a smiling face)” e o ambiente revela outro cheiro: o de plástico novo e quente, vindo do aparelho de som. Decido ali jamais de novo interromper aquele jazz, que já fazia parte da mobília e, pelo aroma, deixava o lugar cheirando a loja ou carro novo. Aquilo me dava tesão.

A mulher tinha uma maneira toda própria de me agarrar – forte, mas sem exageros – e minha mente estava centrada em seu sexo como poucas vezes na vida. Um calor gigantesco sobe então da base de minhas costas e se espalha por tudo enquanto rolamos na cama – ela contraída e eu enganchado pela boca entre suas pernas. Ela tenta involuntariamente fugir, mas nem cogito deixar. Até que a mulher diz “vem”. E eu vou. Como um menino obediente, levanto o rosto e miro agora seus seios, grandes, duros, claros, e quase enlouqueço de felicidade. Me sinto um cavalo, pronto para romper os limites da fazenda. Escalo o corpo, me roço inteiro, sinto os pêlos repuxarem em minhas pernas contra suas coxas irritadas. Me ponho em posição e, sob um som de ssssssss, busco o pau com a mão esquerda. Hum. Apenas um segundo de empolgação, até perceber ali apenas um pequeno inchaço, e uma cabeça volumosa e pulsante. Nada que valesse a pena ser empurrado para dentro da mulher. Ela estava certa. Definitivamente aquilo era vida real.

Paro. Pisco duas vezes e a olho no fundo dos olhos. Ela põe as mãos no rosto, como que dizendo “que merda” e ajeita os cabelos no travesseiro. Molha os lábios com a língua. Pensa em dizer alguma coisa. Desiste. Solta o ar. Sinto uma repulsa indescritível, uma vontade de ter o corpo içado dali, e rolo para seu lado esquerdo. Vazio. Fim do mundo. Buraco. Paro ali por cerca de cinco segundos e me sento, de costas para a cena. Amarro um tubo de borracha no braço direito e simplesmente faço o serviço. Tudo limpo. Agora acendo um cigarro, olho para a porta, e bastam alguns segundos para meus olhos pesarem, Coltrane dar uma gargalhada maravilhosa, o cigarro cair e a mulher passar embora pelo canto do olho, vestindo-se rápido, murmurando qualquer merda sobre “sair do maldito quarto”. Mulher-porta-parede-pia-vitrola-o teto-janela-macio-apago.

Os três dias seguintes esgotam meu estoque da droga e, exatamente por isso – e não por obediência – decido dar minha burocrática passada na burocrática embaixada para, logo após, retornar à câmara do Doutor. Shabana dos cabelos uva não trabalha mais lá, sou informado por Ahmed, o segurança. “Shabana agora outro prédio”, ele me diz, fazendo cara de velho amigo. Não há nada mais deprimente do que ter que ser cortês com aqueles que detêm o poder sobre sua vida – e simplesmente decidem não fazer nada por você. Provavelmente até Ahmed deveria concordar que eu não tinha condições de merecer seu país. De qualquer forma, me dirijo até o balcão. Algum falatório com um senhor que falava menos a minha língua do que eu a dele, até que entendo algo como “seu pedido foi aceito”. Dou um passo atrás, como que levando um choque, faço um gesto de “jogo encerrado”, arregalo os olhos e digo, didaticamente: “REPEAT”. O velho consulta seu livro, mexendo nos óculos grossos, e diz: “Sahib Henry Lee. Pedido aceito. Encaminhado Terceira Ordem. Prazo em estudo. Logo. Logo. Salam”. Ponho as mãos na cabeça, olho para o lado como que buscando uma referência, vejo um folheto sobre a desburocratização dos serviços públicos e só posso balbuciar “Funciona. Salam”. Volto para o balcão, ponho a mão no peito, a outra sobre o enorme livro de registros, e consulto o velho marroquino com meus olhos incrédulos. “Sim? Nome?”, ele diz, prestativa e solenemente, começando o procedimento do zero.

Todo o ar é leve, um cheiro ótimo de desinfetante e lança-perfume corta Underdogsville, e a trilha sonora da rua é “They all laughed”, na onipresente vocalização de Chet “the dope fiend” Baker. Allah! Allah! “But hohoho!, who`s got the last laugh nooooooow?!”, eu grito quase sem melodia para uma senhora na calçada. Planejo escrever a bíblia; eu sei que posso. Planejo não dormir nunca mais; eu SEI que posso. Planejo amar a todos; eu SEEEI que posso. Planejo voltar para Hannah e levá-la na bagagem. Eu sei que posso também. Minha cabeça está cheia de planos que vão sumindo enquanto enfim chego ao consultório do Doutor e vejo a mim sentado, paralisado, gélido, cantando algo sobre a floresta e mãe e pai, e misturando o hino a qualquer coisa de Thelonious Monk – é o que parece, dadas as pausas e melodia entrecortada. Na cama, apenas um lençol manchado de batom, sendo recolhido por Salieri, que me aponta o dedo e diz apenas: “Agora chega. Saia imediatamente daqui”. Não entendo nada; muito menos quando Hannah me sopra ao ouvido: “você sabe o que eu penso sobre isso tudo”.
Meu braço dói incontrolavelmente, um terror vermelho me toma por inteiro, penso em infarto, penso em metros de pênis se arrastando pelo asfalto, penso na pia pingando esperma, penso em Salieri vomitando ópio, penso na beleza do farol dos carros... e acordo me sacudindo de dor, amarrado numa cama em algum lugar cortantemente branco e claro-claro, babando, babando, espumando, e sentindo espátulas geladas empurrando minhas pálpebras para dentro. Pelo amor do que quer que seja, me mata por favor!

Choro copiosamente – ao menos tento – e parece que um mutirão de grandes negros me segura para baixo. Como se eu pudesse querer voar. “ZZZZZZ”, é só o que posso dizer. Não consigo nem ao menos sentir qualquer coisa próxima a medo; apenas assisto à minha mais completa humilhação. O único pensamento nítido que consigo formular é o de que realmente estou ali – onde quer que “ali” fosse. Talvez pela primeira vez na vida, eu tinha a exata noção de que absolutamente estava em um lugar – por completo – e não sabia que lugar era aquele. O suor brota como chuva de cada póro de minha cabeça, e meus cabelos pingam, chovem realmente, e não há uma nota sequer dançando no ar gelado. Frio. Muito frio. Realmente preciso de algo. O Rashid aqui fechou a conta no Canadá, como diria o Doutor. Preciso de um abraço de um desses caras. Como eles devem ser sorrindo, cuidando de seus filhos gordinhos? Eu quero um filho gordinho e negro, para me proteger. Hannah! Me ajuda, pelamordedeus.

Apago.


- Sail away, sail away, sail away.

Enya.


Acordei. Nunca estive tão drogado. Nem tão limpo. Ou barbeado. Sou exatamente idêntico ao coitado aqui ao lado, fazendo “sim” com o corpo inteiro, sem parar um segundo sequer. Ele é apenas um pouco mais magro, mas isso é questão de tempo, já que entendo profundamente seu eterno “sim”, e meu corpo pede para que eu o deixe seguir o ritmo. Caixa-bumbo-“sim”. O piano introduz a melodia levemente árabe e assimétrica, sendo seguido pela seção rítmica, numa marcação seca e reta. Os metais entram em conjunto, mantendo a formação clássica e brincando com modulações típicas da música norte-africana. Tudo muito clássico. A melodia-tema é apresentada no trompete, volta-se ao primeiro padrão. Tudo transcorre normal e lindamente até que, a exato um minuto decorrido do início, os metais fecham mais uma vez a melodia-chave e, em seguida, repetem um arranjo típico de Glenn Miller – a antítese do bop.
Mas o padrão é interrompido, assim como todo o resto da banda, e Parker simplesmente explode em cena fazendo ascender uma escala exótica e absurda que se mescla a arpejos e notas dissonantes, completamente descoladas do ritmo proposto e numa velocidade incrível e inimaginável para qualquer um que pensasse o tema apenas como uma referência elegante ao exotismo da Tunísia. A loucura de Parker dura aproximadamente vinte e seis segundos, após os quais ele cede a vez ao trompetista, que introduz seu solo levemente, para também respirar, perceber-se antigo e fechar sua aparição ao estilo mais bebop que se pudesse esperar, com frases curtas, cheias de vigor e, ao mesmo tempo, silêncio, cedendo agora tão impotente ao patamar que Parker havia imposto àquela bela interpretação de Gillespie. O trompetista dá o braço a torcer. Parker retoma e reafirma o que havia dito.

Preciso manter minhas referências. Preciso focar. Eu sei que vou sobreviver.

- Boa noite.

- Bom dia.

- ...Tanto faz. Underbroadway, por favor.

- Essa hora é “boa noite” para quem não dormiu, certo?

- Perdão. Eu não falo sua língua.

- Sim senhor.

Flashes. Fragmentos. Os negros de branco concordam com tudo. E sabem como agir para me fazer descansar.

A TV é impressionante. As transmissões correm atrás do que entendem ser a identidade da Subamerica. E o pior é que a identidade da Subamerica, convencionou-se, é a identidade da casta excluída, que, vez ou outra, é eleita para ditar modismos. E todo mundo vai atrás. Não há tevê para pessoas com um nível acima do zero absoluto. A não ser para os que FAZEM a tevê. O trabalho deles é muito simples: é facílimo implementar a regra da boa vizinhança com o Zagreb e outros morros quando você é esperto o suficiente. Basta olhar em volta e perceber como eles agem – os negros coloridos. Os negros excluídos. O negros de branco já passaram para o nosso lado. Os coloridos ficam lá, servindo de mostruário para os integrados que sabem transitar por todos os meios, porque sabem subornar, chantagear, cooptar. Há muito tempo eu não tinha uma televisão.

Estou tremendo de novo. Não sei mais em quem pensar. Por que todo pensamento termina em tremedeira? Por que ela cresce? Por que a cama faz barulho, caralho?! Banho frio e cama para mim agora. Já sei de cor. O que afinal eu estava procurando? Fosse o que fosse, eu desisto. Eu sou um jornalista, e tenho um dever cívico a cumprir. Preciso me alimentar decentemente e parar de vomitar. Preciso escrever sobre isso aqui. Isso não está certo. Eu sou um escritor. Eu sou um viajante. Eu busco a face de Deus em todas as pessoas, em todas as coisas. É o que eu tenho a dizer. Eu juro que havia algo a ser passado. Mas sem moralismos. Nunca fui de ouvir sermão.

E bingo. Sem mais delongas, estou fora. Ordeira e constrangedoramente penteado, num susto, estou na calçada. Tenho um envelope pardo debaixo do braço. Pareço um menino de oito anos, com os cabelos divididos racionalmente, limpos, e as bochechas lisas como... Tenho dinheiro no bolso. Não consigo pensar no que fazer. Essas roupas não são minhas, mas tanto faz. Preciso arrumar o apartamento.

- Underbroadway, por favor.

- Sim senhor.

- Como está o dia?

- O senhor também acabou de acordar?

- Acho que sim.

- As árvores estão florindo, nessa época.

- Em Underbroadway, as árvores fazem esse espetáculo.

- Meu garoto passa o dia trepado nelas.

- Ah, crianças.

- Um dia o senhor vai ter uma.

- Bom dia.

Chego ao prédio e quase não reconheço. Pela primeira vez, consigo discernir o que a velha diz, em seu tom de apito canino. Ela diz um monte de merda. De aproveitável, diz apenas que já devia ter jogado minhas coisas na rua, já que eu andava sumido há tanto tempo, e que eu deveria agradecer de joelhos o fato de ela ter arrombado a porta, desligado o aparelho de som e trocado minha roupa de cama, além de ter varrido tudo para mim e posto ovos na geladeira. Dou um abraço na velha. Mulheres sempre souberam cuidar de mim. Sempre elas. Desde Ofélia até Hannah, elas sempre foram meu bom-senso, meu pé no chão, meu consolo. Na verdade, até hoje, foram sempre as mulheres que cuidaram de mim: Ofélia, Hannah Valentine, avós, bisavós... Nunca maculei Ofélia, minha mãe contratada. Ainda assim, para mim, sexo e cuidado caminham juntos. E não poderia ser diferente. É tudo amor.

Levanto-me do divã, alcanço um cigarro no bolso da camisa, despeço-me do terapeuta encarregado da Ordem e não consigo deixar de pensar: se você é mordido por uma cobra, a cura está em mais uma dose daquele veneno. Se você se atrapalha com suas viagens mentais, a cura está em mais um pouco de egotrip. Talvez o grande segredo da vida seja saber administrar suas drogas, sejam elas quais forem.

Henry Lee então percebe que Henry está no ponto em que sempre quis chegar. Fazia tempos que o viciado estava atrás de um passado, imerso em saudades do que ainda não havia visto. Agora o homem havia ao menos começado sua existência e, segundo seus critérios, passava a ser uma pessoa real. Já havia elementos em sua trajetória para que se considerasse um imbecil – parabéns, Henry Lee – e, portanto muita coisa havia sido deixada para trás. E trazida, sob forma de recalque e memórias, junto consigo. Poderia seguir em frente. Tudo oquei, mas, ao mesmo tempo, pensava, tudo aquilo já fazia parte dele. Não era mais sua história – não era na verdade uma história – eram idiossincrasias de um personagem auto-elaborado. Assim valeria? Isso parecia não servir a seus propósitos. Faltava uma peça.

Era necessário agora, para que valesse a pena sentar e escrever, projetar o que havia pela frente, a Experiência, a Vivência que se mostravam ao longe. Coisas que estavam à sua frente. No Marrocos ou em Underdogsville, onde quer que houvesse a droga da iluminação – essa que não vem em ampolas, papelotes ou cipós – era necessário sair à cata. Ao primeiro pensamento, a busca parecia interminável, e, para piorar, uma nova questão se abria em sua mente de asceta da civilização: como realmente fazer vítimas, quando a cena do crime era seu próprio corpo? Como fazer quando tudo, de Hannah a Giorgio e ao Doutor Salieri, estava claro e inegável em seu rosto? Quem era a vítima daquilo tudo na verdade?

Seria necessário deixar a si mesmo para trás, para que se pudesse viver alguma coisa em seu estado mais puro? Estaria o Doutor, sob toda sua enorme insensibilidade, absolutamente certo? Era necessário eliminar o ego e todas as suas camadas para realmente possuir uma mente ao menos relevante? As questões lhe congelavam o crânio, mas a hipótese de desistir estava totalmente eliminada. Henry Lee sabia exatamente o que acontecia a suas veias quando o tédio da vida real batia à sua porta. Entregar-se aos répteis do mundo não seria nem por um segundo uma boa escolha. Talvez assassinar alguém e ser obrigado – com ou sem a papelada – a fugir fosse uma solução. A melhor e mais óbvia versão da palavra “vítima”.

Lee lembra-se então do amigo cleptomaníaco do navio e se pergunta se Hannah não seria um bom capitão, revirando suas coisas metodicamente e dizendo “você sabe o que eu penso sobre isso tudo”. Talvez toda a Maravilha a ser buscada estivesse bem no meio geométrico das sardas dominantes de Hannah Valentine. Mas, se fosse o caso, a dona do maior bom-senso do mundo provavelmente não o aceitaria, com todo o seu medo e sua falta de reflexão sobre as conseqüências de seu ato de voltar. E forjar um discurso eficiente para convencê-la a recebê-lo de volta seria golpe baixo demais. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria sendo bem-sucedido. É nesse ponto que Lee decide apenas procurá-la e ouvir uma dose de esclarecimento sobre sua própria saga.

Hannah, segundo lhe contara uma bicha amiga, agora reunia seus pertences num endereço estranho, numa rua de Neocopa sobre a qual ele jamais havia ouvido falar. Neocopa é pródiga em buracos. Seu templo – o de Hannah – ficava por lá. Como conseqüência do tratamento de focalização a ele dispensado na clínica, decide então deixar o taxicab passar lento a seu lado e tomar um ônibus até o distrito. Como não sabia onde saltar, foi sentado à janela, fumando ansiosamente, estalando os dedos, acompanhando as ruas se revezarem em nomes e bares imundos. Até que sente o corpo pesar para direita e percebe que o ônibus faria um retorno. Levanta rápido e salta num pulo. Está na boca do túnel.

Iluminado apenas pela frente pela iluminação artificial, decide cruzar para o outro lado, curioso sobre o novo ambiente. Cruzar túneis a pé era sempre fascinante. Ainda mais este, em que as luzes amarelas eram enfileiradas ao longo do caminho e formavam um arco impressionante sobre sua cabeça. Cerca de uma dúzia de fileiras de luzes vindas de trás de sua cabeça e se eternizando do outro lado. Lindo. Cada luz, viajou na ideia, parecia uma das pessoas que foi deixando para trás e, à medida que chegava mais uma vez mais perto de Hannah, sentia-se mais forte e mais rico de experiências. A felicidade era automaticamente induzida como o Interconscience, uma vez que as paredes e o teto do túnel, no arco, eram cobertas de azulejos brancos, o que transformava os sons dos automóveis pardos em um belo uníssono polidimensional. Lhaaaaaaaam... Os carros passavam e tudo era decididamente urbano. Seco. Real. E lindo.

Alguns minutos de delírio e devaneios, até o som se diluir na noite de Neocopa novamente. Subitamente, do outro lado da coisa, surge o nome da rua em que ele deveria virar. Suor. Ele mergulha e vira novamente, em uma ladeira que – como ele nunca havia percebido? – era o retrato mais fiel da parte asiática de Istambul, com seu cheiro de carne ao ar livre, seus vendedores de todo tipo de coisa, suas putas, seu calçamento de paralelepípedos irregulares, suas casas deformadas, seus rostos sujos e tristes, suas revelações. O número no pedaçao de papel. Henry Lee estava muito próximo à calçada para perceber de imediato que aquele portão se referia a um verdadeiro castelo tombado, encrustado em plena Terra da Merda. Residências Saint Germain.

Ele entra e cruza nas escadarias externas com uma mulher solteira e suas duas crianças de casta inferior. Não há tempo para dizer “boa noite”. Henry sobe cada degrau pensando em Hannah, louco para revê-la e dizer apenas “quero ir embora”. As portas estão abertas e ele passa por dois andares de degraus que circundam uma sala mal-iluminada, com uma cozinha coletiva e uma grande e pesada mesa de madeira escura e sólida. O lugar poderia perfeitamente ser um hotel de quinta – exatamente igual ao Angela, na parte esquecida de Atenas, Grécia, em que garotas de programa lastimáveis puxavam velhos gregos e bissexuais pelo braço ou pelo pau para o andar de cima. Crianças inferiores comentam alguma coisa engraçada lá dentro. Estranhamento. O cheiro de guardado, fumo e incenso é impossível de ser ignorado, e a música ambiente é o som da rua, um uníssono de vida noturna de gente que não dorme nem sob morfina no crânio. As escadas não terminam até o quarto andar, onde Henry enfim vê centenas de portas escuras, algumas entreabertas, revelando garotões degredados do mundo e famílias marrons, voltadas para si e cagando para tudo. Mulheres de calcinha através de pequenas frestas. Cada porta semi-aberta permite apenas – dada sua curiosidade – entrever as pessoas ali. Nenhum ambiente se revela. Todo tipo de gente, dos mais inúteis aos mais geniais – tatuadores, transformistas, músicos, artesãos, viajantes ingleses, suecos, angolanos, rapazes sem paradeiro buscando inspiração para verdadeiras futuras obras de arte, farsantes, vagabundos pretensiosos, pseudo-gênios, pseudo-pobres, excêntricos – ocupam os espaços vagos no meio daquela babel neobeat de Neocopa, construindo uma Neosubamerica com sua neodisplicência e sua neoalienação às regras do bem-viver.

Chega então ao quarto de Hannah, confere o número no papel, e bate na porta. Nada. Põe o ouvido. Ninguém. Bate de novo e ouve apenas “não fode”. Aquela definitivamente era ela. Confere a maçaneta e simplesmente não há chave que o impeça.

Um ambiente opressor, cerca de quatro por quatro, cor de rosa gasto e pessimamente iluminado, com uma beliche à sua esquerda, logo depois de um armário de aço marrom e enferrujado, e, à direita, uma poltrona lastimável e um suporte para TV vazio. Ao fundo, a janela, grande, dando para Istambul por detrás dos galhos de uma enorme árvore. Henry procura qualquer traço de habitação ali, mas só encontra o som de água corrente vindo do banheiro, mais à direita, quase atrás de si. Vira-se e a cena é muito simples: Hannah sentada no espaço exíguo do chão, quase dentro do box imundo, com um tubo de borracha amarrado no braço direito, se injetando numa quantidade de gente grande, e segura de si. Ela levanta a cabeça, luta para olhá-lo nos olhos e pergunta, olhando em volta: “você sabe o que eu penso sobre isso tudo?”. Lee recusa-se a ouvir a continuação. Apenas analisa o altar da entidade do ópio, com suas múltiplas bandeiras para a polícia e sua total falta de preocupação em fazer ao menos seu trabalho de forma limpa. Definitivamente – ele conhecia o termo – uma viciada. A pior de Saint Germain.

As lágrimas brotam como mofo enquanto ele a pega nos braços, mole, a põe na cama e cuida dela, seguindo o ritual de molhar uma camisa na pia e passar em sua testa, enquanto a mulher treme e sorri como um bebê, com seu bumbum impressionantemente redondo e liso implorando por palmadas. O quarto fica cada vez mais escuro, e a droga, ao lado da cama, parece cada vez mais necessária. Henry Lee então diz “não”, interrompe seus cuidados e desce as escadas em fuga, completamente entregue ao som dos ambulantes das quatro da manhã, direto para o único lugar aonde agora poderia pertencer: a câmara. O caminho passa como um raio, embora o lugar estivesse do outro lado de Underdogsville. Mas o homem estava saudável e corria como um foguete, pulando sobre capôs e furando pequenos aglomerados de integrados festivos, vencendo o vento que gelava o suor de sua testa e sob sua camisa, enquanto apenas corria sem ao menos olhar para os lados. Este era Henry Lee, sóbrio como um bispo, e correndo como o próprio Henry Lee Junky sabia fazer, desde os tempos de Leo Barata, desde os tempos da fuga de Istambul, desde os tempos de Cristo encarnado. Ele corria e emitia apenas um “ah” a cada passada, desesperadamente pulando sobre bueiros, passando distritos, furando o tempo, vendo os carros estenderem lençóis vermelhos no canto do olho. As luzes, os carros, os sons. Distritos, Riviera-à-la-plage, Undergenéve, A velha Underbroadway, A Olhos, Via-Traffic, Passagem, Distrito Sujo, Kinoland, o Centro, luzes, direto para o fim do mundo, direto para Doutor Salieri.

Homens verdes e coloridos arrombam um caixa automático em frente ao Zagreb, mas Henry Lee não tem tempo para sacar dinheiro. E o Zagreb era território proibido, desde seu próprio arrombamento seguido de fuga com produto bancário. E os verdes viram lençóis de luzes no canto do olho enquanto o presídio à esquerda já é passado sob sinais fechados e freiadas bruscas para Henry Lee, que passa voando sem ao menos olhar para os lados. Minutos, segundos, centésimos, a câmara logo ali, aqui, e o homem está de volta, irrompendo a porta e avançando, deixando uma sombra de suor no fundo, na mesma parede em que depositara os olhos durante eras, durante as sessões de Interconscience.

Ele está de volta, batendo, voltando, caindo no chão e pulando em pé. De volta. Silêncio. A máquina de escrever ali, com a folha no ponto, prestes a significar, e um copo de yage decantado sob uma água podre e amarela emanando um odor pungente de morte. Henry Lee está de volta e Henry Lee volta e Henry Lee olha em volta e se revolta, pois Henry Lee está de volta e simplesmente Henry não encontra mais ninguém.

Pensa em chorar, mas decide não deixar. Prefere encher o peito e soltar o ar, para depois sentar no chão, se esticar por baixo da mesa e trazer o kit de primeiros socorros-últimos recursos. Pára por um segundo, vislumbra o dever do livro cumprido em sua cabeça, amarra um tubo de borracha no braço direito e faz um serviço limpo, faminto e profissional. Henry Lee Junky está ali inteiro, e definitivamente no ponto. Ecoando no vazio, o vulto imediatamente pálido arrasta o sapato bicolor no chão e sai descontrolado como um babuíno do cu encarnado, exibindo novamente uma ereção juvenil, fazendo todo o percurso de trás para frente, direto para o taxicab mais distante que se possa encontrar.

- Boa noite.

- Bom dia.

- Tanto faz. Neocopa, por favor.

- Neocopa é para quem não pretende dormir, certo?

- Perdi o sono.

- Vai perder o dia também.

- ...

- Essa hora é “boa noite” para quem não dormiu, certo?

- ...

- Sim senhor.

Aqui ou em Tânger, Marrocos, a insatisfação e a procura pela face de Deus. Em todas as pessoas, em todas as coisas. A busca cega, a Maravilha que não se enxerga. É que a estrada não se encerra onde se encerra o dia. O grande lance é rodar e se preparar para quando nascer o sol. Porque ele vem, tão certo quanto um baseado antes do sexo ou um cigarro logo depois. Na verdade, no final das contas, não há com o que se preocupar, desde que se acorde e saia – mas é preciso ir. Perder o sono; ganhar a noite.





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